Quando chega o mês de dezembro, sabemos todos os que curtem as canções, os escribas e os poetas, sentem que, em seu íntimo, um clima de doçura e de cálidos perfumes se espalha com o odor das flores silvestres e das plantas dos jardins.
É o suave milagre da natureza que nos vem da primavera das coisas, dos céus e dos poetas. Então, os que gostam de escrever, escrevem, os que gostam de admirar, admiram. E os que gostam de conversar com a natureza, conversam: pois é Natal. Um poeta, Mário Pederneiras, registra em seu caderno:
<i>“Vem chegando o Natal...
Há noites claras
E a brancura cristã de preces e de Hinos”
Mário abre as reservas de suas miragens e completa os traços de suas paisagens interiores:
“É tudo branco - estradas e searas...
Vem chegando o Natal; ouço-lhe os sinos.
E o seu lindo rumor de cousas brancas.”
O poeta recobra as lembranças de outros tempos. Das belezas passa às ternuras, e das ternuras às saudades:
“Dos alegres Natais desta locanda resta a saudade que nos acabrunha...” (Histórias do meu casal).
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Os poemas de Olavo Bilac logo nos saltam aos olhos: nenhum poeta como ele celebrou os dons da vida e da morte, as lendas dos clássicos e as estórias dos modernos, os sonhos e as batalhas de verdade. Mas Olavo Bilac aspirava e expelia sensibilidade:
Prometeu, Hércules, Jesus, Antígona e Madalena, Cleópatra e a Rainha de Sabá. E o Natal, também! Na verdade o soneto “Natal” evoca o nascimento de Cristo “num ermo agreste” e no “rústico presepe”, como no nascimento de Jesus. E o poeta pressagia:
“E o pão: ‘Darás o pão da terra e o pão divino’;
E a água: ‘Darás a água ao mártir e ao sedento’;
E a palha: ‘Dobrarás a cerviz do opulento’;
E o teto: ‘Elevarás do opróbio o pequenino!’”
O desfecho do soneto traz a presença da Virgem Maria:
“Muda e humilde, porém, Maria como escrava,
Tinha os olhos na terra em lágrimas desfeitos,
Sendo pobre, temia, sendo mãe, chorava!”</i>
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