De onde vem o impulso?


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Pronto. Esta ai, de novo, a mesma e estranha sensação que nos acomete a cada final de ano, quase a exigir uma – boa – ação, capaz de fazer diferença na nossa própria e na vida de alguém. Final de ano é assim mesmo. A gente se torna diferente. Há, e não conseguimos compreender bem porque, uma necessidade quase fisiológica de olhar para o lado, atentar a pequenas coisas, gestos, pessoas, situações que durante o ano corrente, não nos estimularam. Penso que o ser humano é assaltado, à cada final de ano, por uma síndrome de fim dos tempos, medo do desconhecido. É como se não houvesse futuro e, se houvesse, só estaríamos nele se nossa "balança da vida" estivesse perfeitamente equilibrada. Essa balança é o ponto nevrálgico. Seus pratos, um, o do "ter" e o outro, o do "ser", deveriam pesar rigorosamente o mesmo, mas não pesam. E é só no fechamento de ciclos - como um final de ano - que a gente pensa nisso. Ser incrivelmente complexo, o humano enfim compreende a colossal constatação: “não fui suficientemente bom, mas poderia ter sido’. Penso que seja isso o que determina o espírito de bondade e de solidariedade que toma conta das pessoas, nesta época do ano. Trata-se, simplesmente, de tentar um remédio para fazer diferença no prato quase vazio do "ser". Corações e mentes duros tornam-se suaves. Choros contidos explodem. É Natal! Vou ajudar você a direcionar esse incontrolável desejo que agora o assalta, de fazer diferença na vida de alguém, de testemunhar um sorriso agradecido, de se emocionar com lágrimas de verdade, as mesmas que observei nos olhos de uma senhora a quem devolvi uma nota de R$ 50, perdida no interior de um varejão da cidade. Eu fazia compras e encontrei o dinheiro no chão, muito bem dobradinho. Podia não ter agachado para apanhar. Sabe as cópias de notas que jogam aqui e ali para pegar os "bobos" e ver como vão agir ao apanhar e, depois, ao constatarem que era só uma pegadinha? Pois é. Coloquei-me sobre a nota. Olhei para os lados. O prato de minha balança do "ter" se mexeu. Agachei-me e peguei a nota. Coloquei-a no bolso. Olhei de novo, para os lados. Prossegui agindo normalmente. Pensei: "mais tarde, confiro”, o prato errado de minha balanca vibrando de satisfação. . Andei mais um pouco. No interior da loja, vários casais escolhiam e enchiam carrinhos. Crianças garantiam bolachas. Outras, uvas, doces. Os pais, carnes e bebidas. De repente, a tal sensação estranha me toma: “e se alguém, ainda presente, fazia suas compras na certeza absoluta de que teria uma nota de R$ 50 na ocasião do caixa? E se forem as crianças das bolachas?”. Paguei minhas compras e, ao sair, coloquei-me em plantão à porta da loja, olhos nos caixas e na entrada do ambiente. Quatro crianças que sorriam passaram por mim. Logo atrás, uma senhora ainda jovem, expressão tensa. "Tá no carro. Fique tranquila", disse uma das crianças, certamente a mais velha. Podia ser qualquer coisa. Aguardei. A senhora abriu a porta de um velho carrinho popular e conferiu bancos, chão. Derrubada, encostou-se ao teto do carro, olhar perdido, comentando: "Não está". Não me contive. Perguntei. "Perderam algo?". E ela, desesperançada: "uma nota de R$ 50". Emocionei-me. Enfiei e mão no bolso. Estendi-lhe a nota. Em resposta, grandes sorrisos e um quase “não acredito...”. Ouvi um “Deus lhe pague. Não sabe como...”. Não ouvi o resto. Não era preciso. Estava tomado por uma sensação muito boa. Vi-me rindo sozinho. Adrenalina, sentimento de dever cumprido, sei lá... As oportunidades de fazer diferença estão ao alcance de um olhar, mas é preciso que você queira. Pergunte a alguém, se não conseguir observar. É Natal, lembra-se? UMA ESCOLHA POSSÍVEL A Associação do Comércio e Indústria de Franca tem muitas cartas com pedidos de crianças para serem adotadas. Passe por lá. Foram deixadas por crianças que estiveram com o Papai Noel, na casinha que a entidade "empresta" ao velho São Nicolau, todos os anos. Há, dentre os pedidos, coisas extraordinariamente capazes de reequilibar sua balança da vida, em uma ``única pesagem". "Eu não quero nada para mim. Só quero um Natal melhor para minha mãe", diz uma das crianças, certamente filha de pai ausente, que fez e desapareceu. "Quero um carrinho", diz outro; "Um pouco de comida"..., "quero ajudar minha mãe a pagar o aluguel do lugar onde a gente mora". Tem até um ex-ajudante de Papai Noel, que mora sozinho e quer muito um aparelho de televisão". Vá, na segunda, à ACIF. Sente-se e leia. Ajude o Papai Noel a presentear você próprio com alguma grande emoção para esta sua vida repleta de grandes riquezas. A HUMANIDADE E A SOLIDARIEDADE Conversei ontem com um bom amigo sobre a humanidade que Jesus assumiu quando nasceu cá neste mundo. Como homem e marceneiro, certamente martelou o dedo, teve vontade de mandar tudo para o alto - para o alto não; para qualquer outro lugar - ; pegou resfriado, teve cólicas, vontade de comer algo que sua família terrena não lhe podia dar. Cresceu. Viu a balança de sua vida pender para lados certos e errados já que viveu sua condição humana na plenitude. Num certo dia, olhou para o lado, deixou todos os seus bens terrenos, aqueles que não leva para o túmulo e completou a missão divina de distribuir amor, solidariedade, preocupação, companheirismo e certeza de renascimento. Mostrou o caminho do equilíbrio da balança da vida, exatamente o caminho que nos lembramos de percorrer, mesmo a reboque, em cada tempo de Natal. Fico pensando no mundo que poderíamos construir, não fosse a síndrome do fim dos tempos. Luiz Neto Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br

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