Em meio a todo consumo próprio desta época, aliado principalmente à voraz comilança, pouca gente se lembra do aniversariante do próximo dia 25. Muito menos daquilo pelo que passou a mãe de Jesus, com apenas 16 anos, para ter um filho longe de casa, praticamente em uma cova – ou gruta, como queiram.
O nascimento de Cristo continua sendo uma lenda viva. Se, há mais de dois séculos, fosse dito: ‘Hoje nasce a luz’, a frase por certo não teria emocionado o coração humano. Revelaria apenas um fenômeno físico normal, como qualquer outro. Apesar de toda grandiosidade proporcionada pela claridade, em um mundo totalmente escuro, o feito cairia no esquecimento.
Mas a luz nascida no inverno de Belém transformou-se em criança. Mais que isso, passou a representar o próprio filho do Criador. Bem ou mal, depois de 2009 anos, o mundo todo ainda comemora o nascimento de Cristo ou do Menino, como queria Maria, caso não fosse ter mais filhos, além do primogênito. Mesmo com a dúvida, José preferiu o prenome Jesus.
Depois da crucificação, aos 33 anos de idade, a data do nascimento de Cristo passou a ser comemorada em cerimônias místicas. Com tantas pregações, os fiéis ficavam tristes e esfomeados. O único recurso era partir para a ceia. Com as entranhas cheias, uma vez que o ventre é a base sólida da existência, Jesus renascia. E a alegria voltava, mais pelo vinho, que pela carne ou pelo pão.
A concepção de Cristo gerou várias concepções, principalmente na literatura. Tolstoi acreditava e deixou transparente em suas obras que Jesus foi um homem como qualquer outro. Chega a ser um sacrilégio considerá-lo Deus, no entender do escritor russo.
Já o cineasta Charles Chaplin, criador do personagem Carlitos e que tão bem retratou a infância em seus filmes, disse certa vez não se sentir realizado profissionalmente por não ter recriado Jesus Cristo em um filme. No entender dele, em toda a história da humanidade jamais houve um agente mais forte e transformador que o homem que serviu de paradigma ao cristianismo.
Para Chaplin, que morreu exatamente no Natal de 1977, a tradição religiosa deformou muito a imagem de Cristo. Em seu filme, apenas idealizado, Jesus teria uma acolhida delirante entre homens, mulheres e crianças. As pessoas iriam ao encontro Dele para sentir todo o seu magnetismo. Por ser um personagem dinâmico, nada de tristeza ou distanciamento conforme mostra a história através dos tempos.
José Saramago, escritor português, ganhador do Nobel de literatura em 1998, escreveu ‘O Evangelho Segundo Jesus Cristo’. Na trama do livro, Jesus se comporta como um homem comum. Desde criança, o personagem central demonstra independência psicológica. Durante a rebeldia da adolescência deixa a casa dos pais e começa sua peregrinação. Depois de conhecer os discípulos e se envolver com Maria Madalena, acaba morto na cruz por combater a corrupção e principalmente as ideias do imperador de Roma.
Antônio Araújo
Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br
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