‘2010 será o ano do trabalhador ’


| Tempo de leitura: 11 min
<b>AGORA NO COMANDO</b> -  Depois de 23 anos, Sebastião Ronaldo assume a presidência do Sindicato dos Sapateiros de Franca. Para o futuro, promete continuar lutando por mais emprego
<b>AGORA NO COMANDO</b> - Depois de 23 anos, Sebastião Ronaldo assume a presidência do Sindicato dos Sapateiros de Franca. Para o futuro, promete continuar lutando por mais emprego
<p style="text-align: justify; ">O Sindicato dos Sapateiros de Franca empossou no último dia 24 de outubro seu novo presidente: Sebastião Ronaldo de Oliveira, 46. O sindicalista - e diretor da entidade há 12 anos - substitui Paulo Afonso Ribeiro que passa a ser diretor após quase uma década na presidência. O próprio Ronaldo admite que a troca não muda quase nada na história da política sindical de Franca. Ao falar em trabalho, o sindicalista adota um discurso de continuidade, mas ainda não definiu quais serão seus planos à frente da entidade. A única tarefa certa é a pauta para a campanha salarial do ano que vem. “Queremos a pauta pronta em dezembro para começar a negociar com os empresários nos primeiros dias de janeiro. 2010 será o ano do trabalhador”. Entre os desafios que terá pela frente, o novo presidente disputará o direito de representar a categoria em Franca e na região. Em um dos processos, iniciado em 1995, seu concorrente Fábio Cândido vem obtendo decisões favoráveis em todas as instâncias judiciais. A mais recente, no último dia 5, a Justiça determinou o desbloqueio da Carta Sindical para o novo sindicato, se conseguir, ele assumirá as negociações da categoria. O atual representante dos sapa-teiros recorreu da decisão e aguarda o resultado. Um segundo processo que busca a representação da categoria na região foi instituído por um grupo de trabalhadores em setembro.</p> <p><div style="text-align: justify; "><br /></div><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); ">Otimista, Sebastião Ronaldo acredita que bons tempos virão para o calçado. “A indústria calçadista enfrentou dificuldades nos últimos anos, mas acredito que muitos problemas já foram resolvidos, o que dá condições para o trabalhador ter um ganho melhor, dá para fazer uma campanha salarial melhor. É a recuperação de um pouco daquilo que perdemos”. Nascido no Estado de Goiás, o sapateiro morou em Minas até o início da adolescência, quando se mudou para Franca. Começou a trabalhar muito novo, acompanhando o pai na lida com o gado na fazenda onde moravam. Sua carteira de trabalho só recebeu o primeiro registro algum tempo depois, quando Ronaldo completou 14 anos. “Comecei a trabalhar como plancheador na extinta Calçados Terra, onde fiquei por três anos e meio”.</span></div></p> <p><div style="text-align: justify; "><br /></div><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); ">Conheceu o movimento sindical através de “companheiros” que faziam parte da Pastoral Operária. Entrou no sindicato em 1986 e pouco tempo depois passou a fazer parte da diretoria. De lá até a presidência da entidade, foram 23 anos de militância. Ronaldo se afastou do chão da fábrica em 97, enquanto trabalhava na Samello, empresa à qual está ligado até hoje - e passou a participar diretamente da administração do sindicato. “Foi uma coisa de sangue. Desde que eu era pequeno, parece que eu já tinha um pouco dessa ‘revolta do salário’. Na época, eu morava em Minas e trabalhávamos na roça. Era um salário muito baixo. As pessoas (patrões) se aproveitavam muito da gente e eu nunca fui de aceitar esta questão”, disse.</span></div></p> <p><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); "><strong>Comércio da Franca - Como você passou a fazer parte do Sindicato dos Sapateiros de Franca?</strong></span></div><strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); font-weight: normal; "><strong>Sebastião Ronaldo de Oliveira -</strong> Acho que é uma coisa do sangue. Desde que eu era pequeno, parece que eu já tinha um pouco dessa “revolta do salário”. Na época, eu e minha família morávamos em Minas e trabalhávamos na roça. Era um salário muito baixo. As pessoas (patrões) se aproveitavam muito da gente e eu nunca fui de aceitar esta questão. Então, mudei para Franca e entrei no setor calçadista. Conhecia algumas pessoas que faziam parte da Pastoral Operária, que era um grupo formado principalmente por jovens e ligado à Igreja Católica entre 1978 e 1983. Nos reuníamos para discutir questões relacionadas aos trabalhadores, geralmente na Paróquia São Benedito. Depois, fui apresentado a pessoas que faziam parte do sindicato. Aí, conversando, acabaram me convencendo a entrar na diretoria do Sindicato, onde estou até hoje. </span></div></strong></p> <p><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); "><strong>Comércio - Seu antecessor, Paulo Afonso Ribeiro, foi, por nove anos, presidente do sindicato e é dele hoje a “cara” da entidade. Ele continuará na diretoria e há quem diga que comandará dos bastidores. Isto não te incomoda?</strong></span></div><strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); font-weight: normal; "><strong>Ronaldo -</strong> Na verdade, as pessoas acham que quem comanda o sindicato é o presidente, mas nós temos uma forma de trabalhar na qual o comando pertence a uma coordenação. Ela é quem realmente administra o sindicato. Cabe ao presidente responder pela entidade, mas, na verdade, não é ele quem o comanda.</span></div></strong></p> <p><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); "><strong>Comércio - Você passou a ser diretor em 1986. São, portanto, 23 anos de dedicação. Você nunca pensou em ser presidente antes?</strong></span></div><strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); font-weight: normal; "><strong>Ronaldo -</strong> Todo este tempo as pessoas que trabalham ou trabalharam comigo na diretoria, de mandato em mandato, vez por outra, me perguntavam por que eu não era o presidente, mas eu nunca fiz questão, porque fazer parte da diretoria para mim estava bom. O problema não é ser presidente, é o trabalho que a gente vem construindo. Em todos esses anos na diretoria, nunca fiquei de fora das negociações salariais. Sempre estive ali, na mesa, discutindo diretamente com os patrões e participei de quase todas as coordenações. No sindicato, há apenas duas secretarias das quais ainda não fiz parte, da Saúde e da Imprensa. Mas das outras participei de todas.</span></div></strong></p> <p><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); "><strong>Comércio - Agora, com sua eleição, o trabalho terá sequência? O que deve ser feito nos próximos três anos?</strong></span></div><strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); font-weight: normal; "><strong>Ronaldo -</strong> Por enquanto, não existe nenhum projeto específico. O que penso não posso falar ainda, não sei se será possível realizar. Quando eu vejo que uma coisa será difícil de ser realizada ou não sei se vou conseguir, prefiro só falar sobre isso na hora que começarmos a fazer.</span></div></strong></p> <p><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); "><strong>Comércio - Então o  que o trabalhador pode esperar?</strong></span></div><strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); font-weight: normal; "><strong>Ronaldo -</strong> Continuaremos defendendo o trabalhador, o emprego, a manutenção dos direitos dos trabalhadores, a condição melhor no local de trabalho, a ampliação dos direitos de trabalhadores, o combate ao assédio moral e ao racismo que ainda acontece muito dentro das empresas. E mais especificamente neste fim de ano, estamos trabalhando no combate às horas extras que temos encontrado demais. </span></div></strong></p> <p><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); "><strong>Comercio - Há planos para melhorar as instalações do clube dos sapateiros? Afinal são mais de sete mil filiados em Franca...</strong></span></div><strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); font-weight: normal; "><strong>Ronaldo -</strong> Acho que sim. E não só o clube. Há muitas coisas que merecem ser mudadas e estamos discutindo as alterações. Acabamos de fazer a reforma da sede e agora temos um projeto de dar uma reformada em nosso clube.</span></div></strong></p> <p><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); "><strong>Comércio - Um dos principais desafios a ser enfrentado nos próximos anos é um velho conhecido: a disputa pela representação da categoria com o sindicato comandado por Fábio Cândido. Como você planeja resolver a situação? </strong></span></div><strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); font-weight: normal; "><strong>Ronaldo -</strong> A gente já vem enfrentando isso há 15 anos e precisa continuar fazendo o trabalho com a confiança que a categoria tem prestado nessa direção. Fico tranquilo de sempre estar cumprindo nosso papel e tenho certeza de que, se depender da categoria, jamais ela irá optar por outro sindicato.</span></div></strong></p> <p><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); "><strong>Comércio - Mas, se esta outra entidade conseguir representar a categoria em Franca, vocês não vão receber a contribuição sindical. Como ficará?</strong></span></div><strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); font-weight: normal; "><strong>Ronaldo -</strong> A princípio, esta questão é um pouco obscura, ainda sem definição. É uma questão que teremos que esperar acontecer. Veremos quem é que vai representar quem. Por enquanto, juridicamente, a situação é a mesma.</span></div></strong></p> <p><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); "><strong>Comércio - Todos os anos, o setor calçadista francano contrata e demite milhares de trabalhadores. Esses acertos periódicos não prejudicam a categoria?</strong></span></div><strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); font-weight: normal; "><strong>Ronaldo -</strong> O acerto no fim do ano é uma faca de dois gumes. De um lado, os trabalhadores têm a tranquilidade de saber que, se uma empresa fechar, eles têm pouco tempo para acertar. Por outro lado, quando eles voltam a trabalhar, ficam inseguros porque sabem que, quando uma empresa vai demitir, ela tende a segurar os mais antigos, com mais tempo de casa e que têm muito para receber. E aqueles que foram contratados recentemente correm mais risco de perder o emprego.</span></div></strong></p> <p><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); "><strong>Comércio - Nos últimos anos, Franca assistiu ao fim das grandes empresas do setor calçadista como a Sândalo, a Samello e a HB. Elas passaram por uma grande reestruturação, reduziram e terceirizaram boa parte da produção. Como o sindicato avalia esse processo?</strong></span></div><strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); font-weight: normal; "><strong>Ronaldo -</strong> Acredito que isso mude pouca coisa para o trabalhador. Isso porque a produção dessas empresas foi pulverizada ou substituída por outras, mas o trabalho ainda existe. Enquanto organização sindical, no entanto, isso dificulta um pouco as coisas porque, em vez deles estarem concentrados em uma grande empresa, eles estão espalhados em fábricas pequenas dentro da cidade nem sempre legalizadas.</span></div></strong></p> <p><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); "><strong>Comércio - Isso explicaria em parte o esvaziamento que vimos nas últimas assembléias?</strong></span></div><strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); font-weight: normal; "><strong>Ronaldo -</strong> Isso é uma coisa que tem sido natural no movimento sindical de modo geral. É uma dificuldade que não só o Sindicato dos Sapateiros que está passando, mas todos que atuam e fazem o mesmo trabalho que a gente. Até o Sindicato dos Metalúrgicos, no ABC, que fazia aquelas grandes greves, hoje você pode observar que não faz mais.</span></div></strong></p> <p><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); "><strong>Comércio - Este ano, os empresários francanos mostraram muita preocupação com a crise econômica mundial e seus reflexos para a indústria calçadista. Como a crise chegou até vocês?</strong></span></div><strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); font-weight: normal; "><strong>Ronaldo -</strong> Desde o início da campanha salarial, fizemos uma discussão, tanto na categoria quanto na imprensa, porque a crise mundial parecia que faria o setor de calçado parar em Franca. No entanto, nós tínhamos uma avaliação que isto poderia prejudicar as indústrias, mas que não iria ser grande como se imaginava. Então, tivemos, sim, durante um período, uma crise, porém vamos chegar ao fim do ano com a mesma estimativa dos outros anos quanto ao número de trabalhadores empregados.</span></div></strong></p> <p><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); "><strong>Comércio - Vocês não sentiram no sindicato a redução de trabalhadores ou um aumento no número de acordos feitos?</strong></span></div><strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); font-weight: normal; "><strong>Ronaldo -</strong> Vimos que houve bastante demissão no começo do ano até o mês de junho. O sindicato estava cheio de trabalhadores e rescisões. Hoje, no entanto, você chega aqui e o local está vazio. Isso mostra que o emprego está melhorando e 2010 será o ano do trabalhador.</span></div></strong></p> <p><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); "><strong>Comercio - O que você quer dizer com “ano do trabalhador”?</strong></span></div><strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); font-weight: normal; "><strong>Ronaldo -</strong> Acredito que, por causa dos problemas que já resolvemos, teremos condições de ter um ganho melhor. Dá para fazer uma campanha salarial melhor e recuperar um pouco daquilo que perdemos.</span></div></strong></p> <p><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); "><strong>Comércio - E que problemas você acredita que tenham sido resolvidos?</strong></span></div><strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); font-weight: normal; "><strong>Ronaldo -</strong> Todas as vezes que íamos negociar, os empresários só falavam no dólar. Parecia até que estávamos nos Estados Unidos. O dólar estava alto. E hoje o dólar não está tão alto mais. Tanto é que não vemos ninguém mais falar em dólar. Então, para mim, é uma questão já solucionada. Outra grande reclamação era o sapato chinês que entrava no Brasil a preço de banana e neste sentido parece que também está tendo uma solução... (no início de setembro deste ano, o governo federal aprovou a criação de barreiras para controlar a entrada de calçados chineses no Brasil).</span></div></strong></p> <p><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); "><strong>Comércio - Então as perspectivas para o futuro da categoria e do movimento sindical em Franca são boas...</strong></span></div><strong><div style="text-align: justify; "><span class="Apple-style-span" style="background-color: rgb(255, 255, 255); font-weight: normal; "><strong>Ronaldo -</strong> Eu acredito que, com a melhora da economia, tudo vai mudar. Haverá um aumento no número de empregos e o trabalhador terá menos medo de ficar desempregado. Isso fará aumentar, inclusive, a participação no sindicato. Porque o que move a questão sindical hoje é a questão do emprego. A partir do momento que o trabalhador diz “Hoje estou perdendo o emprego, mas amanhã eu posso bater na porta de outra empresa que eu sei que ela vai me contratar”, o medo de ficar desempregado acaba e a mobilização aumenta. É automático. As perspectivas para o futuro são muito boas, sim.</span></div></strong></p>

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários