Natal mudou?


| Tempo de leitura: 5 min
Quando as classes sociais do Brasil eram alta, média e baixa, minha família podia ser considerada quase pobre. Papai começava sua carreira no banco, estudava e trabalhava. Mamãe batucava bolos e doces e costuras para aumentar o orçamento doméstico. Morávamos numa casinha popular, três quarteirões para baixo da Igreja, quase no córrego, na periferia. O Natal se aproximava, mamãe fazia extravagâncias no armazém: comprava cinco castanhas portuguesas; cinco nozes; cinco amêndoas, um pacote de figos secos. Da Petisqueira Oriental trazia cinco cachos de uvas (pequenos) e quatro caçulinhas da Antárctica – memorável logomarca ainda com a estrela de Davi sobre os pinguins. Tirava do armário o vinho, presente do tio César. Véspera de Natal farturenta: macarronada, frango assado, maionese. De sobremesa, doces – sobras das encomendas, bolo coberto com glacê branco, enfeitado com raminhos verdes e umas bolinhas vermelhas. Tinha árvore de Natal: a ponta de um cipreste enterrado na lata recoberta por papel laminado e cheia de penduricalhos vermelhos, verdes e dourados. Umas bolotas de algodão - para imitar neve, que imaginávamos cair muito longe daqui e existir apenas nos livros infantis. A gente jantava na mesa bonita com toalha bordada, cheia de flores e samambaia. Era-nos permitido um dedinho de vinho no fundo do copo de vidro americano e... cama! No dia seguinte abríamos os presentes que Papai Noel deixara. Sapatos novos (os velhos estavam uma lástima, além de apertados), vestidos novos (que mamãe costurava e bordava na calada da noite), caixa de lápis de cor, bonecas de olhos fixos - as outras eram sonho impossível. Lembro-me de uma mini-mala vermelha que depois serviria como lancheira na escola, recheada de linhas de bordado, uma toalhinha e tesourinha – uma maravilha! Quando o orçamento deu folga, passei a ganhar livros, também. Meu irmão ganhava os carrinhos, caminhões e revólveres para brincar com papai de Shane. No faroeste, Alan Ladd era Shane e, no final ia embora. O menininho saia correndo atrás dele gritando "Come back, Shane!"que apenas olhava com tristeza e se mandava. O filme a gente tinha visto na matinê do São Luís e era o predileto de papai. Morríamos de rir da performance deles, um na sala e o outro lá no fundo da casa que não tinha muito espaço, não... Minha família não era católica, então Missa do Galo era acontecimento misterioso e distante. Porém a data, reconhecida como aniversário de Jesus, tinha sentido de confraternização, de universalidade, de paz na Terra, de respeito, de incremento de amizades porque vizinhos e conhecidos que moravam longe, vinham para desejar Feliz Natal e nós íamos às casas dos avós e tios para desejar a mesma coisa. Não havia a preocupação de ganhar objetos, mas a de abraçar, beijar e cumprimentar quem a gente queria bem. Sentados à volta da mesa ou no sofá-cama da sala de visitas, ríamos, brincávamos uns com os outros. Alguém chegava gritando `Ô de casa!`, era bem-vindo, toma aqui um vinho, um pedaço do bolo. Éramos felizes e nosso Natal tranquilo, sem correrias, sem `tenhos-que` ou lamentação de falta de tempo. Éramos muito felizes. Aí chegava a hora de ir para a rua para mostrar os nossos e ver os presentes que os vizinhos tinham ganho. Bonecas de porcelana de olhos azuis piscantes e lindas tranças loiras como as da gente – únicas menininhas loiras de verdade da vizinhança. Caminhões gigantes, cheios de outros carrinhos que andavam sozinhos, bicicletas, bolas de couro, livros pelos quais o ganhador jamais se interessaria. O contraste e a diferença entre o esplendor dos presentes alheios e a simplicidade dos nossos não incomodava, nem causava constrangimento. Éramos felizes. Éramos muito felizes. Estou aqui, sozinha, lembrando dessas coisas. Tenho nas mãos quilométrica lista de nomes de pessoas e seus respectivos presentes ainda não comprados lamentando a certeza de não ter mais tempo hábil para isso. Perdi-me nas opções de presentes para os netos. Não comprei aquelas toneladas de frutas, carnes, castanhas: os amigos viajaram, os filhos também, minha casa vai ficar vazia. Não estou exatamente me sentindo feliz. Estou experimentando dolorosa solidão, sem alguém com quem conversar ou que possa me responder: mudou o Natal ou mudei eu? <b>ASPAS</b> `Felicidade é quando o que você pensa, o que você diz e o que você faz ... estão em harmonia` (Gandhi). <b>CHATICES</b> Você esperou um tempão, quietinho, agora está sendo atendido. Alguém fura a fila, chega mais perto, até pede licença e justifica: `Só um minutinho!`. Não espera resposta, dirige-se ao atendente e pergunta algo do seu exclusivo interesse e que, claro, não tem nada a ver com você. Possibilidade Um: você explode. Todo mundo em volta olha-o como se você fosse um ET. E mal educado, ainda por cima. Possibilidade Dois: você diz `Não, não dou licença`. E corre o risco de ser ignorado porque `Pô! É só um minutinho!`. (Depois me chamam de enguiçada...) <b>OUTRO</b> ... dos cem discos que levarei para a ilha deserta, junto com os cem livros, os cem filmes e as cem pessoas especiais: Renato Teixeira, Pena Branca e Xavantinho - Ao vivo, em Tatuí. A faixa 18, Chuá, Chuá é de doer, de tão linda... <b>PONTO FINAL</b> Nosso trânsito ainda vai fazer muitas vítimas. O perfil do motorista francano pode ser definido somando-se irresponsabilidade, impaciência, intolerância, egoísmo e desrespeito. Entrar ou sair de garagem no centro é exercício de audácia. Estacionar numa vaga qualquer é para surdos: buzinam insistentemente para você sair da frente. Passagem para pedestre é apenas enfeite do chão da rua. E pisca-alerta dos carros, extensão dos enfeites natalinos. <b>Lúcia Helena Maniglia Brigagão</b> <i>Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras</i> luciahelena@comerciodafranca.com.br

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários