Na sarjeta...


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A Secretaria Estadual de Educação passou a distribuir apostilas de todas as disciplinas para os estudantes neste ano. A medida gerou muitas controvérsias. De um lado, alguns alegaram o engessamento das atividades do professor. Outra ala alardeou a desnecessidade do ato, uma vez que a União já oferece livro didático para todas as áreas do ensino fundamental ou médio. As alegações não deixam de ser procedentes. No entanto, o uso de material didático já impresso pode até ajudar na aprendizagem do aluno, mas com uma ressalva: deve ser um meio, nunca um fim educacional, já que o aluno aprende mesmo é no momento em que escreve. Deixar tudo por conta da simples leitura de conteúdo fragmentado pode levar a nada. Recentemente o controvertido material didático do governo virou ocorrência policial. Em Ribeirão Preto, ao lado de escola estadual, encontraram uma caçamba abarrotada de apostilas ainda empacotadas. Com a denúncia, o Estado passou a investigar o motivo de se descartar tanto livreto de diversas disciplinas educativas. Claro está que descartar apostilas dessa forma foi uma atitude das mais condenáveis. Afinal, trata-se do ervanário público, mas, de um jeito ou de outro, isso acabaria por acontecer se levarmos em conta o destinatário final de tais apostilas. Poucos alunos valorizam os materiais escolares enviados `gratuitamente` pelo governo. Quem passou por perto de algumas escolas estaduais nos finais das duas últimas semanas pode notar a enorme quantidade de papéis jogados na calçada ou na rua. Grande parte dos alunos – literalmente – atirou o material didático na sarjeta. Junto com as apostilas destroçadas estavam também restos de cadernos. Com as chuvas, a papelada rasgada virou uma massa compacta de lixo, pronta para entupir bueiros. O pessoal da limpeza pública tem trabalhado dobrado. Durante a selvagem destruição de material didático, muitos transeuntes se indignaram com a situação. Um senhor chegou a comentar que nunca havia ganhado caderno para estudar. Muito menos apostilas. No seu tempo de estudante seu pai comprava tudo. Até merenda. Havia aulas aos sábados. Aluno tomava bomba. Não tinha essa tal de progressão continuada, não. Durante a algazarra destrutiva sobravam ovos e farinha de trigo para todo lado. Um dos projéteis galináceos se espatifou na vitrine de uma papelaria. Uma compradora se lembrou do tempo em que estudou naquela escola próxima. A mulher não se conformava com a bagunça estudantil em plena rua. Disse que até hoje ainda guarda os cadernos passados a limpo, pois os professores exigiam a apresentação de toda matéria no final do ano. Caderno passado a limpo. Letra legível. Respeito para com os professores. Camaradagem entre os próprios estudantes. Medo de reprovação. Interesse para aprender. Tudo isso só existe na lembrança de algumas pessoas. A realidade agora é bem outra. Ainda por cima, permeada de violência sem causa alguma. Antônio Araújo Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br

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