Naturalmente os animais param na metade do dia. O instinto mostra que este é o exato momento para se descansar, de preferência na sombra de uma árvore. Os raios a pino do sol atacam sem dó.
O calor se torna insuportável e gera uma produtiva preguiça. O tempo em que se fica parado serve para revigorar as energias. Por viver próximo da natureza, o pessoal rural tinha o costume de fazer a sesta. Depois, até a própria ciência comprovou que o hábito de passar por um pequeno cochilo, logo após o almoço, além de salutar, favorece o aspecto psicológico, porque descongestiona as sinapses, descarrega o acúmulo de contrariedades, evitando assim o estresse.
Só que a vida urbana moderna não permite a sesta para quase ninguém. Qual classe trabalhadora possui tempo de almoço suficiente para se deitar em uma cama e puxar uma tranquila pestana, que seja pelo menos de meia hora? Só se for algum dirigente de órgão público ou entidade governamental. Esse não registra horário de entrada ou de saída em cartão, assina ponto quando quer e cumpre a jornada estipulada de acordo com suas conveniências.
Deu dó ver alguns políticos na segunda-feira da semana passada sob o escaldante sol do meio-dia. Eles não estão acostumados a esse calorento horário de trabalho. Bagas de suor escorriam pelas faces e camisas dos vereadores, dos prefeitos, dos deputados e do secretário estadual de Educação no Parque Fernando Costa.
A missão benfazeja da comitiva consistiu em entregar 53 ônibus destinados ao transporte de estudantes da zona rural. O feito serviu de vitrine eleitoral para todos. Quer assunto melhor para angariar votos que a facilitação do processo educativo da população? Apenas a saúde supera o mote. Se bem que a educação pode evitar doenças e até mesmo fomentar a segurança pública.
Em meio aos discursos e piadinhas, só faltou algum representante do Executivo ou do Legislativo sacar que para compensar a retirada da montanha (escola) de perto do Maomé, resta agora ao Estado legalizado trazer Maomé até a montanha. E nisso não há milagre nenhum. Mas, devido ao ano eleitoral, sobrou verborréia para tentar explicar o que não carecia de explicação.
Junto à acalorada cerimônia de entrega dos ônibus escolares, os deputados eleitos por Franca puseram-se a campo. Fizeram questão de calorosamente pegar a mão de quem viam pela frente. Todos interessados em saber do cotidiano, imaginando que as pessoas presentes estivessem ali prestigiando o evento. Nem perceberam que, por trabalhar por perto da `Expoagro` e longe de casa, a maioria apenas descansava durante uns minutos, para voltar rapidamente ao batente.
Trabalho duro está pela frente. Mesmo ainda extraoficialmente candidatos, a ordem agora é não perder oportunidades de mostrar afabilidade para com o povo. Durante o trajeto de volta para casa, os atuais deputados desligaram o ar condicionado dos carros, abaixaram os escuros vidros das portas e acenavam ou abanavam as mãos para os transeuntes ou motoristas. Político sofre, antes de eleição!
Antônio Araújo
Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br
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