O mundo fica colorido no fim do ano. As noites são luminosas e tudo em volta ganha cor. E o Natal se repete, sempre com o mesmo apelo, a mesma canção, os mesmos sinos a lembrar que algo mudou. Ou que deveria ter mudado.
Acho que o Natal existe para que a gente descarregue um pouco nossa culpa de viver num País onde as desigualdades são criminosas, num mundo onde impera a violência e numa sociedade que cultiva a falsidade antes da fraternidade. A gente dá um panetone ao lixeiro, uns trocados ao guardador de carro, uma cesta básica a um mais pobre e com isso podemos descansar a cabeça cheia de cachaça no travesseiro, achando que Natal é realmente a festa da fraternidade e esperança.
Somos sentimentais, herança dos lusos, e com qualquer pequeno gesto, achamos quites as contas com o mundo. Mesmo que tenhamos passado um ano inteiro derrubando concorrentes, pisando amigos, chutando o traseiro do coitado do cachorro, empurrando velhinhos nas filas, um simples presente de Natal a uma criança pobre, uma visita a um asilo, já nos redime de toda a culpa e podemos enfrentar o mundo com a leveza dos justos, achando que cumprimos nossa tarefa. Eu não sou diferente, faço minhas caridades natalinas mas com um olho voltado para a balança onde minhas ações um dia serão julgadas e pesadas.
Esquecemo-nos constantemente que a mão que se estende diante de nós é a de um irmão, às vezes mais carente de afeto do que de pão. Não nos lembramos, nesse maravilhoso mundo de internet e tecnologia, que uma palavra pode valer mais que um belo presente. E compramos a paz de nossas consciências nos shoppings. Dividida em cinco vezes.
O Natal tem duas faces. Há o Natal dos homens e o Natal de Deus, e eles se fundem numa só noite onde ainda é permitido sonhar até com Papai Noel e mais ainda, com paz e justiça. Os americanos foram os primeiros a perceber que Natal vende e puseram mãos à obra, desenterrando um velho patriarca, Nicolau, que era famoso por dar presentes às crianças pobres nesta época. E vestiram Nicolau com um manto vermelho, deram-lhe um trenó puxado a renas e desde então o Natal nunca mais foi o mesmo. Papai Noel veio para ficar como um símbolo eterno de todos nossos sonhos e desejos que afloram nessa época.
A mensagem de esperança no nascimento do Menino-Deus, que deveria ser a tônica todo esse tempo, é esquecida diante do apelo comercial. O nosso lado consumista mistura fé com liquidações, presépios com shoppings, sacolas lotadas de compras com corações vazios.
Assim vamos, ano após ano, pagando nossas culpas, derramando o peso de nossos pecados, dando um abraço nada fraterno, na esperança que a vida nos seja mais leve sem o peso da consciência, esse bicho voraz que nos acompanha até na cama. Mas, como é Natal, resta sempre um fiapo de esperança e uma estrela brilha para nos nortear a um novo caminho. Que seja repleto de amor e sabedoria. Feliz Natal!
NATAL
Divida seu pão. Você que tem a mesa farta lembre-se que neste Natal muita gente não tem um prato de comida. Essas generosidade e irmandade valem mais que os gestos, às vezes públicos, de devoção e religiosidade. Deus mora no homem.
DICA PARA A CEIA DE NATAL
Pizza servida com finas folhinhas de arruda por cima. O prato deve ser levado à mesa dentro de meias de lã.
CIRCULA NA INTERNET
Aprendi que o homem tem quatro idades: quando acredita em Papai Noel, quando não acredita, quando é o Papai Noel e quando se parece com ele.
PRESENTE INUSITADO
- O que você gostaria de ganhar de Natal?, pergunta a mãe para a filha de sete anos.
- Um preservativo.
- Preservativo?!
- É que eu já tenho cinco bonecas e não quero ter mais nenhuma!
Edward de Souza
Jornalista e radialista - edward@comerciodafranca.com.br
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