Uma verdade incontestável diz que a única coisa constante no Universo é a mudança. Nada é estável, nada é estático. Os próprios átomos que constituem nosso corpo são um turbilhão de partículas em constante movimento.
O que vale para a Física vale também para valores intangíveis como, por exemplo, o conhecimento ou a cultura geral. Há duzentos anos toda a ciência se resumia a uns vinte campos de conhecimento, que abrangiam tudo o que o cérebro humano descobriu ou criou dentro de milênios passados. Hoje, os campos científicos abrangem milhares de especializações e a cada dia são abertos campos novos, ou pela inventividade ou por descobertas cada vez mais profundas, que alcançam de perto o âmago da própria Criação.
Muito bem, podem perguntar: o que é que a sapataria tem a ver com isso? Muita coisa. A evolução não parou nas portas das fábricas de calçados e, muito menos, na percepção, educação e mentalidade dos donos das empresas. E a situação se torna crítica quando saímos do ambiente com o qual estamos familiarizados – o ambiente local –, e pensamos em termos globais, em termos de descobertas globais e na evolução dos conhecimentos compartilhados em escala global.
A expansão do conhecimento humano nos últimos 50 a 80 anos tem algo de espantoso, quando analisado com objetividade e de uma certa distância. Nestas épocas, para se tornar um industrial bem sucedido bastava ter algum conhecimento artesanal ou de técnicas rudimentares, coragem e esforço e o sucesso estava garantido. Não que estes predicados não sejam necessários também hoje em dia. Sim, positivamente, só isso, hoje, não basta mais.
O empresário moderno tem que possuir conhecimentos básicos em muitos campos, sem os quais uma empresa dificilmente progredirá. O empresário de hoje tem que ter conhecimentos bastante amplos sobre pesquisa do mercado, sobre a comercialização do produto que pretende produzir; tem que ter boa noção do mercado fornecedor, tem que conhecer rudimentos de administração financeira, deve dominar a técnica de formação do preço de venda, tem que ter sensibilidade suficiente para dedicar-se a bom relacionamento humano, tanto com a sua equipe de produção e de vendas, como com sua clientela. Deve ter alguma noção de relações públicas para não emudecer diante de um microfone ou gaguejar na frente da câmera de televisão. Deve ser preparado, com suficiente cultura geral, para discutir, com conhecimento da causa, assuntos quaisquer, com especialistas de cada campo.
Não é pouca coisa. Levando-se em conta que as experiências acumuladas nos tempos passados não valem muita coisa no mundo de hoje, a tarefa de uma boa gestão torna-se ainda mais espinhosa. Quantas decisões erradas estão sendo tomadas quando pretende-se aplicar experiências do passado para a situação atual! E isso, somente considerando a parte da gestão. Na parte técnica, novamente pressionada pelos acontecimentos globais é um outro capítulo, delicado, na tarefa de ser empresário atualizado e atuante.
Vejam só a plêiade de novos materiais, de novos componentes, de novas tecnologias. Não é somente o problema do investimento, da disponibilidade do capital ou da ousadia de trilhar um caminho novo. Há a parte técnica, o domínio de novas tecnologias, do treinamento das pessoas para operar os equipamentos e executar os processos. Uma tarefa hercúlea quando se leva em conta o baixo nível educacional do operariado em geral.
Empresário que almeja sucesso no mercado de hoje tem que se familiarizar com os novos métodos de comercialização, com a crescente preocupação dos consumidores com a saúde e atender com seus produtos a estes mandamentos. Relacionamento no trabalho, onde tem que conquistar a boa vontade de colaboradores, uma seleção científica dos elementos que deverão ser o apoio na gestão e podem ser executores de tarefas diárias, deixando o dirigente principal para ter tempo e cabeça fria para tomada de decisões estratégicas importantes. Entender o crescente papel de mulheres como colaboradoras ativas e eficientes em todos os níveis da hierarquia - tudo isso representa um tremendo desafio para todos que querem ser gestores bem sucedidos.
Já estamos vivendo no meio destas mudanças todas. O maior perigo está no fato de que acontecem silenciosamente, quase imperceptivelmente, mas já estão presentes. E se não vamos dar-lhes a importância devida, quando acordar já pode ser tarde para recuperar o tempo e o terreno perdido.
Sei que não é fácil livrar-se das tarefas rotineiras e cansativas do dia a dia. Mas é necessário reservar uma boa parte do tempo para observar e analisar o que acontece ao redor e espanar um pouco a empoeirada cultura humanística, abandonada nas escolas modernas, mas que nos conduzia a este tipo de observação e análise.
<b>TAXAÇÃO PRORROGADA</b>
A União Europeia decidiu prorrogar taxa antidumping cobrada nas importações da China e do Vietnã. A taxa foi implantada em 2006 porque os produtores europeus conseguiram provar a acusação sobre falsidade de preços dos concorrentes destes dois países asiáticos. Incidem 16,5 % sobre os calçados chineses e 10% sobre o calçado vietnamita. A maioria dos 27 Estados da União Europeia, situados ao norte, exigiam abolição das taxas, mas os países do sul da Europa, onde se concentra quase toda a produção europeia, juntaram documentação provando que os dois paises asiáticos continuavam subsidiando as exportações, pondo em risco empregos na Europa.
<b>Zdenek Pracuch</b>
Sapateiro, shoemaker – pracuch@comerciodafranca.com.br
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