Firme? Não, novela


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A piadinha é antiga. Serve para comprovar o desempenho linguístico de alguns políticos. Quando alguém fala não tem como negar o que se passa pelo cérebro. O modo de pensar vem à tona naturalmente. Sabedor disso o presidente Floriano Peixoto preferiu se passar por tolo a abrir a boca e acabar com as dúvidas. Mas isso é outra história. A historieta engraçada é mais recente e tem como personagem principal um prefeito recém-eleito. Lá está ele, em seu gabinete, assistindo televisão. Chega o secretário de alguma pasta e o saúda: `E aí, firme doutor?`. Sem se virar, o telespectador responde: `Não, novela`. Em outro desdobramento do acontecido, pode-se até acrescentar a observação do subalterno ao prefeito: `Ainda bem! Porque se fosse filme, o senhor não conseguiria acompanhar a legenda`. Agora, a questão "filme" chegou a outros escalões. E de forma diferente. O cinema nacional passa por grande fase produtiva. Não falta patrocínio. `Nunca antes na história desse País` um presidente ordenou que se filmasse a sua própria vida. Abre-se a era cinematográfica oficial. Antes, apenas o presidente Jânio Quadros chegou perto, mas como espectador. Ele costumava ter sessão diária no Palácio da Alvorada. Sozinho (dizem que acompanhado de um litrão!), toda tarde assistia a um bangue-bangue. Só que legendado. Não havia dublagem e nem precisava. Jânio Quadros era um craque da língua. Gostava de ênclises e mesóclises. Assim que renunciou à Presidência, por meio de um simples bilhete, um repórter perguntou-lhe o porquê da atitude. O então presidente apenas disse: `Fi-lo porque qui-lo`. Só faltou dizer que fez o que quis e que ninguém tinha nada com aquilo. Naquele tempo, o presidente tinha sessão de cinema exclusiva. Atualmente, o foco mudou de direção. O presidente da República tem filme exclusivo e quer que todo brasileiro assista a `Lula, o Filho do Brasil`. Vai ser difícil conseguir tal façanha. Mesmo com os sindicatos patrocinando os ingressos. A grande massa frequentadora de cinemas nos dias de hoje gosta de filmes de vampiro. A moçadinha está mais interessada em magia. Não tem fissura nenhuma por melodrama. Ainda mais com ingredientes apelativos para o sofrimento. Isso não faz a cabeça dos espectadores atuais. Os produtores erraram o nicho. A veiculação ideal para o filme que mostra a vida de Lula seria pela televisão mas no formato de novela das 8 horas daquela emissora do eterno horário de verão. Não importa a época, a atração das 8 horas sempre começa às 9 horas da noite. Já imaginou a vida do presidente sendo apresentada em 300 capítulos dia após dia? Até outubro de 2010, sua aceitação popular chegaria a 200%. Lógico, contando com a audiência de Portugal! A eleição seria cancelada e surgiria o rei Lula I. Nessa fase, o detentor do cargo público se deixa mostrar por inteiro já que não tem preocupação próxima. Nunca antes neste País alguém poderia supor que o principal cargo da República estaria um dia nas mãos de um grande comunicador verbal. Sim, porque comunicação escrita, principalmente de jornal, provoca-lhe azia. Antônio Araújo Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br

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