A crise que se instalou no mundo todo no final de 2008, quebrou bancos centenários e derrubou bolsas de São Paulo a Tókio, não pegou o secretário de Finanças de Franca de surpresa. Sebastião Ananias disse que desde abril do ano passado começou a sentir uma retração no mercado e revelou o método próprio que usa para avaliar a economia local: visitar revendedoras de carros usados, salões de beleza, perfumarias, sapatarias e conversar com revendedoras de cosméticos. “O melhor lugar para saber como está a economia são as revendedoras de carros usados. Quando cheguei lá no ano passado, descobri que ninguém estava vendendo nada”, disse.
A situação se repetia no salão de beleza. “As donas de casa pararam de ir ao salão com frequência e só se arrumavam no fim de semana para passear”, percebeu. Na perfumaria e nos cosméticos, as vendas também tinham diminuído. “As pessoas usavam perfumes caros apenas para sair”. A única que sentiu um reflexo positivo foi a sapataria. “Estou lotado de serviço”, teria dito o dono de uma sapataria da região central. “Ou seja, todos estavam economizando”, diagnosticou o secretário. Deixaram de comprar o novo, para consertar o velho.
Atentos, em setembro de 2008, Ananias e o prefeito Sidnei Rocha começaram a se preparar para o ano difícil que previam. “Conversei com o prefeito e começamos a cortar despesas e a controlar melhor os gastos”, disse.
Apesar de ter conseguido se prevenir e evitar um mal maior, Ananias não abandonou o hábito de sentir, na própria pele, como estão os movimentos do mercado francano. No Natal, foi a campo mais uma vez. Como precisava presentear os funcionários da sua fazenda, visitou oito lojas. “Normalmente eu anoto e compro todos os presentes no mesmo lugar, mas desta vez decidi comprar dois em cada loja. Fui em oito”.
A experiência rendeu. Primeiro, ele conseguiu flagrar uma loja que não emitia notas fiscais - o secretário garante que pede nota de absolutamente todas as compras que faz e só abre mão de ter um produto nacional por um produzido em outro País em casos de extrema necessidade. “Fui muito bem atendido por uma moça em uma loja. Escolhi o presente, fiz o cheque, ela me entregou o pacote e disse que estava tudo certo. Daí eu disse para ela: ‘escuta, nossa relação de compra ainda não terminou’. Ela insistia que estava tudo certo e eu tive que lembrá-la da nota fiscal”. No fim, a compra acabou se tornando um evento conturbado. Muito provavelmente sem saber que o cliente era o secretário de Finanças da cidade, a gerente da loja disse que não tinha blocos de notas fiscais. “Eu disse para ela que, se ela não arrumasse a nota, eu chamaria um fiscal e que ela não podia funcionar sem emitir as notas”, lembra.
Além de evitar que a loja continuasse se negando a emitir notas, Ananias ainda percebeu um dado mais alarmante: ele acredita que o aumento de vendas, comemorado pelos comerciantes de Franca, talvez não reflita um real crescimento no faturamento das empresas. “No ano passado comprei uma sandália por R$ 89,90. Este ano, o mesmo produto, só com a cor diferente, saiu por R$ 69,90”, contou. Nada de promoção. Para ele, a queda é um sinal de deflação (quando o mercado fica estagnado e os produtos tendem a baixar de preço) e obriga os lojistas a venderem mais para alcançarem o mesmo faturamento. Mesmo vendendo mais este ano, os lojistas correm o risco de faturar valor muito parecido ao do ano passado. Resultado: se não cresce o lucro, não cresce a quantidade de impostos pagos. Um péssimo sinal para a arrecadação de 2010.
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