Ainda, o casamento


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Continuar namorados depois de casados é preciso. Cada um deve esforçar-se para não perder o magnetismo em relação ao outro. A sedução, a conquista, a vontade de agradar, de cativar, são necessárias também entre marido e mulher, não podem ser deixadas para trás quando se atravessa a ponte que liga o namoro ao casamento. Só existe casamento de verdade se há amor. ‘...Assim como a canção só tem razão se se cantar / Assim como uma nuvem só acontece se chover / Assim como o poeta só é grande se sofrer / Assim como viver sem ter amor não é viver / Não há você sem mim, eu não existo sem você’ (Vinícius de Moraes e Tom Jobim). O casal, por mais corrida seja sua vida, precisa arranjar tempo para ficar junto, partilhar intimidade, afetividade. A lua-de-mel não pode ser apenas um curto período após as bodas. Casamento é coração. ‘...Que el corazón no se pase de moda / Que los otoños te doren la piel / Que cada noche sea noche de bodas / Que no se ponga la luna de miel / Que todas las noches sean noches de boda / Que todas las lunas sean lunas de miel’ (Joaquín Sabina). Às vezes a relação esfria não por falta de amor, mas por falta de saber demonstrar, o que na prática é a mesma coisa. Os cônjuges precisam ter e dar afeto, respeito, paciência, compreensão etc. Ocorre, porém, que, uma vez selada a união, certos casais mudam e passam a comportar-se de modo incondizente, revelando certo despreparo para a realidade da vida a dois. Cada um dos cônjuges mostra-se extremamente possessivo, desconhecendo que o fato de serem casados não transforma um em dono do outro. A consequência disso é conhecida. Cada um, em vez de atrair o outro, afasta-o. A atração recíproca vira repulsa, feito dois ímãs ao contrário. Cada sentimento puxa outro da mesma natureza. Assim, não demora e a relação se enfraquece. desvirtua-se. O elo se rompe, vira duelo. A visão comum (desejo, sonho, expectativa) se divide, vira divisão. O respeito se vai. Eles ficam, mas não se identificam. A relação passa mais tempo estremecida ou em conflito do que em harmonia. A química se esvai e deixa de haver aquela interação positiva. Tudo é motivo para divergência. Cada um quer ter razão e vive criticando o jeito de ser do outro. Isso evolui para ofensas recíprocas. Em razão disso, antes mesmo de terem filhos, vem a separação por alegada incompatibilidade de gênios. Por isso, o homem não deve casar apenas por pressão, nem a mulher só por medo de ficar para titia. Sem amor, sem conhecer bem um ao outro, nada feito. Conquanto devam ser fruto do amor, de um relacionamento bem construído, em muitos casos os filhos são gerados como tentativa de salvar a relação. Porém, o que salva o casamento é o marido e a mulher reconhecerem que estão fazendo tudo errado e mudarem o modo de agir um em relação ao outro. Filhos trazem alegria e mudam a rotina do casal., mas a primeira alteração consiste em mais trabalho, preocupações e responsabilidade. Trazer ao mundo filhos que não terão um bom ambiente é aumentar o número de vítimas da relação. A grande maioria dos adolescentes infratores ou que contraem distúrbios emocionais, que tem alterações de comportamento, vem de lares desestruturados, de famílias desfeitas, tem pais que vivem se digladiando. Os efeitos negativos do casamento mal-estruturado transcendem a esfera familiar. Portanto, zelar pelo bom relacionamento na família é ajudar a construir uma sociedade melhor. Paulo Pereira da Costa Promotor de Justiça e autor do livro ‘Pensando na Vida’ paulopereiracosta@uol.com.br

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