Somente através da literatura torna-se possível uma transformação física ou psicológica abrupta, da noite para o dia. Na natureza, toda mudança tem seu tempo apropriado. Segue um ritual perfeito. Para uma larva chegar ao estado de borboleta demanda um período exato de maturação.
Se alguém encontrar um casulo com um trêmulo inseto tentando sair dele, deixe-o bem quieto em seu lugar natural. Qualquer tentativa para apressar o surgimento de uma borboleta será de valor totalmente nulo. De nada adianta assoprar o invólucro ou colocá-lo sob o sol. A crisálida que sair da larva antes do tempo certo dura muito pouco.
Franz Kafka (1883-1924) usou de toda alegoria possível no início de seu livro A Metamorfose: ‘Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso...’. Daí para frente, a vida dele se transforma por inteiro. Sua família tem dificuldades para conviver com a repentina modificação física.
Para azar do personagem Gregor, sua mente permanece intacta. Apenas o corpo sofreu a metamorfose. Ele consegue acompanhar a repugnância gradativa da irmã, do pai e finalmente da mãe em relação à sua nova aparência. Sente a rejeição da própria família e dos estranhos. A metáfora da escravidão do homem ao meio social se faz patente durante a leitura.
Claro está que Kafka inverteu a situação fictícia. Na realidade ninguém sofre metamorfose repentina. Ela ocorre de forma bem lenta. As modificações físicas ou psicológicas de uma pessoa acontecem vagarosamente. Para quem tem predisposição pode até começar com um pequeno gole de bebida. Às vezes, até no próprio lar. A partir disso, é uma questão de tempo para se chegar ao alcoolismo incontrolável.
Não pense que este incômodo andarilho ou morador de rua começou a beber ou a se drogar ontem. O estado em que se encontra hoje teve um longo percurso. Creia, foi uma lenta metamorfose. De início, a família até tentou ajudar. Lutou muito. Sempre à sua maneira! Porque dificilmente alguém se coloca no lugar de um viciado. Com o intuito de salvar, quer tão somente reprimir o consumo seja lá de que substância for.
Depois vem um tempo de tentar esconder o metamorfoseado. Até que, sem ter mais como conter a dependência, a própria família baixa a guarda. Vez por outra, faz o dependente ganhar as ruas.
Triste, muito triste, ver essa legião de infelizes. Todo cidade tem hoje esse contingente que vive nas proximidades de rodoviárias ou de igrejas. Qualquer construção ou casa abandonada serve também de abrigo. Sobrou espaço, os andarilhos ou moradores de rua tomam conta. A praça é o lugar predileto.
Em toda parte a característica de vida não muda. Jornais ou caixas de papelão servem de cama. Sujas e molambentas mantas são enroladas nos esquálidos corpos, mesmo fazendo calor. Banho, só se for de chuva. Alimentação é o de menos. Mas sempre há por perto um corote de pinga, pela metade ou vazio. E, pior ainda, indícios de pedras de crack.
Antônio Araújo
Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.