<p style="text-align: justify; ">Na quarta-feira passada, às 9h35, o técnico Hélio Rubens Garcia chegou apressado ao Ginásio Poliesportivo para passar as instruções do treino para o seu assistente transmitir aos jogadores naquela manhã. Hélio Rubens havia assumido o compromisso de ministrar uma palestra motivacional, no grupo Amazonas, às 11 horas, e não queria se atrasar. Em seu semblante, um homem cansado e abatido. As olheiras no rosto denunciavam as noites mal dormidas desde domingo, dia 17, quando o time de basquete foi desclassificado no Campeonato Paulista.</p>
<p><div style="text-align: justify; "><br /></div><div style="text-align: justify; ">Naquele dia, quando o cronômetro zerou, o placar marcava 84 a 87 para o Paulistano. Minutos após soar a campanhia do fim do jogo, o treinador e o time saíram da quadra hostilizados pela torcida. Por um momento, grande parte dos que estavam na arquibancada esqueceu a vitória anterior (de sexta-feira, contra o Flamengo, pelo NBB), os jogos já ganhos e o desempenho do time em seus tempos de glória.</div></p>
<p><div style="text-align: justify; "><br /></div><div style="text-align: justify; ">Hélio Rubens buscou refúgio em sua casa. Ficou trancado em seu quarto, sozinho. Nem com a mulher, Maria Helena, quis conversar. Pediu a ela para deixá-lo sozinho. Não conseguiu se quer assistir televisão ou ler. Preferiu meditar e rezar. Desde domingo não dormiu direito e perdeu o apetite. Perdurou madrugadas afora, revirando em seus pensamentos as respostas para justificar o resultado. Na quarta-feira, três dias após a derrota, ainda sentia a frustração de ter perdido.</div></p>
<p><div style="text-align: justify; "><br /></div><div style="text-align: justify; ">Ainda inconformado, o treinador revelou em entrevista exclusiva ao Comércio ser dono de uma força intuitiva que o faz sentir quando o time vai ganhar ou não a partida.</div></p>
<p><div style="text-align: justify; "><br /></div><div style="text-align: justify; ">Hélio Rubens está com 70 anos, prestes a completar 50 de carreira em maio próximo. Pela Seleção Brasileira de Basquete Masculina, comandou 96 jogos. Venceu 64 e sofreu 32 derrotas em 12 competições oficiais, segundo o site oficial da Confederação Brasileira de Basquete.</div></p>
<p><div style="text-align: justify; "><br /></div><div style="text-align: justify; ">Em um canto da quadra, de olho nos passes dos jogadores que estavam em treino para o jogo de hoje contra o Pinheiros, em São Paulo, Hélio desabafou sobre a derrota, suas aflições e a vontade de ficar por anos à frente do time que mais conquistou títulos no País. “Estou no auge da minha condição de trabalho”.</div></p>
<p><div style="text-align: justify; "><strong>Comércio da Franca - Depois da derrota que desclassificou o Vivo/Franca da final do Paulista, no domingo passado, o que o senhor fez? </strong></div><strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="font-weight: normal; "><strong>Hélio Rubens -</strong> Procurei me isolar, inclusive da minha família. Eu fico muito mal psicologicamente. Passo a ser uma má companhia para qualquer pessoa porque não quero conversar e fico naquele estado de frustração, com o aspecto espiritual muito negativo. A gente se envolve emocionalmente em busca do melhor resultado, do melhor trabalho. Quando isso não vem, principalmente dentro de Franca, diante da nossa torcida, é muito frustrante. Há muito tempo não tinha uma descarga emocional negativa tão forte como naquele dia. </span></div></strong></p>
<p><div style="text-align: justify; "><strong>Comércio - O que passou pela cabeça do senhor assim que o jogo acabou? </strong></div><strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="font-weight: normal; "><strong>Hélio -</strong> Eu fui para casa e fiquei sozinho. Pedi para a minha esposa não me incomodar, porque eu não queria conversar. Não conseguia ler e nem assistir televisão. Fiquei no meu quarto fazendo meditações e orações para melhorar um pouco o meu estado de espírito que estava tão pesado, tão carregado.</span></div></strong></p>
<p><div style="text-align: justify; "><strong>Comércio - No domingo, o senhor pressentiu a derrota?</strong></div><strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="font-weight: normal; "><strong>Hélio -</strong> Eu sabia. Tinha alguma coisa que me dizia que algo não daria certo. Havíamos perdido um jogo onde a arbitragem nos prejudicou e muito. No domingo, senti que algo não estava nos eixos. Mas mesmo assim, acreditava na vitória. Muitas pessoas nos criticaram, mas também teve gente que veio parabenizar o time pelo esforço e dizer que lutamos até o fim. Todos estavam querendo reagir. Lamentavelmente, perdemos o jogo que nos daria o direito de lutar por mais um título. É onde eu falo e repito: para muitos times, estar entre os quatro primeiros já seria uma glória. </span></div></strong></p>
<p><div style="text-align: justify; "><strong>Comércio - E como se sente hoje?</strong></div><strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="font-weight: normal; "><strong>Hélio -</strong> Estou com esse sentimento até agora (três dias depois da derrota. A entrevista foi feita na manhã de quarta-feira). Estou procurando me libertar dele. Às vezes, as pessoas podem entender que estou querendo fazer média ou tentando justificar de todas as maneiras (a derrota). Mas isso é exatamente aquilo que eu sinto. Nós aprendemos aqui, com o professor Pedroca, que ganhar ou perder são circunstâncias do jogo. Nos sentimos no céu quando ganhamos um jogo e no inferno quando perdemos. Eu me senti no inferno com essa derrota. </span></div></strong></p>
<p><div style="text-align: justify; "><strong>Comércio - Para um técnico do seu nível, como é enfrentar esse inferno? </strong></div><strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="font-weight: normal; "><strong>Hélio -</strong> Nunca sinto que não dá para ganhar. Sempre acho que há uma possibilidade porque, no Vivo/Franca, temos uma regra que é não desanimar jamais, acreditar sempre. Com isso, já conseguimos resultados impressionantes, de jogos considerados perdidos que foram ganhos, nem que fosse na prorrogação. Então, de qualquer forma, nós temos que conviver com isso, porque nem sempre fomos os melhores. Somos uma equipe competitiva em busca do melhor resultado, consciente e reconhecendo que da mesma forma existem tantas outras equipes nas mesmas condições. Aconteceu da gente perder e não queríamos. </span></div></strong></p>
<p><div style="text-align: justify; "><strong>Comércio - O senhor disse estar extremamente abalado com a derrota do último domingo. Como consegue dar uma palestra motivacional (ele estava de saída para se apresentar em uma empresa da cidade) ainda carregando esse peso e se sentindo tão frustrado?</strong></div><strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="font-weight: normal; "><strong>Hélio -</strong> É muito difícil para mim. Mas, por um outro lado, eu aprendi que no esporte há exercícios de concentração, exercício de relaxamento muscular e mental para você continuar concentrado naquilo que faz. Tudo para superar esse sentimento negativo. Em um momento das minhas palestras, eu falo que todos nós temos uma energia extra e, quando você acredita nisso,ela vem à tona e você acaba realizando qualquer tarefa. E afinal, a minha palestra não tem nada de teorias. É tudo aquilo que eu vivenciei, como a superação, a liderança, a motivação, o espírito de grupo, como neutralizar os momentos ruins e os bloqueios psicológicos. A minha palestra é altamente motivacional. Não é à toa que ela é considerada uma das melhores do Brasil e isso me gratifica muito. </span></div></strong></p>
<p><div style="text-align: justify; "><strong>Comércio - Mas pelas suas palavras a gente percebe a dificuldade que o senhor tem em aceitar a derrota...</strong></div><strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="font-weight: normal; "><strong>Hélio -</strong> Na realidade, não é que eu não a aceite. A verdade é que eu não gosto de perder. Sou obrigado a aceitar, em função de fazer as avaliações bem claras, bem honestas para que possamos crescer cada vez mais. O perfeccionismo que eu tenho vem de todo o virginiano, todo o virginiano é perfeccionista (ele nasceu em 02/09/1940). Por isso sofremos muito mais. Porque tem pessoas que fazem a sua parte, da melhor maneira possível e, se ganhar, ótimo e, se perder, tudo bem, aconteceu. Quando eu perco o sentimento é de dor e, quando eu ganho, o sentimento é de felicidade. Essa é minha vida, eu prefiro assim. Eu não gosto dessas pessoas para as quais perder não faz diferença. Eu falo que existem três tipos de jogadores: o jogador colérico, que quer tanto ganhar que até prejudica. Ele toma porrada, toma falta técnica... Eu acho que, de vez em quando, precisamos ter um jogador desse no time. Tem ainda aquele jogador pragmático, esse eu detesto. É aquele que faz a parte dele. Se ganhou, está bom. Se perdeu, está tudo bem também. Tenho nojo de gente assim. Para mim, o principal é o jogador sanguíneo. É aquele que é compromissado com a vitória. Ele sai jogando mal e logo se reabilita, no mesmo jogo, nem espera o próximo. Ele luta, reconhece suas deficiências e treina para superá-las. Vai em busca e não desanima jamais, tudo para poder melhorar. Esse é o ideal. </span></div></strong></p>
<p><div style="text-align: justify; "><strong>Comércio - Esse jogador sanguíneo é um exemplo do que o senhor é?</strong></div><strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="font-weight: normal; "><strong>Hélio -</strong> Então, eu acho que a gente tem de melhorar cada vez mais. Mais esse é um propósito de um profissional e de ser um atleta ideal.</span></div></strong></p>
<p><div style="text-align: justify; "><strong>Comércio - É assim que o senhor explica aos jogadores como lidar com a derrota?</strong></div><strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="font-weight: normal; "><strong>Hélio -</strong> Na realidade, as derrotas existem. Ninguém ganha sempre, ninguém perde sempre. O importante é continuar que você vai chegando gradativamente no lugar que quer. Mas aqui, em Franca, estamos um tanto mal acostumados. São 50 anos de tradição e é a cidade que mais ostenta títulos conquistados da história do basquete brasileiro. Isso é reconhecido no mundo inteiro. Então, quando a gente perde, a gente se sente frustrado. Mas é normal perder. Do contrário, nós seríamos onipotentes e absolutos. E não somos. Somos iguais aos outros e tem muita gente melhor do que a gente. </span></div></strong></p>
<p><div style="text-align: justify; "><strong>Comércio - Quais são estes times melhores do que o Vivo/Franca?</strong></div><strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="font-weight: normal; "><strong>Hélio -</strong> Quando eu digo melhores, me refiro a um orçamento superior. Tecnicamente ainda somos os melhores.</span></div></strong></p>
<p><div style="text-align: justify; "><strong>Comércio - Quando o time vence é tudo muito bom. Quando perde, a torcida quase sempre critica o time e o técnico. Como o senhor se sente?</strong></div><strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="font-weight: normal; "><strong>Hélio -</strong> Digo para todos que a nossa vida é movida pela emoção e pelo aspecto mental. A gente não pode ter uma descarga emocional muito grande nem na alegria nem na tristeza. Porque nas descargas emocionais você perde a condição física, se cansa. Como no domingo, em que tive tanta descarga emocional que eu não consegui sair da cama, não consegui me alimentar. Eu estou mal até hoje. Estou em um estado de espírito de frustração, mas isso não é bom. Nós temos que saber que fizemos o melhor. Vamos avaliar e ver em que precisamos mudar. Temos que ter energia para continuar o trabalho. Agora, em relação à torcida, reconheço muito que o torcedor se espelha no time, ele se identifica com o que acontece. Quando o time perde, ele se sente um perdedor. Muitos deles se revoltam, gritam, xingam e ofendem porque eles estão se considerando prejudicados. E quando o time ganha, eles se consideram vencedores. Aí, elogiam, abraçam e querem tirar foto conosco. Eu os entendo perfeitamente porque o nosso trabalho é realizado exclusivamente para o público. </span></div></strong></p>
<p><div style="text-align: justify; "><strong>Comércio - A equipe que o senhor comanda hoje é o time que desejou?</strong></div><strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="font-weight: normal; "><strong>Hélio -</strong> Olha (pausa), se você disser para mim se eu quero um super time, estarei trabalhando em cima de um raciocínio ilusório. Hoje o basquete é esporte de alto rendimento e depende muito da estrutura financeira. A nossa estrutura financeira está muito abaixo de pelo menos cinco equipes que estão na Liga Nacional. </span></div></strong></p>
<p><div style="text-align: justify; "><strong>Comércio - Em valores, o que seria uma equipe abaixo da média financeira?</strong></div><strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="font-weight: normal; "><strong>Hélio -</strong> Hoje existem orçamentos de R$ 80 mil mensais, de R$ 100 mil, R$ 150 mil e de mais de R$ 200 mil. Só para ilustrar, existem equipes em que os jogadores ganham R$ 40 mil por mês. </span></div></strong></p>
<p><div style="text-align: justify; "><strong>Comércio - E qual a realidade do time francano?</strong></div><strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="font-weight: normal; "><strong>Hélio -</strong> Nosso time não tem nenhum jogador que ganhe isso. Fazemos um trabalho pé no chão, dentro da nossa realidade. Teve uma época em que até pensei: não vamos mais formar jogadores, vamos fazer igual ao que os outros fazem. Vamos pegar mais quatro jogadores em cada posição e revezar constantemente. Porque os jogadores mais jovens, de 17 anos, como nós temos cinco aqui, não estão preparados para suportar o nível técnico do nosso time. Vamos conquistando isso gradativamente. </span></div></strong></p>
<p><div style="text-align: justify; "><strong>Comércio - O senhor sabe qual o valor da folha de pagamento do Vivo/ Franca?</strong></div><strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="font-weight: normal; "><strong>Hélio -</strong> Não tenho certeza. Mas acho que é algo em torno de R$ 120 mil.</span></div></strong></p>
<p><div style="text-align: justify; "><strong>Comércio - Voltando ao assunto das derrotas, em quase 50 anos de carreira, qual foi a pior?</strong></div><strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="font-weight: normal; "><strong>Hélio -</strong> A derrota do último domingo não foi uma das minhas piores, mas foi muito frustrante, muito marcante. Mas, eu já tive decepções fantásticas! Uma vez estávamos disputando os jogos pré-olímpicos e nós perdemos e não fomos classificados. Aquela sensação de estarmos voltando para o Brasil derrotados (pensa). Isso a gente não esquece. </span></div></strong></p>
<p><div style="text-align: justify; "><strong>Comércio - Já pensou em desistir?</strong></div><strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="font-weight: normal; "><strong>Hélio -</strong> De maneira alguma. O nosso lema é desistir jamais. Hoje nós aprendemos que os problemas são apenas oportunidades de crescimento. São nos problemas que crescemos mais. Nas derrotas, a gente cresce mais. Nós fazemos avaliações tanto na vitória quanto na derrota. É por isso que todos os jogadores me ligam até hoje porque reconhecem que o trabalho que realizamos aqui não existe em nenhum lugar. </span></div></strong></p>
<p><div style="text-align: justify; "><strong>Comércio - E quando a torcida sugere renovação, como o senhor reage?</strong></div><strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="font-weight: normal; "><strong>Hélio -</strong> Nosso time tem uma mescla muito boa de jogadores experientes com jogadores jovens. É por isso que estamos sempre entre os primeiros. Existe uma preocupação das pessoas que acham que devemos ser líderes absolutos sempre. Nosso time, orgulhosamente, está mantendo a tradição de estar entre os primeiros. É uma meta que sempre alcançamos e me orgulho muito disso (emociona-se). Fico muito frustrado, não só quando perdemos um título, mas quando perdemos um jogo. Porque a nossa meta é sempre a vitória. </span></div></strong></p>
<p><div style="text-align: justify; "><strong>Comércio - Já decidiu quando encerrará a carreira no basquete?</strong></div><strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="font-weight: normal; "><strong>Hélio -</strong> Ainda tenho muito a produzir. Acho que tudo que eu faço é visando uma forma de prestação de serviço para a comunidade e isso me orgulha bastante. Olha (pausa), não penso no tempo. Penso no trabalho e na disposição para trabalhar. Eu falo que nós temos duas idades: a idade espiritual, onde somos milenares, somos eternos, e a idade física, que é aquela que nós sentimos. Eu por exemplo, me sinto com 20 anos a menos do que a minha idade real. Estou no auge da minha condição de trabalho, do ponto de vista da experiência e vivência.</span></div></strong></p>
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