Acompanhei, através deste Comércio, as notícias a respeito da proibição de grito nas feiras municipais, decretada pelo alcaide local e, confesso, fiquei meio estupefato com a extraordinária atenção com que a administração municipal cuidou dessa ‘fabulosa’ demonstração de poluição sonora.
A feira é uma manifestação popular registrada na nossa história. A palavra ‘feira’ vem do latim e significa ‘dia da festa’, o dia em que os mercadores vendiam mercadorias em lugar público. É, assim dizendo, um dia de festa e é por isso que – felizmente –, ainda pode-se ver essa tradição portuguesa no Brasil e em Portugal: segunda-feira nesse bairro, terça-feira naquele e assim por diante. Portanto, se é ‘dia da festa’, nada mais natural do que ouvir ‘gritos’.
O pretendido, no comentário acima, é considerar que o ‘grito’ é tradição da nossa cultura portuguesa reforçada pelas influências árabe (grandes mercadores) e italiana (fala exaltada). Aliás, a tradição do ‘grito’ é tão forte no Brasil que está presente, de diversas maneiras, no nosso dia-a-dia. Podemos, historicamente, dizer que ele começou em 10 de novembro de 1710, quando o vereador do Senado da Câmara de Olinda (PE), Bernardo Vieira de Melo propôs a Independência do Brasil. Esse ato ficou conhecido como o ‘Primeiro Grito de Independência’. O engraçado é que, logo depois, nossa independência de Portugal foi selada através de outro grito, o ‘Grito do Ipiranga’. Imaginem se o alcaide de São Paulo, na época, tivesse decretado a proibição de grito? Ainda seríamos colônia de Portugal?
Bem que o atual prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, tentou. Em abril de 2007 baixou um decreto proibindo o grito nas feiras paulistanas e, três meses depois, voltou atrás alegando que tudo não havia passado de ‘um erro de interpretação por causa de uma vírgula mal colocada no decreto’. A verdade é que a desaprovação popular foi total.
O ‘Grito’ é tradição brasileira e, também, mundial. Pode-se observar isso nos nomes de jornais, revistas, periódicos, panfletos, manifestos e outros. É normal as manifestações políticas e classistas levarem o ‘Grito’ como palavra de ordem. Ainda tenho um e-mail que recebi, convocando para uma manifestação, intitulada ‘Dia do Grito’, que ocorreu em frente à Câmara Legislativa do Distrito Federal, no último dia 29 de setembro.
Assim é o ‘grito’: o torcedor ‘grita’ no campo de futebol, o sambista solta o ‘grito’ no Carnaval, o movimento ‘Grito dos Excluídos’ agita o País, o Hélio Oiticica dizia que a Tropicália (movimento cultural brasileiro) era ‘o grito do Brasil para o Mundo’, O Grito, do norueguês Edvard Munch, é uma das pinturas mais famosas do mundo; o povo brasileiro ‘gritou’ o Diretas-Já e reconquistou a democracia, o Tarzan do Johnny Weissmüller encantou gerações com o seu ‘grito’ e, finalmente, se até o alcaide chuta o cone, por que o feirante não pode ‘gritar’?
Se a intenção do alcaide é o combate à ‘poluição sonora’, por que não se coíbe o som alto nos carros que, realmente, agride nossos ouvidos e o convívio coletivo?
Cassiano Pimentel
Agente de exportação e professor universitário
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