Ela tem apenas oito anos. Brinca de escolinha e salão de beleza. Também adora cantar e dançar, principalmente músicas religiosas. Na tarde de quinta-feira, estava de tranças no cabelo, blusa azul, short roxo e chinelos. Sentada na sala de sofás vermelhos, com uma imagem de Nossa Senhora numa mesa de canto, Suélen de Fátima Bráulio em nenhum momento chorou ou deu indícios de que iria chorar, mesmo tendo muitos motivos. Apesar da pouca idade, ela passou por situações difíceis. A pequena garota escapou de três graves acidentes de trânsito. Em todos, correu o risco real de morrer.
O mais recente, no último dia 31 de outubro, foi o atropelamento causado por um universitário de Piracicaba que matou quatro pessoas na Rodovia Cândido Portinari. Uma quinta continua internada no Centro de Terapia Intensiva da Santa Casa (veja matéria nesta página). Entre as vítimas estavam seus avós maternos, Maria Diva e José Eurípedes de Souza. Eles morreram no local. Suélen estava ao lado dos avós e, em poucos segundos, foi empurrada pela avó e não teve sequer um arranhão.
O primeiro acidente na vida da menina ocorreu em fevereiro de 2007. Ela brincava com um primo da mesma idade na calçada da casa da avó paterna, no City Petrópolis, quando o menino foi atropelado por um ônibus. Wescley José da Silva Bráulio, 5, morreu na hora. Suélen nada sofreu. “A gente estava brincando de terra e eu falei para ele ir pegar mais. Ele me chamou para ir junto, mas não quis”. Ao atravessar a rua, Wescley não viu o coletivo. “Quando eu vi, ele estava debaixo do ônibus e um monte de gente começou a descer”, disse a menina.
<b>Ouça abaixo o depoimento de Suélen:</b>
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No segundo, que aconteceu três meses depois, ela caminhava com familiares rumo a uma casa de sopa quando soltou da mão da irmã mais velha. Ao correr, foi atropelada por uma moto. A motocicleta atingiu sua perna e ela caiu. Suélen ficou internada uma semana, passou por cirurgia e usou pino durante três meses.
Das três ocorrências em que se envolveu, ficou somente a cicatriz na perna direita. A marca (sete furos contados por ela) não a agrada. Segundo a mãe, a sapateira Jaquelina Cristina de Souza, 33, o motivo é a vaidade da filha. “Ela não gosta de mostrar e pergunta se não vai sumir”.
Muitas perguntas ela também tem feito em relação a ida ao terço, que costumeiramente fazia com a avó materna às segundas-feiras. De família católica, a menina ainda acompanhava a avó às missas e viagens para o Santuário de Aparecida. “A minha mãe era muito religiosa e passava essa devoção para a Suélen. Ela reza todas as noites”, disse a mãe.
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Suélen diz que quer continuar frequentando a igreja, mas sempre de mãos dadas com alguém da família. “Tenho medo de andar na rua, só ando perto do muro”. Perguntada de qual veículo tem mais medo (entre ônibus, moto e carro), a pequena para, pensa e encabulada responde. “Carro”.
Ao cantar e mostrar um CD que ganhou da mãe com a música Faz um milagre em mim, do cantor evangélico Regis Danese, a menina chama a atenção ao fazer um gesto em direção ao céu como se pedisse a concretização do título da canção. Para a família, Suélen só se salvou dos três acidentes graças à proteção divina.
<b>Ouça a menina cantando trechos de "Faz um Milagre em Mim":</b>
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