No final do ano aproveitei dias de ócio e li Leadres at all levels, do pensador, consultor e professor indiano Ram Charam. Lamentei duas coisas: o livro acabou e os dias de ócio também.
Ram Charan, hoje considerado um dos pensadores mais brilhantes da problemática de gestão dos negócios, embora indique caminhos que poderíamos descobrir para criar e reter os verdadeiros talentos para liderança, mostra-se meio cético sobre o trato com pessoas que demonstram um alto grau de ambição, uma certa agressividade e não conformismo com dadas situações ou posições.
Em parte isso explica a carência de boas chefias, não só no ramo calçadista, mas em geral. Nas minhas andanças pelo mundo tenho ouvido, nos quatro continentes e em várias línguas, sempre a mesma queixa: “o senhor não faz idéia dos problemas que nos temos com nossas chefias’. Já não me surpreendia mais. Pelo contrário, quando esta queixa demorava a aparecer, começava a acreditar, que finalmente havia encontrado a Terra Prometida, onde este problema não existia. Vã esperança. Demorava, mas vinha lá...
Nem todos podem se tornar líderes. Para tanto, de acordo com Ram Charan, há necessidade de desenvolvimento por meio da prática e da auto-correção e o trabalho requer gigantescos saltos de aprendizado. Onde buscar e como segurar os talentosos, a matéria prima da qual fazer futuros líderes? É uma questão crucial e da resposta favorável depende em grande parte, o futuro das empresas.
Preparar os futuros líderes deveria passar a ser parte integrante da descrição do cargo do dirigente principal da empresa. E deveria ser executado com o mesmo rigor que as funções de planejamento, finanças, marketing etc. Não temos nenhum sistema de ensino, nem teórico nem prático, para criar futuros líderes no chão da fábrica. O governo faz enorme propaganda em torno da criação de 212 novas escolas técnicas profissionalizantes de segundo grau, mas nenhuma delas para atender o setor coureiro-calçadista.
No entanto, um dos nossos concorrentes em futuro muito próximo – a Índia –, desde outubro de 2008 tem um programa de treinamento de 20 mil alunos para os cargos de chefia para o setor, junto com 3 mil dirigentes/empresários. Sem falar nos 300 mil trabalhadores qualificados para curtumes e fábricas de calçados!
Acompanho esta carência existente no nosso meio porque volta e meia recebo solicitação para indicar um gerente da fábrica, um chefe geral, líderes para setores específicos, como corte, pesponto ou acabamento. Muitas vezes até poderia indicar mas me sinto inibido porque reconheço a fragilidade dos conhecimentos técnicos ou inadequação para a liderança propriamente ditas. A fragilidade de profissionalização é catastrófica.
Gosto sempre citar a Bata Shoe Organization como exemplo de tudo o que é eficiente e funcional nas indústrias de calçados e correlatas. A Bata formava seus próprios futuros líderes na escola que começava com segundo grau técnico e terminava com grau superior. O vestibular (aos 14 anos) era mais concorrido que o do ITA, de São José dos Campos. Trabalhamos sempre em grupo de dois. Quando um estava na fábrica o outro estudava na escola e no segundo período trocávamos de lugar. Ensino teórico e prático ao mesmo tempo. O resultado era previsível: uma empresa estritamente familiar com mais de 100 anos de existência, de longe a maior do setor no mundo, em expansão contínua.
Ram Charan está certo na sua análise: a empresa é tão boa, sólida e capaz de sobreviver como o é a chefia dela. O segredo está na escolha certa, no treinamento que pode ser oferecido e pelo sentido de progresso pessoal e profissional que a empresa pode oferecer aos elementos dinâmicos que procuram realização nestes dois campos, pessoal e profissional.
A dinâmica necessária está no próprio ambiente de negócios numa época de economia globalizada. Dirigir hoje uma empresa com métodos do passado é rota segura para o desastre. E o dirigente, empresário ou dono da empresa, que não estiver no comando de uma equipe sintonizada, atuante e com mentalidade aberta para aceitar os novos desafios, pode começar a ficar seriamente preocupado com o futuro.
<b>SENHORA OBAMA</b>
A primeira dama dos Estados Unidos, Michelle Obama, fez um pedido de botas altas para o fabricante francês de botas luxuosas, Robert Clergerie. A firma declarou que Sra. Obama ordenou dois pares, sendo um par com meia altura em couro de lince e o segundo par de botas altas até a coxa, em couro preto.
<b>GOSTO REFINADO</b>
A butique Ikram, de Chicago, onde a primeira dama costuma fazer suas compras, passou pedido aos franceses porque ela não encontrou, na loja, o tipo de bota que queria para o inverno. O fabricante declarou que usou o modelo Fissa para a bota alta preta. Para a de couro de lince, usou o modelo Wadou que faz parte da coleção da empresa para 2010. Monsieur Robert Clergerie, fundador da empresa, acrescentou ao pedido uma nota pessoal em que se congratulava com a primeira dama pelo refinado gosto dela.
<b>Zdenek Pracuch</b>
Sapateiro, shoemaker – <i>pracuch@comerciodafranca.com.br</i>
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