Ele disse a que veio. Nunca disse o que tinha de ser dito. Apenas disse o que tinha a dizer. Enfrentou sozinho os políticos da época. Fariseus hipócritas que objetivavam apenas o ‘paraíso’ terrestre, conquistado com o dízimo dos crentes e com o apoio político de Roma. Sacerdotes seculares e gananciosos, trajando a paramenta do poder, não tiveram outro meio de se livrarem Dele, que não fosse a condenação à morte ignominiosa da cruz.
Mas é assim mesmo. George Orwell legou à posteridade o seguinte pensamento: ‘Em tempo de embustes universais, dizer a verdade se torna um ato revolucionário’. Cristo foi um revolucionário porque disse a verdade. E mais, conclamou a todos que buscassem a verdade como um dos mais bem sucedidos meios para se alcançar a liberdade.
Por falar em verdade, vivemos em tempos de mentira e engodo, tempos em que a verdade tem de ser abafada a qualquer preço. Tempos da fábula da ‘rã cozida’. Todos conhecem a história de Olivier Clerc, escritor e filósofo, mas não custa relembrar. O pobre batráquio não sabia que estava sendo cozido. Fora colocada numa panela com água fria que foi sendo aquecida aos poucos. A mudança foi ocorrendo de um modo suficientemente lento de maneira quase ‘imperceptível’. No começo ela se sentia muito bem. A água morninha a aquecia e confortava. Só que a água foi esquentando lentamente a ponto de deixá-la cansada e debilitada sem forças para conseguir saltar para se livrar da morte. Caso a rã tivesse sido atirada com a água aquecida a 50 graus não teria morrido. Imediatamente sentiria a ameaça e fugiria. Mas como a mudança de temperatura aconteceu lentamente ela não teve consciência do perigo e sucumbiu.
Estamos sucumbindo. A ‘estratégia indireta - por ações sucessivas’, faz com que fatos que há 20, 30 anos horrorizavam toda a sociedade, agora já não sejam capazes de mobilizar ninguém. Indiferentes e inconscientes estamos sendo ‘cozidos’, enquanto nossa dignidade, nossos direitos e garantias individuais vão sendo aos poucos retirados de nós em nome da ciência, do progresso, da ‘segurança’.
Triste destino esse. Mais um Natal com perus, panetones e ‘Arruda’, e já nem nos lembramos de outros que passaram ‘enfeitados’ com anões, mensaleiros e quadrilhas que assaltaram o poder.
Imagine você que vai trabalhar de janeiro até maio de 2010 para manter um sistema que não tem nada de democrático? Imagine que, como simples mortal, é obrigado a cumprir e respeitar as leis, mas que aqueles que estão no poder através de seu voto, ou seja, em tese, ele é um igual, saiu do seio do povo para representá-lo. Esse mesmo.
No momento em que assume o mandato passa a fazer parte de um status de semideus, o que o faz se considerar acima dessas leis burlando-as e alterando-as de acordo com os próprios interesses, traindo sua confiança e empobrecendo a nação.
A verdade incomoda, mas também liberta. E mais um pensamento de George Orwell se presta a ilustrar essa declaração: ‘Se liberdade significa algo, significa o direito de dizer às pessoas aquilo que elas não querem ouvir’.
O chavão ‘a verdade dói’, é antigo, mas continua atual. Aproxima-se o momento em que o povo brasileiro fundamentalmente terá de se posicionar. Somos todos ‘vacas de presépio”. Isso é indiscutível mas também é possível nos movermos dentro desse ‘espaço’ para tentarmos enxergar a realidade de outro ângulo.
Alterar a posição no tabuleiro. É disso que precisamos.
Nadir Ap. Cabral Bernardino
Advogada formada pela FDF, pós-graduada em Política e Estratégia e Direito Ambiental
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