Numa semana nada distante, o pedido para hospedar duas das netas. Os pais viajariam, elas têm atividades, precisavam de alguém disponível para acompanhá-las. Decisão fácil de se tomar. Claro, pode mandar.
Saí para renovar estoque de frutas, danones, sorvetes, refrigerantes, lápis, canetas e papel para desenhar. Na quarta, começou a farra. Leva e traz da escola uma, dá almoço para as duas, leva a outra para a mesma escola. Tem balé de uma, tem presente de aniversário, tem aniversário no bufê, tem lição de casa para fazer. Uma pisa na taturana, leva para o hospital. Uma tem violão, quem fica com a outra? Cadê os livros para devolver? Vó, aluga um filme? Vó! Desesquenta o chuveiro! Não quero lavar a cabeça! Ai, vó! Você já esqueceu como penteia o cabelo de menininha? E vai por aí afora...
Logo que desabei na cama, chamaram para pedir outro copo de leite com bolachas. Em seguida cobraram a leitura (e interpretação) de um livro. Um, não, dois, que o primeiro não agradou. Deitei-me, desmaiei e achei que o despertador estava desajustado porque eu não havia dormido nadinha. Na quinta, tudo igual, mas sobrevivi. Na sexta, a terceira neta cujos pais não viajaram, veio também. Passei a tarde e a noite daquele dia, que dizem ser o da cerveja, literalmente correndo atrás das meninas. No sábado, a mãe das duas veio buscar filhas e tralha. Devolvi a outra, tomei um santo banho, deitei, dormi, acordei no domingo mas só levantei da cama na segunda...
Foi pura diversão. Agora descobriram meu guarda-roupas e transformaram em parque de diversões. Claro que nada serve, mas a blusa de rendas, bordada, vira fácil o vestido longuete de baile delas. O casaco de peles se transforma em fantasia de urso. Lenços de seda são dobrados como só elas sabem fazer e se tornam pareôs e frente-únicas. Botam flores e plumas no cabelo, enrolam colares nos braços e pescoço, pegam bolsas, calçam sapatos de salto e saem arrastando, fazendo barulho pelos corredores da casa. As blusas de lantejoulas (saudades dos anos 80!) em tecido elástico, quem diria, agora são vestidos tomara-que-caia que qualquer cinto - ou tira de fita - ajusta na pequena cintura delas. E, para completar, tem o paraíso das minhas maquiagens.
Coleciono maquiagem desde a primeira viagem à Europa. Sombras de olhos de todas as cores, batons do branco ao negro, blushes, rímel. (É preciso muita feiúra para justificar tanto disfarce.) Não uso mais. Se usasse iria ficar parecendo personagem de Fellini. Guardo tudo e agora as meninas descobriram como fazer arte com os potinhos de pó cintilantes. Ficam quinze minutos quietas lá em cima, posso correr: está tudo fora das gavetas e elas, num inusitado silêncio, mudas diante daquele arco-íris de mentira. Tenho sempre um demaquilante rápido à mão, em caso de chegada súbita dos pais.
Andam reclamando um pouco dos limites impostos para as brincadeiras com minhas coisas. Dizem que na minha casa apareceram regras demais, pois as coisas funcionam na base da permissão e do compromisso para restabelecimento da ordem. Assim: tirou do lugar, guardar como encontrou. Sujou, limpou. Quebrou? Juntar e consertar. Não podem pegar fruta da geladeira e sair comendo, pingando pelos corredores. Abriu? Fechou. Devem vedar todo e qualquer pacote aberto por elas e só comer em frente à televisão em casos extremos, caso contrário almoço e jantar... na mesa! O copo de leite na cama, com bolachas e alguma fruta ainda são permitidos embora os pais desaprovem por causa da escovação dos dentes, sabe como é. Mas como aqui é casa de vó, uma vez ou outra eles que me perdoem... Elas vão entender, qualquer hora que tais regras são necessárias para que possam continuar desfrutando e compartilhando democraticamente meus guardados, e que limites são importantes porque preservam direitos. Que sem regras e limites nós ficamos doentes e - uma consequência direta disso, dentre várias outras - enquanto eleitores, perdemos o discernimento e escolhemos mal nossos representantes.
<b>ASPAS</b>
`Falar de doença mental não deve ser difícil para ninguém (...). Sabemos que o problema não atinge apenas os que já foram identificados como pessoas com algum problema de deficiência, porque a dura realidade é que todos nós temos um pouco de louco dentro de nós. Todos nós. Quem não acreditar é só fazer uma retrospectiva do seu comportamento pessoal nos últimos dez anos`. (Lula, ao assinar o Estatuto do Idoso perante uma delegação de idosos, no dia 1º de outubro de 2003.)
<b>MOLHO</b>
Qualquer marido - ou mulher pode fazer esse molho para salada. Basta saber distinguir mel, de mostarda; ter coragem de perguntar em que armário está o moedor de pimenta e descobrir como usá-lo. Misturar 2 colheres de mel; um pouco de pimenta do reino moída meio graúda; duas colheres de mostarda. Lavar algumas folhas de alface, de rúcula, de radicio, de endívia e quantas mais folhas tiver. Deixar secar, misturar tudo e se lambuzar...
<b>PARABÉNS</b>
A revista de comemoração ao aniversário da cidade, editada e distribuída pelo Comércio, já foi lida, exibida, acariciada por todos os olhos da família e já está dentro da mala de viagem: agora vai para longe – temos que exibir lá fora o que nossa Franca tem. Textos muito bem escritos, diagramação cuidadosa, pauta abrangente, produção esmerada. Merece todos os adjetivos de louvação. Parabéns diretores do jornal, parabéns profissionais envolvidos no projeto. (Impressão minha ou todo o trabalho foi feito ao som do Terra dos meus sonhos?)
<b>PONTO FINAL</b>
`Posso ajudar?` virou refrão de boas-vindas nas lojas substituindo os cumprimentos de praxe. Pena que muito poucos vendedores saibam, de fato, o que significa.
<b>Lúcia Helena Maniglia Brigagão</b>
<i>Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras</i>
luciahelena@comerciodafranca.com.br
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