Natal quente, mesmo no frio


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Toda criança adulta sonha com um Natal branco. Como brasileira que já foi criança e viu muitos filmes americanos, também sonhei com meu White Christmas... O que vivi não foi exatamente igual, mas chegou perto. Nos filmes de Natal a festança transcorria num cenário de encantadora paisagem branca externa. Crianças usando pijamas e chinelos quentinhos vinham para a sala aquecida pelo romântico fogo a crepitar na lareira, ao lado da qual estava a majestosa e enfeitada árvore (natural) que daddy fora buscar de caminhonete. Sob a luminosa decoração e olhares amorosos dos mais velhos, elas abriam os presentes. Depois, agasalhadíssimas, iam lá fora fazer um boneco no qual punham cinto preto, cartola, cenoura no lugar do nariz. Papai beijava mamãe - que quase se machucara ao cair da escada enquanto enfeitava a árvore. Tocava a música que até Elvis Presley gravou, aparecia The End na tela. Pela segunda vez na vida tenho meu Natal branco. Estou em Londres e tem nevado um bocado. Lá fora, a paisagem é branca. Não, não está tão gelado assim. É um frio seco, gostoso. Um bom casaco sobre uma blusinha de lã dá conta de contornar. Há quem pense que é preciso botar minhocão, camiseta e duas meias, casacão por cima, gorro e luvas: esses entram no metrô, no ônibus, nas lojas e suam. Dá para perceber quem vem das quenturas... Olho lá fora, a paisagem é branca, as árvores estão secas, as crianças estão agasalhadas e, das menores, só aparece a ponta do nariz, vermelhinha, no meio dos casacos e cobertores. Não dá para fazer o boneco de neve - isso é só quando a neve (em quantidade) está soltinha, logo quando cai. À medida em que o tempo esquenta, a neve derrete, vira água e empoça. Por causa da temperatura baixa, congela novamente. Forma-se uma crosta sobre as calçadas, ruas e escadas que parece ter sido besuntada com quiabo. Andar sobre essa camada melequenta é tarefa para malabaristas. Não tem jeito. É esquecer a elegância, imitar pata choca se arrastando e não ter pressa... A gente sabe. Natal é data marcada arbitrariamente. O dia do nascimento de Jesus Cristo não é 25 de dezembro. Mas a gente faz de conta. A gente faz de conta que houve o cometa, Melquior, Baltasar e Gaspar, a manjedoura. E aí a gente faz o presépio. A gente imita o ato de reverência dos Reis Magos ao Menino Jesus e dá presentes para as crianças e para todos que amamos. Os homens de boa vontade rezam, na data, por um futuro melhor para a humanidade. Independente de religião ou crença, a gente imagina - enquanto comemora - um mundo onde as pessoas de fato se importem umas com as outras. Nesse dia esforçamo-nos para nos libertar da percepção visual das diferenças na cor das peles do exterior dos corpos humanos para podermos perscrutar o interior de cada uma delas, que é o que realmente importa. E nada nos impede de sonhar com a possibilidade de fazer desaparecer diferenças de linguagem para nos tornarmos irmãos e fazer que o mundo - de todo mundo - seja de Paz. Pura mágica, é Natal, aqui e ali, ocidente e oriente, independente da temperatura ou da frieza dos homens lá fora. DECORAÇÃO As ruas centrais londrinas estão enfeitadas com luzes prateadas e azuis. Como aqui é inverno, escurece cedo - quatro e meia da tarde já está escuro - os guarda-chuvas e pacotes de presentes (referências ao filme da Disney Christmas Carol - fiquei imaginando quanto rolou de royalties nessa transação...) parecem estar soltos sobre a Oxford, Regent, New Bond Street, Picadilly - as mais conhecidas ruas da capital da terra do princípe Charles Philip Arthur George Mountbatten-Windsor e de Camilla Parker-Bowles. ESPAÇO O Westfield London Shopping fica em Shepherds Bush, estação de metrô da Central Line. Indescritível. Não deixa de ser opção turística mas, para quem vem a Londres fazer pesquisas de tendências, a visita ao novo espaço inglês é obrigatória. Todas as lojas populares importantes estão concentradas lá. No The Village estão as grifes famosas, aquelas que são responsáveis pelos rumos da moda. Não, não tenho competência para comprar nadinha, mas me divirto (e muito) só de olhar... RÁDIO Contam que uma música francana teria sido, durante algum tempo, a abertura de um programa brasileiro da BBC (British Broadcast Corporation). Infelizmente não tenho, no momento, como buscar a veracidade e agradeço se alguém puder me ajudar. Mas uma coisa é certa: Carlos Zacarelli, o locutor esportivo da Difusora tem um fiel ouvinte em Londres, das suas animadas transmissões dos jogos de basquete da nossa equipe: um rapaz chamado Eduardo, também francano, apaixonado pelo esporte. CULINÁRIA Natal, compartilho a cobiçada receita de Torta de Nozes de mamãe. 1 xícara (chá) de manteiga + 2 xícaras (chá) de açúcar + 3 ovos - claras em neve + 2 « xícaras de farinha de trigo + 2 « xícaras de nozes moídas + 1 colher (sopa) de Nescau + leite (quanto baste). Assar. Ainda quente, cortar em duas camadas. Umedecê-las com vinho moscatel e rechear. Primeiro recheio, doce de nozes: colocar numa panelinha e dar uma leve fervura na mistura de 2 ovos inteiros + açúcar e nozes moídas na mesma quantidade + pouquinho de vinho moscatel. Segundo recheio, molho de damasco: deixar de molho durante a noite, 50 gramas de damasco + 1 xícara de água. Amassar bem, adoçar com 4 colheres de açúcar e dar fervura ligeira. Embora haja outras sugestões, a cobertura pode ser apenas de açúcar peneirado e os enfeites, cerejas e raminhos verdes. Lúcia Helena Maniglia Brigagão Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br

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