O planeta reage


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Toronto é uma cidade que durante os meses de Inverno tem duas vidas. Uma, sobre a superfície onde circulam raros carros, raros ônibus e raras pessoas são vistas andando nas calçadas e ruas. Outra, sob ela. A vida, quando a neve cai – e não é pouquinho, não –, se desenrola nas entranhas da terra. A cidade parece abandonada, porém existe um formigueiro ativíssimo que os olhos não veem: o essencial está completamente invisível aos olhos. País de Primeiro Mundo, o povo tem suas necessidades atendidas. Com facilidade pode-se sair do apartamento, descer em andar abaixo da garagem, entrar pelos corredores do metrô e andar até a próxima estação. Vive-se in, porque out... só com muito capote. A paisagem é linda. De colorido, os pinheiros que foram instituídos (e são usados) como árvores de Natal, pois apenas eles resistem à neve, ao vento, às baixas temperaturas. Ao verde esporádico, somam-se as luzinhas coloridas, enfeites das casas para comemorar o Natal. Numa especial visita ao país, não era Inverno, mas quase. Dentro de um imenso centro comercial, sentada num banco em local que parecia uma praça, climatizado, olhava sem entender muito a simulação arquitetônica. Não percebia lustres ou spots, a luz parecia natural; as paredes davam sensação de infinitude. Coisa mais esquisita: era como se estivesse num cenário, tão natural que me confundia. Vi uma loja chamada Calèche. Lembrei-me da xará, em Franca, me aproximei. Uma loira saiu, fez a pergunta que os brasileiros agora usam: ‘Posso ajudar?’. ‘Não, obrigada, estou só olhando’, respondi, antecipando o título de livro que ficou famoso. Percebendo meu sotaque, perguntou de onde eu era. Brasil, respondi, inflando o peito. Ela abriu os olhos, me pegou pela mão, foi me carreando, murmurava alguma coisa que só podia ser ‘Venha cá’. Lá dentro, me apresentou assim a outra senhora: ‘Ela é do Brasil!’. As duas, por alguns momentos ficaram me olhando, como se eu fosse membro da turma do cacique Raoni, que na época era celebridade. Quando abriram a boca, foi para me perguntar, sem dar tempo de responder: ‘Escuta, é verdade que vocês têm verde o ano inteiro? É verdade que existem flores todos os meses do ano? É verdade que vocês podem sair à rua em qualquer época? É verdade que o sol brilha constantemente? É verdade que a maior parte do ano vocês dispensam o uso de casacos?’. Fiquei muda: elas não acreditavam na vida dos trópicos. Pensavam que era só nos filmes do Tarzan. Fui pega de surpresa. Lembrei-me dessa experiência porque andei passando um frio do cão. Foi assim. Odeio sentir calor, não uso muito agasalho. Um bom casaco, sobre uma malha, calças jeans na maior parte do tempo. Muita roupa me faz sentir um misto de astronauta com escafandrista, quando tento me locomover. O simples sentar e levantar vestida com meia calça, calça comprida, camiseta segunda pele, blusa de lã, casaco, cachecol, casaco, luvas, gorro e ainda por cima, quer dizer, por baixo, meias de lã e botas... não é tarefa das mais simples. (Imagine, então, tirar o tíquete do metrô de dentro da bolsa...). Bom, mesmo o termômetro acusando temperatura negativa nas ruas, teimei em sair como se o lá fora fosse só cenário. Pegaria o ônibus na esquina, até a estação de metrô e ninguém sente frio nos lugares fechados, justifiquei. No meio do primeiro quarteirão não sentia os pés. No fim dele, a boca congelou num sorriso forçado. Trinta metros para alcançar a linha de chegada, o pescoço enrijeceu, encolheu e minha cabeça dobrou para trás. Parei e pensei: volto ou vou? No parar, o vento bateu, meus braços começaram a formigar. Não ia para a frente, nem para trás. Entorpecida, não sei como, voltei. E não saí mais. Daqui de casa não saio, daqui ninguém me tira. Agora, sentada perto do aquecedor, olhando através do vidro da porta, vendo árvores esqueléticas e toda a paisagem pintada em cinza, marrom, preto, lembro-me das canadenses e fico mais depressiva, ainda. Como era bom antes de estragarmos o planeta, não é mesmo? <b>ANTIGAMENTE</b> O clima de Franca era invejável. Tínhamos as quatro estações do ano bem definidas. Era um paraíso, sem exagero. Não me lembro de enchentes, não me lembro de excesso de calor, nem de chuvas torrenciais. Mas isso foi antes das construções das barragens, antes do represamento de águas, antes de cobrirmos a cidade com asfalto. A natureza aceita desaforo, mas reclama diante do exagero. Já reclamou baixinho, agora reage. <b>EDUCAÇÃO</b> A consciência ecológica funciona em espaços habitados por pessoas que têm cultura e educação. Gente que separa o lixo seco do molhado; que não joga latinha vazia para fora dos carros em movimento; não atira pontas de cigarro pela janela; não desperdiça alimento; no ônibus guarda as cascas de mexerica e laranja dentro de saquinhos; não usa os córregos para levar lixo doméstico, nem faz esgoto clandestino para cair diretamente nele; não descarta sofás e colchões em terrenos baldios, essas coisas mínimas. Até que todo mundo aprenda o básico ... todos vamos pagar o pato. <b>REAÇÕES</b> Sempre defendi temperaturas baixas: coisa de país adiantado; todo mundo fica bonito; ninguém fica melecado; as pessoas ficam cheirosas etc. Sempre critiquei calor: coisa horrorosa, gente suada, mal vestida, mal cheirosa etc. Diante da clara, súbita, repentina e incomum intolerância ao frio, busquei explicações. A primeira já me fez acreditar que se trata de uma reação típica de quem saiu da temperatura 32 positivos para a de 2 negativos: li que à medida em que envelhecemos, o corpo precisa de mais calor... <b>Lúcia Helena Maniglia Brigagão</b> Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - <i>luciahelena@comerciodafranca.com.br</i>

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