Há muito tempo eu não presenciava uma Feira de calçados tão otimista. O setor calçadista repercute o bom momento que o Brasil vive e podemos, realmente, vislumbrar um período impressionante para o País, ainda que pese suas falhas e deficiências pontuais.
Entretanto, preocupa-me a possibilidade do `relaxamento` setorial. As dificuldades que o setor vivenciou nos últimos anos (mais de uma década) levaram a uma mudança radical na postura e na configuração do setor.
Saímos (ainda que longe do ideal) do atraso produtivo (qualificação e atualização) para uma situação, que se for bem trabalhada e desenvolvida, poderá projetar o setor para um momento de grande crescimento e expansão. O setor de calçados (consumo) cresceu 7,9% em 2009, apesar da crise financeira internacional. A considerar as previsões otimistas para a economia em 2010, temos a perspectiva de um crescimento ainda maior.
Mas, repito, a `facilidade` que o crescimento da economia poderá favorecer ao setor calçadista não pode, em hipótese alguma, servir de cama para os calçadistas se acomodarem. Não existe situação estável por muito tempo.
As mudanças são permanentes e, a cada momento, novos desafios surgem exigindo versatilidade e respostas imediatas. Já fomos atemorizados por diversos países calçadistas nas décadas passadas e hoje, somos pela China, pela Índia e por outros países e, amanhã, novas ameaças vão acontecer. Portanto, não pode existir acomodação.
As ações pontuais (medidas antidumping e incentivos fiscais e financeiros) não sobreviveram ad eternum. Auxiliam o setor a respirar e traçar novas estratégias que garantam a eliminação das dificuldades. Devem ser vistas, principalmente, como oportunidades para o ganho de qualidade setorial.
Ainda não temos disponíveis os dados, mas, aparentemente, a visitação de importadores à Couromoda foi intensa. Bom sinal para a nossa indústria nacional.
Há muito se diz que nosso nicho de mercado localiza-se na vizinhança do produto italiano, maior referência da indústria calçadista mundial. Essa idéia se confirma na conversa com alguns importadores que retomam suas visitas ao Brasil e com aqueles que, pela primeira vez, estiveram na feira.
Há um consenso de que temos qualidade e que caminhamos para ter um possível design nacional que nos projete como pólo criativo mas precisamos investir criando e não copiando.
A necessidade de profissionalização contínua é essencial. Empresas familiares só serão viáveis se seus integrantes forem qualificados e agirem com responsabilidades específicas e solidárias.
Os representantes do setor precisam escancarar o mundo, vislumbrando a realidade e suas possibilidades. O discurso de que fazemos o melhor sapato do mundo é fala de quem não conhece o mundo e é incompatível com o avanço da tecnologia e com a sua sincronicidade com as mudanças.
Sempre gostei da fala que diz que `enquanto estamos dormindo, os asiáticos estão trabalhando`. Assim, criar e desenvolver novos conceitos e produtos deve ser ação permanente e essencial. O mundo move-se rapidamente.
Cassiano Pimentel
Agente de exportação e professor universitário
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