A Virgem de Guadalupe bem que podia interceder nessas pendengas da América Latina. Podia começar por fazer-nos reconhecer nossos companheiros de latinidade, uns aos outros. Não é por falta de pedido. Está é faltando alguma coisa para o pedido chegar lá, mais empenho, talvez.
Embora tenha coração duro e convicções com raízes profundas, minha religiosidade sempre grita e, por vezes, eu a escuto. Três foram as situações que a fé alheia me comoveu. Uma delas, no México. Ia trazer para familiares e amigos imagens, terços, quadros da Virgem. Comprei-os e já ia botando na sacola quando minha companheira de viagem, muito religiosa, explicou-me que faltava benzê-los. Providenciou um padre, ele veio, perguntou-nos de onde éramos. Brasileiras. Feliz, foi lá dentro e voltou paramentado, com o hissope, respirou fundo, concentrando-se. Em seguida, com movimentos lentos foi aspergindo água benta sobre nossas compras e começou a orar, como se nós duas fossemos um grande público ali dentro de sua sala.
Pediu à Virgem de Guadalupe, Padroeira das Américas, que levasse até nossos parentes e amigos suas bênçãos de muito amor, pois com amor escolhêramos nossos presentes. Que Ela ajudasse os latinos a se amarem mais: independente dos idiomas - barreira transponível - todos foram vítimas, no passado, da prepotência e do abuso de países mais poderosos e que isso, ao invés de os unir, foi fator importante na separação ainda maior dos países. Que, para horror de muitos, ainda havia na América Latina líderes tirânicos que, em busca de benefícios pessoais, oprimiam seus conterrâneos. Fez um discurso bonito. Valeria a pena tê-lo gravado. Pedia compreensão, amor e paz para todos os nascidos em terras latinoamericas. Fiquei muito, muito emocionada.
Não voltei sabendo se os mexicanos, com exceção do padre, gostam de ser referidos como latinos. Quase aposto que preferem dizer-se norte-americanos, mesmo sendo constantemente humilhados pelos Estados Unidos, mesmo sabendo que no passado tiveram suas terras roubadas por eles e, pior, que a configuração geográfica favorece a permanente espoliação dos `irmãos` vizinhos: a extração é deles, mas o lucro é dos norte-americanos que controlam o petróleo com mãos de ferro.
Na América Central, o panorama é ainda mais trágico. Aruba, Bahamas, Martinica (da Chiquita Bacana), Ilhas Cayman, Porto Rico, Cuba, Trinidad e Tobago... e nem sei quantas outras mais. Duas, porém são particularmente sofredoras, pois temas de histórias truculentas e escandalosas: Haiti e República Dominicana. Ambas formam a ilha batizada de Hispaniola por Colombo e a primeira do Novo Mundo a ser colonizada pelos espanhóis. Colonizada, maneira de dizer. Com eles chegaram doenças e exploração. Tiraram o que puderam das terras, dizimaram a população nativa e, para substituí-la, trouxeram escravos da África. O mesmo enredo histórico de toda a América Latina.
A Ilha de Hispaniola foi palco para duas figuras demoníacas atuarem: Trujillo, em uma e Papa Doc, no Haiti. Extensão geográfica pequena, riquezas naturais abundantes e insuperáveis em termos de qualidade – a cana de açúcar do Haiti, por exemplo, por seu nível, prejudicou as negociações do mesmo produto brasileiro – tinham tudo para se desenvolverem. Especialmente França e Estados Unidos, feito dois gaviões, em cima, os tiranos mamando, deu no que deu: minoria milionária, maioria analfabeta, vivendo em condições subumanas. Nos dois países.
As manchetes dos jornais brasileiros, ingleses, americanos, franceses, espanhóis do mundo inteiro, enfim, apregoam suas ajudas na tragédia do Haiti. Mandam remédios, cobertores, alimentos, água. Mas quando passar esse momento de dor, de desespero; quando as pessoas começarem a se recuperar material e moralmente de suas imensas perdas; quando a vida se normalizar e insistir em seguir seu curso, será que o mundo vai se lembrar dos rostos empoeirados, dos semblantes que mostravam dor e estupefação? Será que cada país que se aproveitou do Haiti vai lhe devolver o produto da exploração? Será que a Virgem de Gadalupe vai ajudar na recuperação moral deste pequeno país, pequeno demais para tragédia tão grande? E será que nós, latino-americanos vamos perceber que se nos unirmos seremos muito mais fortes que todo o resto do mundo junto?
<b>PERSONAGENS</b>
Sidney Sheldon disse ter se inspirado em Porfírio Rubirosa, play-boy das altas rodas sociais da década de 40 e 50, nascido na República Dominicana e que foi casado com a filha de Trujillo, para criar Dax. No livro, relata as atrocidades do regime de um ditador, descreve as belezas de um paraíso tropical. Ao ler A vida louca de Porfírio Rubirosa: o último playboy, de Shawn Levy, percebe-se quão fiel foi Sheldon às criaturas e cenários da realidade. Dá para reler.
<b>QUESTÃO</b>
Será que os brasileiros que já foram, conseguem ou sabem localizar as ilhas do Caribe no mapa? Não por falta de cultura, por falta de interesse, mesmo. (É só a América Latina, sabe?).
<b>EMOÇÃO</b>
Por três vezes a fé alheia me comoveu. Na Basílica de Guadalupe, na Cidade do México, uma; no Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, na Aparecida do Norte, duas, e a terceira, na Igreja da Medalha Milagrosa, em Paris. Os mexicanos são explícitos, até barulhentos na demonstração. Os brasileiros fazem ruído, como se estivessem se arrastando, quando vão chegando ao altar da Padroeira. E os fiéis da Medalha Milagrosa fazem um silêncio tão grande e se mostram tão contritos, que parecem levitar. Manifestações humanas, belas e tocantes.
<b>Lúcia Helena Maniglia Brigagão</b>
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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