O princípio da incerteza


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“Quero que a notícia não seja verdade”, escreveu a jornalista Miriam Leitão no twitter assim que soube da morte de Zilda Arns. Ainda sob o impacto do terremoto de magnitude 7.3 bombardeado pela internet e televisão na noite anterior mal dormida, o coração dos brasileiros chegou a duvidar em atmo de segundo da fatalidade sobre a fundadora da Pastoral da Criança. E a perplexidade seguiu pelo dia todo com a avalanche de informações que transformaram o Haiti no epicentro da maior tragédia existencial vivida pela humanidade: a incerteza da vida. Os jornalistas são especialistas em juntar conhecimento. Checam, comparam, alimentam fontes confiáveis e se utilizam do ceticismo como crivo para fugir do boato, da meia-verdade, do exagero, do engodo, do improvável, da manipulação, do sensacionalismo. Mas não resistem ao choque do absurdo quando o fato ultrapassa a barreira do senso comum, como o fez Miriam Leitão ao comentar a morte de Zilda Arns pelo rádio. Chorou. Da mesma forma, será difícil ao mundo compreender porque um país já tão miserável e solapado pela catástrofe da fome, por governos provisórios e pela violência tenha sofrido neste momento um golpe da natureza com tamanha dimensão de horror. Na busca por explicação que transcenda o nosso quase sempre limitado ponto de observação, lembrei de uma frase do britânico Michael Faraday, um dos mais influentes cientistas do século 19: ‘Nada é demasiado assombroso para ser verdadeiro’. Traduzindo para o jornalismo: uma notícia não precisa ser razoável, justa, previsível, suportável ou objetivamente compreensível para que seja alçada ao grau de verídica. Ela pode sim pregar uma peça em nossa vigília, como o fez com Zilda Arns no Haiti. Pois a vida não se controla, apenas se mede. A única certeza, dizem os budistas há milênios, é a morte. Na segunda-feira, um tremor de 4 graus balançou conceitos e dados históricos no Nordeste. Chuvas provocam enchentes e deslizamentos aqui e ali e os termômetros e sismógrafos sinalizam que há algo em mudança no comportamento do tempo. Em seu livro Uma verdade inconveniente, Al Gore diz que em 2004 foi preciso reescrever os livros de ciência. Antes eles diziam: “É impossível haver furacões no Atlântico Sul”. Mas naquele ano, pela primeira vez, um furacão atingiu o Brasil, o Catarina. O mundo, a partir de agora, parece ter ampliado a consciência sobre o drama dos haitianos. Enquanto Porto Príncipe conta os seus milhares de mortos, poderíamos em nosso conforto temporário aproveitar a lição e aceitar que o princípio da incerteza pode ser aplicado também ao caos que transforma positivamente. Serviria ao menos para alimentarmos a esperança de que, da mesma forma dinâmica, possamos caminhar em direção a um mundo mais justo e bom para todos. Com a solidariedade, a dor seria menor, ou mais aceitável. Wilson Marini, jornalista, é editor-executivo da Associação Paulista de Jornais

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