Eles ralam muito mas não ganham um tostão pelo que fazem. Apesar de todo o esforço, da vida regrada e cheia de privações, com hora pra tudo, sofrem pressão da família e do meio em que convivem. Uma pressão que se concretiza naquela corriqueira e arrepiante frase (especialmente para os de 20 e poucos anos): “Já passou da hora de você arranjar um emprego!”. Estamos falando dos concurseiros, pessoas que geralmente abandonam o trabalho para se dedicar exclusivamente aos estudos. São em sua maioria pessoas recém-formadas em algum curso superior - principalmente em Direito - que almejam os altos salários que alguns órgãos como Ministério do Trabalho, Tribunais de Justiça dos Estados, Receita Federal, Polícia Federal, entre outros, oferecem. São candidatos que criam meios de se sustentar, seja pelo apoio da família, seja porque conseguiram juntar dinheiro para sobreviver no período - tempo este que vai se encerrar tão logo (mas tão logo mesmo...) o estudante ingresse num cargo público daqueles, tal como juiz, promotor, delegado ou analista tributário. Pelo fato de, em muitos ocasiões, se isentarem da responsabilidade de pagar as próprias contas, revivendo uma situação parecida com a fase pré-vestibular, muitas vezes são tachados de “folgados” e de “boa-vida”. Pablo Magela Boirigo de Andrade, responsável pelo departamento comercial do cursinho Damásio de Jesus, informa que dos 115 estudantes matriculados na escola pelo menos 20 são concurseiros de plantão. A maioria absoluta é de quem se forma em Direito. Andrade conta que conhece casos de alunos que estão há 5 anos se preparando, mas que continuam estudando. Alguns, pelo conhecimento adquirido, teriam condições de passar em vários processos seletivos, mas preferem depositar suas fichas nas avaliações mais disputadas.
DISCIPLINA: A CHAVE DO SUCESSO
Angélica Zanon Silva Martins, 27, é um bom exemplo de como é viável a vida de um concurseiro. Após se formar em Direito e advogar por três anos, guardou uma boa grana (não revelada) e parou de trabalhar para se dedicar exclusivamente aos estudos - apesar de ter advogado esporadicamente na época. Foram dois anos de muitas privações e pressões que valeram a pena. Hoje, Angélica comemora ter passado em seis concursos e já tem emprego garantido. Está trabalhando há dois meses como técnica na Receita Federal de Franca. Na semana passada foi nomeada em três concursos e, ainda neste mês, assumirá o cargo de analista judiciário no Tribunal Regional do Trabalho da região de Ribeirão Preto, cujo salário inicial é de R$ 6,5 mil. A jovem estudava cerca de seis horas por dia, em casa, e complementava com aulas particulares de redação e língua portuguesa. Sempre contou com o apoio da família. Ela se lembra bem do tempo de concurseira e pressão psicológica que sentia principalmente de si mesma, além da interpretação equivocada que alguns faziam de sua condição. “Às vezes é uma pressão mais de você mesmo do que da própria família. Algumas pessoas não acreditam, não sabem qual é a dedicação”, relata e acrescenta que algumas vezes chegou a ter insônia, tamanha a autocobrança que tinha por ser aprovada.
NA LUTA
Leonardo Neves Cintra, 35, é casado e tem uma filha de 15 anos. Há quase dois anos abandonou a carreira de policial militar de dez anos e resolveu se dedicar exclusivamente aos estudos. Quer ser delegado. Para isso, teve de confiar na ajuda da mulher - que é funcionária pública - além de uma pequena renda mensal com prestação de serviços na área de segurança. Ele considera muito complicado se preparar para um concurso extremamente concorrido trabalhando ao mesmo tempo. “Se você não tiver espaço para estudar direito você não vai se dar bem no concurso.” Para ele, pressão é algo muito mais latente, especialmente pelo fator idade. “Para mim dois anos é muito tempo”, diz, revelando que para pessoas mais jovens, entre 22 e 25 anos, esse tempo ainda é algo considerável. “A pressão só existe porque existe a dúvida. É uma possibilidade de sucesso”. Veja o quadro abaixo:
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