<p>A mecha de cabelos brancos do delegado assistente da Seccional de Franca, Alan Bazalha Lopes, 40, não apareceu por causa de preocupações ao longo de seus 19 anos como policial na região, mas poderia ter sido. Sua rotina de trabalho reúne a monotonia da burocracia, o estresse do atendimento ao público e a adrenalina do convívio com a criminalidade.</p>
<p><br />Bazalha entrou para a Polícia Civil como escrivão em 1991 e passou a delegado de polícia em 1994. Acredita ser um cidadão, não só de Franca, mas da região. "Nasci aqui, mas meu pai era bancário e mudávamos muito. Moramos em <strong>Patrocínio Paulista</strong>, <strong>São José da Bela Vista</strong> e <strong>Batatais</strong>. Voltei a Franca para fazer Direito na Unesp onde me formei em 1992". Com exceção do 4º Distrito Policial, passou por todos os DPs da cidade, pela Dise (Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes), pela DIG (Delegacia de Investigações Gerais), foi assistente da Seccional por duas vezes e passou cinco anos à frente da Cadeia do Guanabara. <br />O tom de voz sempre muito baixo e a visão humanista sobre a forma como criminosos devem ser tratados podem enganar quem não o conhece. "Sempre fui cumpridor da lei de uma maneira bem eficaz. Mas não é por isso que eu vou ofender ou destratar as pessoas. O problema é o crime. Se o cara é psicopata ou foi um episódio ocasional, não é problema meu", afirma.</p>
<p><br />Bazalha se afastará da Delegacia Seccional de Franca para assumir por dois anos o cargo de secretário geral da ADPESP (Associação de Delegados de Polícia do Estado de São Paulo). Ele será o primeiro francano a fazer parte da executiva da associação. "Há uma grande insatisfação entre os mais de 5 mil delegados paulistas. Na greve deflagrada no ano passado, o governo se comprometeu a estudar uma profunda reestruturação na Polícia Civil. Ela poderá ser um marco para a classe se refazer, renascer", disse.</p>
<p><br />Bazalha será o quarto na linha de comando da entidade, atrás da presidente Marilda Aparecida Pansonato Pinheiro e de dois vice-presidentes. Entre as funções que irá exercer na capital paulista, está a gestão da sede, de recursos humanos e atas de reuniões. "A maioria dos integrantes dessa executiva é do interior e de classe intermediária. Acho que foi uma resposta dos policiais, mostrando que estavam descontentes tanto com a administração quanto com a associação de classe. A ADPESP tem que ser um instrumento para melhorar a situação dos delegados de polícia", disse ele.</p>
<p><br />Em mais de uma hora de entrevista, Bazalha defendeu fervorosamente a unificação das polícias Civil e Militar e a necessidade de aumento do salário dos delegados paulistas que, segundo ele, é um dos piores do Brasil. "Um delegado que já ganha mal, quando se aposenta perde o adicional de local de exercício (quantia paga a mais de acordo com o número de habitantes do município onde atua. Em Franca, são R$ 1,5 mil). Olha o desrespeito que o Estado patrão tem com quem trabalhou a vida inteira em uma das profissões que é das mais estressantes... Há muita coisa a ser feita". </p>
<p><strong>Comércio - Quais foram as piores situações que o senhor já enfrentou na polícia?<br />Bazalha -</strong> No Plantão, atendi questões complicadas. Uma vez, teve uma senhora de idade que morava sozinha no Centro e cometeu suicídio com o revólver que ela havia comprado legalmente na semana anterior. Em outra ocorrência, também de suicídio, a esposa da vítima estava totalmente desesperada. Tivemos que levá-la para a Santa Casa. No serviço policial, você sempre encontra pessoas sem qualquer amparo. A gente vive o tempo todo com estresse. Lembro também de uma vez em que chegou um cara embriagado ao 2º DP e eu pensei: "Ah, meu Deus, mais um bêbado...". Então, ele perguntou: "Podemos conversar?". Eu falei: "Claro, senta.". A conversa foi para o lado da recuperação, de tratamento. No fim, ele saiu dizendo que ia procurar ajuda especializada. Me deu um tapinha nas costas e falou: "Viu como é bom conversar?". A polícia é uma escola.</p>
<p><br /><strong>Comércio - O senhor também deve ter contato com muitos criminosos perigosos...<br />Bazalha -</strong> Meu contato maior com a criminalidade aconteceu nos cinco anos em que fui diretor da cadeia. Foram duas oportunidades. Na primeira vez (de 2001 a 2004), foi muito difícil porque tive que desenvolver um modo próprio de atender os presos. De um alimentador do sistema prisional, passei a administrador de um grande hotel. Um péssimo hotel, na verdade. Furado e com uma clientela nada agradável. Não peguei nenhuma rebelião. Naquela época, não existiam facções criminosas como o PCC (Primeiro Comando da Capital). Na segunda vez em que assumi como diretor (2006/2007), a cadeia já estava superlotada. A infiltração do PCC tinha aumentado muito depois de uma série de rebeliões que destruíram penitenciárias por todo o Estado. </p>
<p><br /><strong>Comércio - Como o senhor conseguia controlar a situação?<br />Bazalha -</strong> O esquema é seguir a Cartilha de Direção de Cadeia (<em>uma espécie de manual distribuídos pela Secretaria de Administração Penitenciária</em>) . Há uma normatização a respeito. Além disso, rotineiramente eu tinha audiência com os presos, uma vez ou duas vezes por mês. Discutíamos benefícios, questões familiares, confecção de carteirinhas, remoções, transferências... Tentava, na medida do possível, atender aos pedidos. Vez ou outra, encontro gente na rua que me diz: " Dr. Alan, o senhor foi um pai pra mim...".</p>
<p><br /><strong>Comércio - Por causa desse tratamento dado aos presos, o senhor nunca foi considerado humanista demais ?<br />Bazalha -</strong> Sempre fui cumpridor da lei de uma maneira bem eficaz. Mas não é por isso que eu vou ofender ou destratar as pessoas. O problema é o crime. Se o cara é psicopata ou foi ocasional, não é problema meu. Eu tenho que elaborar muito bem um inquérito, fazer um flagrante direito e encaminhar tudo para o Fórum para que o criminoso seja punido da maneira que o juiz achar melhor. Nada impede, no entanto, que eu tenha uma visão humanista disso. Durante um flagrante, posso ter um entendimento até mais rigoroso do que os demais colegas e, mesmo assim, servir um copo de água para o preso... Nunca tive problemas com isso.</p>
<p><br /><strong>Comércio - O senhor já se viu em uma situação de perigo?<br />Bazalha -</strong> Fazer um flagrante é uma situação estressante. Essa nova dinâmica de operações com mandados de busca também inclui ações perigosas. Mas o maior risco de todos que passei foi no comando da cadeia. A gente acabava entrando nas celas, passando pelos corredores para ver como estava a situação dos presos. Tem de enfrentar tentativas de rebelião, fuga... Para mim, depois que houve aquele episódio envolvendo o delegado de Jaboticabal (<em>Adelson Taroco, diretor da cadeia, foi morto em 2006 ao entrar na ala dos presos rebelados para negociar, acabou dominado e enrolarado em um colchão, no qual os presos colocaram fogo</em>), ficou tudo muito traumático. </p>
<p><br /><strong>Comércio - Onde o senhor mais gostou de trabalhar?<br />Bazalha -</strong> Eu gostei do 2º e do 3º Distritos Policiais. Foi por pouco tempo, mas tenho boas lembranças. Trabalhar em distrito é o serviço policial mais agradável. Você atende a população. No Plantão, foi onde tive contato com situações mais fortes, mas também gostei. Você mantém a ligação com a rua, sabe como está a “temperatura”, a relação com policiais e funcionários. </p>
<p><br /><strong>Comércio - Em seus 19 anos na polícia, quais foram as principais mudanças observadas pelo senhor?<br />Bazalha -</strong> Eu lembro de que quando comecei, em 1991, um roubo causava surpresa. Hoje isso não surpreende mais. Além disso, o número de funcionários parece ter diminuído. Delegados, principalmente. O pessoal acaba partindo para ascensão em outras carreiras com remuneração mais interessante.</p>
<p><br /><strong>Comércio - O salário é um problema?<br />Bazalha -</strong> Atualmente, passamos uma fase muito difícil quanto à questão salarial. O Estado de São Paulo é um dos que pior remunera m seus delegados no Brasil. No início de carreira, recebemos menos de R$ 5 mil líquidos, na capital. O Rio de Janeiro abriu inscrição para delegados agora e oferece um salário inicial de R$ 7 mil. Na Polícia Federal, a remuneração é de R$ 15 mil. Paraná e Mato Grosso do Sul oferecem mais de R$ 10 mil. Nos últimos anos, nossa reposição salarial foi 60% menor do que a inflação. Não teve recomposição. O delegado é o único bacharel em Direito que está à disposição da população para prestar esclarecimentos 24 horas por dia, deveria ser mais valorizado.</p>
<p><br /><strong>Comércio - Mas a estrutura melhorou...<br />Bazalha -</strong> Sim. Eu usava máquina de escrever quando era escrivão. No ano passado, a Seccional de Franca foi incluída no RDO (Registro Digital de Ocorrências). Aquilo lá é uma maravilha. Os boletins de ocorrência são elaborados virtualmente e abastecem a central. Daqui eu posso puxar informações da Baixada Santista, por exemplo. Esse sistema permite fazer pesquisas sobre a situação da pessoa no ato da elaboração do boletim. O desenvolvimento tecnológico neste período foi muito grande. O formato das novas delegacias também é interessantíssimo, há salas de flagrantes, de reconhecimento e entradas diferentes para presos e população. </p>
<p><br /><strong>Comércio - Como o senhor avalia as mudanças nos postos de comando da Seccional de Franca, ocorridas esta semana?<br />Bazalha -</strong> O Marcelão (Marcelo Caleiro, novo seccional) é da cidade e tido como um colega acessível. Dois pontos a favor dele. Bem dife-rente do Mauri (de Camargo Segui), que o antecedeu. Mas ele enfretará falta de funcionários. O quadro de pessoal, que já era pequeno, ficou ainda mais desfalcado sem ele, o Adolfo (Domingos da Silva Júnior, novo seccional de São Carlos), o Mauri, que voltou para Ribeirão Preto, e eu. Além disso, ele sofrerá muitas cobranças para manter os números atuais da Seccional, que são muito bons. Para isso, ele precisará contar com a colaboração dos delegados. Acredito que ele deve reunir todos para conversar. </p>
<p><br /><strong>Comércio - Como o senhor avalia a greve de policiais civis ocorrida no ano passado? Os problemas apontados pela ca tegoria foram resolvidos?<br />Bazalha -</strong> Acho que funcionário público não deve fazer greve nenhuma. Policial menos ainda, porque é um serviço essencial. Não é nem um pouco agradável você se recusar a registrar uma ocorrência. Mas, no Estado de São Paulo, fizemos uma paralisação mínima. No final, não ganhamos o que desejávamos, mas existiu a promessa do governo de estudar algumas questões, incluindo uma reestruturação. </p>
<p><br /><strong>Comércio - Os delegados interromperam a greve sem conseguir o que queriam. Há possibilidade de nova paralisação caso o governo não cumpra suas promessas?<br />Bazalha -</strong> Uma das medidas da nova diretoria da ADPESP que tomou posse no dia 11 será manter contato tanto com o delegado geral quanto com o secretário de Segurança Pública. Se as coisas não caminharem como devem, uma greve ainda em 2010 não está descartada. Isso é fato. O pessoal está em compasso de espera. Precisa haver uma reestruturação não só na questão salarial. Ela poderá ser marco para a classe se refazer, renascer.</p>
<p><br /><strong>Comércio - Como surgiu o convite para o senhor integrar a chapa da ADPESP?<br />Bazalha -</strong> O presidente anterior criou um fórum dentro da página da associação na internet. Era um espaço reservado aos associados em que eles podiam interagir. Alguém colocava uma notícia, a própria administração do site colocava outra e você podia se manifestar. Há três anos, não se sabe o porquê, eles encerraram esse fórum, que era o único meio virtual de comunicação entre os delegados do Estado inteiro. Diante disso, foi criado um grupo na internet de delegados chamado DelpolPC. Começamos com 50 e hoje somos quase mil no grupo. Então, todos os membros da chapa eleita comigo foram participantes ativos desse grupo. </p>
<p><br /><strong>Comércio - A idEia da chapa surgiu no grupo?<br />Bazalha -</strong> Sim. Na eleição anterior, já havíamos tentado. Eu tive que refletir muito. Inicialmente, a ideia era ocupar um cargo no qual eu não precisasse me afastar da delegacia, mas não deu. Como secretário geral da associação, serei responsável pela gestão da sede, de recursos humanos, das atas de reuniões e tudo mais que a presidente inventar. </p>
<p><br /><strong>Comércio - Existe um plano da associação específico para Franca?<br />Bazalha -</strong> Existe a pretensão de instalar uma subsede campestre em Franca, mas acho que há tantas demandas urgentes para resolver que isso terá de ser deixado para outra oportunidade. </p>
<p><br /><strong>Comércio - E o senhor já tem alguma experiência anterior em organizações como a associação?<br />Bazalha -</strong> Já fui presidente da Apocif (Associação da Polícia Civil de Franca). A entidade tinha uma dívida de R$ 70 mil e uma receita inferior a R$ 1,5 mil. Chegou a um processo de insolvência. Então, me convidaram para assumir. Conseguimos em dois anos pagar as contas. Com a compreensão dos credores, é claro, e também com o trabalho de uma equipe muito boa.</p>
<p><br /><strong>Comércio - O senhor gosta de política...<br />Bazalha -</strong> Da boa política, da verdadeira. A satisfação pessoal de ver a coisa rodar direitinho não tem preço. Você ver a entidade de classe numa situação financeira legal, contribuindo para o crescimento profissional dos associados é muito bom. Dá para fazer muito mais, mas os policiais geralmente não têm perfil associativo. </p>
<p><br /><strong>Comércio - O que o senhor acha dos Conselhos de Segurança que existem em Franca?<br />Bazalha -</strong> A sociedade geralmente não tem uma aproximação com a polícia. A gente escuta muitas pessoas falando com orgulho que nunca entraram na delegacia. Está errado. A polícia é um serviço público. Tem que servir a população de acordo com a demanda. Quais são os mecanismos para saber qual é a demanda? Não é só a estatística fria. Temos que ouvir a população. A imprensa e os conselhos são os canais para isso. </p>
<p><br /><strong>Comércio - Eles podem resolver a questão de segurança em Franca?<br />Bazalha -</strong> Pessoalmente, como cidadão e como profissional de segurança pública, acredito que a solução seria termos uma polícia única. A gente teria uma economia tremenda de tempo e material humano. Mas existe uma competição muito negativa. São culturas distintas. Uma focada no militarismo e outra que é civil de mais proximidade com a população. É um atraso para o nosso País. Particularmente aqui em Franca, a parceria é ótima. Mas que o ideal, por lógica, seria um corpo único. </p>
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.