Roberta Vanessa Silva Reche foi mãe pela primeira quando ainda era muito nova. Gabriel, hoje com 10 anos, nasceu quando ela tinha 16 anos. Depois do primogênito, Roberta sonhava ter uma menina. Conseguiu. Mas a realização desse sonho veio acompanhada do maior pesadelo de sua vida. Ainda durante a gravidez, Roberta descobriu um tumor na coluna que a deixou sem andar depois do nascimento da filha Júlia. Aos 27 anos, está vivendo presa a uma cadeira de rodas. Não consegue se movimentar da cintura para baixo, não sente as pernas quando são tocadas e precisa usar fraldas. Faz cinco meses que não pode mais caminhar, tomar banho sozinha ou se virar na cama no meio da noite.
Os primeiros sinais de que algo estava errado começaram quando estava grávida de três meses. Roberta sentia dores fortes nas costas. Com os meses, o incômodo passou para a perna direita e ela andava com dificuldades, sem firmeza, e tropeçava muito. Foi encaminhada pela médica ginecologista para um especialista. Durante consulta com o neurocirurgião Pedro Couri, um teste feito com agulha espetando sua perna e barriga, mostrou que estava sem sensibilidade nestas partes do corpo. O médico solicitou um exame mais detalhado. A ressonância revelou um tumor na coluna. “O tumor era benigno, mas atingiu da primeira à sexta vértebra e estava do tamanho de uma salsicha, com 16 centímetros. Quando tinha uns 13 anos já sentia dores na coluna, mas os raios-x que fiz não apontaram o problema e agora estou paraplégica”, disse.
Era junho de 2009 Roberta estava no sétimo mês de gestação. Quando detectou o tumor pela ressonância, o médico sugeriu que fizesse o parto imediatamente. “Um buraco se abriu embaixo de mim na hora que ele falou isso. Disse que tinha de tirar minha nenê se não eu ficaria paraplégica para sempre, sem chance de reversão”. Ela não aceitou. Teve medo de perder a filha com a qual tanto sonhou. “Não deixei tirar. Pedi para esperar mais um mês para minha bebê amadurecer mais. Neste tempo, minha ginecologista indicou injeções para ajudar a formar mais rápido os pulmões da minha nenê. Tomei nove doses do medicamento”.
<b>LONGO CAMINHO</b>
Roberta sofreu até a gravidez completar os oito meses, mas escondia dos familiares as dores e incômodos que sentia. “Tentava ficar parada e não andava muito para meu marido nem minha sogra verem que estava com dor e não andava direito”. O marido dela, o sapateiro Rangel Freitas Reche, 29, pretendia assistir ao parto, mas Roberta teve de tomar anestesia geral e ficar entubada e os médicos não autorizaram a presença do pai na sala de CIRURGIA. Júlia nasceu de cesariana, no dia 24 de julho de 2009, com 2,120 quilos e 43 centímetros, no Hospital Unimed, em Franca. “Ela nasceu bem, graças a Deus. Não precisou nem ficar na incubadora e está ótima”.
Superada a preocupação com a chegada prematura da filha, Roberta precisou, ainda de resguardo, enfrentar mais seis horas de cirurgia. No dia 6 de agosto, apenas 13 dias após o parto, fez a operação para retirar o tumor da coluna. A cicatriz nas costas, pouco abaixo da nuca, é do tamanho de um palmo. Roberta achou que não resistiria. “Tive medo de morrer”.
A jovem sobreviveu, mas desde agosto é obrigada a conviver com outras mortes. Ela vive o luto por estar sem os movimentos das pernas; por ter perdido a independência; por depender de fraldas; por não poder mais pespontar sapatos e por não conseguir dar banho na filha ou passear com ela em seus braços. Ela só descobriu que não movimentaria mais as pernas depois da cirurgia. “Quando fui fazer a operação, não sabia que não ia andar mais. Levei dois pares de chinelo para o hospital porque achei que fosse sair andando de lá. Não sabia que sairia paralítica, numa cadeira de rodas e usando fraldas”.
Roberta passou cinco dias internada. Ficou imóvel, deitada o tempo todo por causa da lesão na coluna. Dependia de quatro enfermeiros segurando o lençol em que estava para poder se virar na maca. “Chorei os cinco dias seguidos. Não conseguia me firmar para ficar sentada. Voltei a ser um bebê. Meu marido me contou que chegou em casa no dia que fiz a cirurgia e chorou muito. Mas falou que agora não vai mais chorar, só quando eu voltar a andar”.
Roberta não consegue segurar a emoção nem a angústia. Ainda derrama muitas lágrimas por depender das pessoas para fazer tarefas simples como tomar banho. Não poder cuidar da filha é outro golpe duro de enfrentar. A criança está com seis meses e é cuidada pela irmã de Roberta, Letícia, que tem 14 anos, e a vizinha Ana, além do pai. Poucas vezes a jovem teve o prazer de tirar a filha do berço e aconchegar em seu colo. Também não pode amamentar. “Quando voltei para casa depois que minha filha nasceu, andava escorando na parede, porque minha perna ficou mais fraca. Pegava minha nenê no berço escondida do meu marido porque não conseguia andar direito e era perigoso me desequilibrar. Segurei ela poucas vezes porque logo operei a coluna e não andei mais”, disse, emocionada. “É algo desesperador porque sonhava em pegar minha nenê no colo (chora). Até hoje nunca peguei ela no colo como sonhei. Isso me dói muito, não poder carregar, não poder cuidar dela. Dou mamadeira e troco ela com um travesseiro no meu colo, mas não é a mesma coisa”.
Júlia é uma criança calma e dorme bem durante a noite, mas Roberta sempre pede para o marido se levantar durante a madrugada para velar o sono da filha no berço. Rangel não apenas cuida da menina, mas ajuda Roberta na hora do banho, de trocar suas fraldas ou ir para as sessões de fisioterapia e hidroterapia. Quatro dias por semana, ele deixa a fábrica em que trabalha para levá-la e buscá-la nos tratamentos. É ele quem ajuda a mulher a colocar as próteses nas pernas para que consiga mantê-las esticadas e possa fazer exercícios nas barras instaladas na casa em que moram, no Jardim São Francisco.
<b>ESFORÇO</b>
Rangel carrega Roberta no colo ou na cadeira de rodas. “Falar que é fácil não é porque a gente não está esperando, não está preparado para uma situação dessa, então fica muito difícil. Tem de ter muita força de vontade e fé para superar”, disse ele, que sofre por não conseguir explicar para o filho o que deixou a mãe “presa”, sem conseguir andar, cuidar da casa, trabalhar ou brincar com ele como gostaria. “A parte mais difícil é ver o meu filho querer que ela volte a andar. Eles sentem mais que a gente por não entenderem completamente a situação. Ver minha mulher com vontade de andar, de poder cuidar da nossa casa e dos nossos filhos é muito triste”.
Roberta sonha voltar andar. Os médicos dizem que há chances de recuperar os movimentos, mas isso só deve acontecer quando sua filha estiver dando os primeiros passos. “Deve levar cerca de dois anos”. O risco é Roberta não ter novamente a sensibilidade das pernas e, com isso, depender das fraldas para sempre. “É chato as pessoas terem que ficar me trocando. Meu marido e minha irmã de 14 anos, que me trocam. É chato não saber a hora que você fez suas necessidades. Não sou eu que me troco sozinha. Preciso de outra pessoa. É difícil aceitar isso”. Quando tocada, a jovem não sente. O marido dela chegou a fazer um teste passando uma vela perto das pernas dela, mas Roberta não notou o calor do fogo, nem a parafina derretida.
Ela não quer perder a esperança. “O fisioterapeuta fala que com andador vou conseguir andar. Meu médico fala que com alguma sequela vou ficar. Não vou voltar 100%. Mas tenho esperança e fé em Deus que vou voltar a andar. Deus não ia mandar minha filha e me deixar assim. Sempre sonhei em ter outro nenê. Deus não vai me desamparar”.
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<b>MAIS DIFICULDADES</b>
Roberta e o marido ainda enfrentam dificuldades para pagar todas as contas. Pespontando sapatos em casa, ela conseguia de R$ 900 a R$ 1200 por mês. Mas essa renda não faz mais parte do orçamento da família. Há seis meses, quando Roberta descobriu o tumor, parou de trabalhar. Um pacote com nove fraldas de adulto custa R$ 17 e dura apenas dois dias para Roberta. Com fisioterapia, gasta R$ 80 por semana. Só de combustível são R$ 400, somados aos R$ 200 da prestação da casa e R$ 420 do financiamento do carro. Rangel ganha R$ 1 mil trabalhando como cortador numa fábrica de calçados. “Ganhei a hidroterapia e deixo de gastar R$ 230 por mês. Tenho tido bastante ajuda, mas é difícil. Dinheiro é conforto. Não tem jeito”, disse Roberta. Para comprar a cadeira de rodas, andador e próteses para as pernas, contou com apoio de conhecidos para vender pizzas e conseguir dinheiro. O aparelho chamado bilateral, que funciona como “pernas” custou R$ 2 mil. O casal pagou as duas primeiras parcelas, R$ 1 mil no total. Faltam duas. O material é feito de plástico, sob medida, para manter as pernas de Roberta esticadas e ela poder fazer exercícios nas barras instaladas na garagem de sua casa, onde passa duas horas por dia forçando as pernas a obedecerem os comandos para andar novamente.
<b>SERVIÇOS</b>
Quem quiser ajudar, Roberta vive com o marido e os dois filhos na Rua José Bevilaqua, 68, Jardim São Francisco. O telefone dela é (16) 9276-2426 ou 9291-7938.
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