‘Demissão não faz mais parte da nossa história’


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<B>PERSPICAZ</b> - Após superar a crise enfrentada pelo Amazonas no final de 2008, Saulo Pucci Bueno espera um 2010 melhor
<B>PERSPICAZ</b> - Após superar a crise enfrentada pelo Amazonas no final de 2008, Saulo Pucci Bueno espera um 2010 melhor
<p>Sábado, 26 de dezembro, 15 horas. O empresário Saulo Pucci Bueno, 53, membro do Conselho Administrativo do Grupo Amazonas, chega à redação do Comércio da Franca. A visita vem confirmar o que o jornal já havia noticiado dias antes: que o Grupo superou a crise enfrentada no final de 2008, quando demitiu 380 funcionários e diminuiu a produção de uma série de produtos. Agora a empresa planeja contratar funcionários para as unidades em Franca, Jequié (BA) e de João Pessoa (PB). </p> <p><br />Saulo permaneceu na redação por mais de uma hora. Demonstrou muito otimismo ao falar dos planos da empresa para 2010, mas foi cauteloso ao tratar dos números. Disse que ainda não é possível estimar quantas vagas serão abertas no total. “Se o mercado reagir, crescemos junto. Mas é bom deixar claro que a palavra demissão não faz mais parte da nossa história, da história do Grupo Amazonas”. </p> <p><br />Com quase 63 anos de atividade, o Amazonas passou, em 2008, pelo seu momento mais difícil, avaliou o empresário. No ano seguinte, a empresa conseguiu quitar dívidas com os demitidos e manter no quadro de funcionários mais de 800 pessoas na unidade de Franca. “Não dispensamos ninguém”. </p> <p><br />Neste mês de janeiro, a empresa já começa a produzir com pedidos em carteira. Além dos tradicionais produtos que fabrica - solados, adesivos e matrizes - investirá na bricolagem. Lançado em novembro último, esse novo produto chegará às indústrias e também diretamente às mãos do consumidor. Trata-se de um sistema de colagem útil para uso doméstico.</p> <p><br />Apesar das boas perspectivas para o ano novo, Saulo não aposta em grande crescimento. Ele não acredita em um “boom” de produção, mas em um aumento modesto. “Ninguém vai sair de 500 pares para 5 mil pares. Mas de 500 para 700 é provável. Será um ano bom, sem otimismo exagerado”.</p> <p><br />Por ser um ano de Copa Mundial, o empresário crê que o calçado esportivo ganhe força em 2010. Durante entrevista ao Comércio, Saulo relembrou o incêndio que atingiu os barracões da empresa em 2005 e opinou sobre a iniciativa do prefeito Sidnei Rocha (PSDB) de promover os encontros com calçadistas em 2009 e valorizar o calçado francano. Veja a seguir os principais trechos desta entrevista.   </p> <p><strong>Comércio da Franca - Qual foi o período mais difícil para o Grupo Amazonas durante a crise?<br />Saulo Pucci Bueno -</strong> Dezembro de 2008 deve ter sido seguramente o período mais difícil que o Amazonas passou nesses quase 63 anos de vida. Tivemos que tomar algumas decisões que sempre foram contrárias a história da empresa. Sempre preservamos ao máximo a questão do emprego. Lamentavelmente, houve uma crise financeira mundial. O Amazonas também foi atingido. Tínhamos também o processo de profissionalização da empresa, que começou em 2005, e foi encerrado no final de 2008. A família reassumiu e começamos a dar um novo direcionamento na empresa. <br /></p> <p><strong>Comércio - Durante este processo de profissionalização, o grupo ficou nas mãos de uma pessoa que não era da família (o executivo Antônio Britto, ex-presidente do Grupo Azaléia e ex-governador do Rio Grande do Sul). Como se deu isso?<br />Saulo -</strong> Foi uma atitude bastante radical. Normalmente as empresas que fazem a profissionalização têm um presidente que não é familiar e outro que é da família. No nosso caso, o diretor presidente na época era um contratado e o presidente do conselho também. Então, os dois eram de fora. Nós tentamos ousar bastante. Eu acho que o ideal, realmente, é você sempre ter uma participação, ainda que indireta. Em minha opinião, o presidente do conselho deve ser sempre um familiar ou um acionista da empresa. </p> <p><br /><strong>Comércio - Vocês se arrependem por terem passado o controle a um executivo que não era da família?<br />Saulo -</strong> Era um momento em que tínhamos que tomar algumas decisões. Graças a Deus, não foi nada que não pudesse ser retomado. Em minha opinião, foi um ato de muita ousadia. Naquele instante precisávamos tomar uma atitude muito forte e tomamos. Mas foi corrigida a tempo. O processo de profissionalização tinha começo, meio e fim. </p> <p><br /><strong>Comércio - Naquele momento de crise, o grupo pensou em deixar Franca?<br />Saulo -</strong> Essa foi uma coisa que nunca passou por nossa cabeça. Porque Franca, principalmente no calçado masculino, ainda é muito importante para o Brasil. A cidade produz um sapato de primeira qualidade e é quem lança moda em termos de calçados masculinos. Então, para nós, é muito importante estarmos aqui para acompanharmos esses lançamentos. </p> <p><br /><strong>Comércio - Como foi o ano de 2009 para o Amazonas?<br />Saulo -</strong> Foi um ano de muita mudança. De muita expectativa positiva dentro da empresa e de imposição de um novo modelo que veio com a administração de um primo meu, o Hamílcar (Hamílcar Pucci), que assumiu como diretor presidente. Junto com o grupo de funcionários, ele deu o rumo que o Amazonas precisava tomar, um rumo de recomposição, reposicionamento e recolocação nos mercados que o grupo sempre ocupou. </p> <p><br /><strong>Comércio - O senhor sempre repete que demitir nunca foi prática da empresa. Em 2009, com essa reestruturação houve reposição de pessoal?<br />Saulo -</strong> Alguns poucos funcionários voltaram. No final de 2008, o Amazonas na época estava muito grande para a capacidade do mercado e precisamos demitir. Durante o ano passado, houve algumas poucas recontratações. A maioria das novas contratações ocorreu no Nordeste, onde o mercado está mais aquecido que o mercado o francano, em termos de produção. </p> <p><br /><strong>Comércio - Como está a empresa hoje, em número de produção e funcionários? <br />Saulo -</strong> Fizemos esse “enxugamento” muito grande em 2008. Mas, passado o grande impacto, houve um momento em que todos os funcionários entenderam que era preciso mudar.</p> <p><br /><strong>Comércio - Mas como está a empresa agora em termos de produção e funcionários?<br />Saulo -</strong> A empresa não dispensou mais ninguém em 2009. Fizemos algumas recontratações. O momento agora é muito bom. Voltamos a produzir com pedido em casa, ou seja, pedido em carteira. A perspectiva agora é muito boa e, dependendo do mercado, quem sabe até o grupo não abre para mais novas contratações e recontratações. <br /></p> <p><strong>Comércio - Qual o foco da produção em Franca hoje?<br />Saulo -</strong> Franca fabrica toda a parte de adesivos, solados e placas para borracha. Além da transportadora e do setor de logística que estão sediados aqui também. <br /><strong>Comércio - Se o mercado reagir bem, as novas contratações seriam focadas em Franca?<br />Saulo -</strong> Seriam gerais, onde o mercado reagir mais rapidamente. Melhor não falarmos em números agora. Mas temos a possibilidade de uma ampliação muito grande para a fábrica de Jequié. O mercado na Paraíba também vai muito bem e existe a possibilidade de crescimento. Mas, tudo isso é sempre com um ponto de interrogação muito grande na frente. Tudo depende do mercado. Se o mercado reagir, crescemos junto. Se não, continuaremos do tamanho que estamos. Mas é bom deixar claro que a palavra demissão não faz mais parte da história do Amazonas. <br /></p> <p><strong>Comércio - O senhor fala muito de mercado. Qual a sua percepção para 2010?<br />Saulo -</strong> Eu acredito que o setor calçadista irá muito bem em 2010. Tenho um otimismo muito pé no chão, mas tenho confiança. A gente precisa acreditar no nosso produto e no potencial de mercado que temos. Para o mercado interno, eu acredito que muitos fatores que irão nos ajudar a vender. Temos a Copa do Mundo de 2010, que é sempre muito boa para calçados esportivos. A tendência é de um aquecimento no mercado interno e, a partir do instante em que o mercado interno cresce, o setor de vestuário vai junto e automaticamente o calçado vai com ele. Será um ano bom, sem otimismo exagerado.<br /></p> <p><strong>Comércio - Qual a inovação do grupo Amazonas em 2010?<br />Saulo -</strong> A grande diferenciação que estamos fazendo é no setor de bricolagem (tipos de cola para uso doméstico). Estamos apostando num produto utilizado no dia-a-dia do cliente. O Amazonas sempre trabalhou vendendo de indústria para indústria e agora nós vamos trabalhar com o consumidor final. É uma ousadia, mas acreditamos bastante no setor e, com confiança, achamos que podemos crescer. <br /></p> <p><strong>Comércio - Quando começaram as vendas desta nova linha de produtos?<br />Saulo -</strong> Há um mês. Fizemos o lançamento e depois colocamos em mercados diferenciados. <br /></p> <p><strong>Comércio - A tendência é lançar esse produto para todo o país?<br />Saulo -</strong> A idéia é essa numa segunda etapa. Primeiro vamos começar de maneira modesta, bem segura, vamos sentir o mercado. Depois pensaremos em evoluir. <br /></p> <p><strong>Comércio - O incêndio que atingiu os barracões do Grupo Amazonas de Franca em fevereiro de 2005 causou muitos prejuízos para a empresa. O grupo já se recuperou dessa fatalidade?<br />Saulo -</strong> Isso faz parte do nosso passado. A única coisa que atrapalhou muito a empresa foi a questão de sermos grandes demais para o mercado no final de 2008. Tomo como lição as palavras do senhor Zdenek Pracuch ditas em uma palestra aqui no jornal. “Não se iludam, não fiquem esperando. Se tiverem que fazer algum corte, façam agora”. Naquele momento, o senhor Pracuch disse uma coisa que esperávamos ouvir havia muito tempo, ou seja, não ficar adiando uma situação. Enfim, naquele instante, fizemos o que deveria ser feito. Não podíamos nos dar ao luxo de ficar no prejuízo. Esse momento para a família foi muito desagradável, todos ficaram muito chateados porque a palavra demissão dentro do grupo Amazonas é considerada um palavrão até hoje. <br /></p> <p><strong>Comércio - O prefeito Sidnei Franco da Rocha começou uma campanha para valorizar a marca do sapato francano. O que senhor acha dessa iniciativa?<br />Saulo -</strong> Como toda e qualquer iniciativa, independente de onde venha, é sempre boa e temos que apoiar. Todas as iniciativas que vierem para impulsionar são sempre bem vindas. O sapato de Franca tem futuro e é preciso que os empresários dos setores de calçados e de componentes saibam que é necessário conhecer os anseios do mercado e o momento econômico. Tudo que for feito para que a marca e a produção da cidade se consolide tem de ser apoiado. <br /></p> <p><strong>Comércio - O Amazonas tem muitos prédios ociosos?<br />Saulo -</strong> Com a evolução do projeto de bricolagem, pode ser que ocupemos um dos prédios desativados. Mas alguns prédios e imóveis estamos colocando à venda para capitalizar o grupo. Temos dois imóveis à venda em Franca, localizados no Distrito Industrial, e um no Sul, em Novo Hamburgo. <br /></p> <p><strong>Comércio - Como serão feitas as vendas desses imóveis?<br />Saulo -</strong> O que queremos fazer é o seguinte: por exemplo, estamos devendo para a Receita Federal. Aí, supomos que o prédio seja avaliado em R$ 10 milhões, que é o valor estimado da dívida, aí entregamos o prédio para a receita e fica tudo no zero a zero. <br /></p> <p><strong>Comércio - Qual o valor estimado da dívida do grupo Amazonas?<br />Saulo -</strong> Podemos dizer que diminui bastante, mas, ainda estamos devendo muito. A dívida ficará ainda para os meus netos (risos). Mas para os bancos não devemos praticamente nada. Para fornecedores, devemos muito pouco e o pagamento dos funcionários está em dia. A maior parte das dívidas é formada por impostos fiscais. Estamos no Refis (Programa de Recuperação Fiscal), então, teremos uns 15 anos para pagar. <br /></p> <p><strong>Comércio - Qual o valor da dívida fiscal do grupo Amazonas?<br />Saulo -</strong> Ela está administrada. Se não fosse o Refis, a situação estaria mais complicada. <br /></p> <p><strong>Comércio - Qual o valor total dos três imóveis disponíveis para venda?<br />Saulo -</strong> Devem estar em torno de R$ 20 a R$ 25 milhões. <br /></p> <p><strong>Comércio - Com a venda dos três imóveis, o senhor quita a dívida do grupo Amazonas?<br />Saulo -</strong> O valor diminui muito, mas sobra um pouco ainda para quitar. <br /></p> <p><strong>Comércio - O Amazonas sofreu um golpe e agora se levantou. Qual a mensagem que o senhor deixa para os empresários que estão passando por momentos de luta também?<br />Saulo -</strong> O setor calçadista não aceita mais a administração feita de forma amadora. Não há mais espaço para os aventureiros. Quem gosta do setor de calçados deve continuar investindo sempre, crescendo e acompanhando a evolução do setor com ética. O que nos ajudou muito a superar as dificuldades foi o fato de termos um nome bom no mercado e um conceito, o fato de trabalharmos com profissionalismo e seriedade, de termos honestidade com credores e funcionários. Essas são coisas essenciais para quem quer continuar no mercado lutando e crescendo. </p>

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