No mercado editorial nacional, contemplando os variados segmentos que a literatura engloba, a mais importante concessão de título é a do Prêmio Jabuti.
O segundo lugar na categoria “tradução de obra do francês” do Jabuti deste ano foi para a francana Flávia Nascimento, pela narrativa Topografia ideal para uma agressão caracterizada, do escritor argelino de expressão francesa Rachid Boudjedra , publicada pela editora Estação Liberdade. Anteriormente, a tradução que Flávia fez de Alá e as crianças-soldados, de Ahmadou Kourouma, também havia sido classificada como finalista do Jabuti (essa tradução ganhou o prêmio “Maison de France/FNAC”, em 2005).
Para Flávia Nascimento, que tem quase toda a sua família em Franca, mas viveu por muitos anos na França (Paris e Rennes, na Bretanha) e acaba de voltar para o Brasil, a láurea veio como um reconhecimento por seu trabalho. Considerando a quantidade de traduções de autores importantes (veja abaixo) que traz no currículo, a premiação é mais do que merecida e vem impulsionar uma carreira já consolidada.
“Essa é a primeira tradução de uma obra de Rachid Boudjedra em língua portuguesa. Nesse texto, ele narra as desventuras de um herói anônimo, um imigrante argelino pelos corredores do metropolitano parisiense, labirinto urbano subterrâneo em que ele se perde por algumas horas e do qual não sairá vivo. A intriga é minimalista, como se vê, mas seu poder de impacto sobre o leitor é desconcertante, graças à sofisticada arte do narrador de Boudjedra. O tema do imigrante pobre em busca de melhores condições de vida, do imigrante vitimado pelo ódio racista, é universal e já originou obras em línguas diversas. Creio que ele encontra um eco longínquo, por exemplo, tanto em certos versos de João Cabral de Melo Neto quanto na letra da canção ‘Construção’, de Chico Buarque. Escrevi para minha tradução de Boudjedra um posfácio que intitulei precisamente ‘Morte e vida magrebina’, lembrando-me dos terríveis versos de João Cabral em ‘Morte e vida severina’”.
Professora de Teoria literária da UNESP, mestre pelo Departamento de Teoria da Literatura da UNICAMP, doutora em Literatura Francesa pela Universidade de Paris X Nanterre, Flávia diz ter no mundo das letras o centro de sua vida profissional. “Mas para mim, a literatura também é muito importante do ponto de vista pessoal. É comum as pessoas se perguntarem para que serve a literatura. Eu tenho certeza de que ela serve para coisas essenciais: por exemplo, ela nos torna mais humanos, ao nos aproximar de tempos, de homens e de sociedades que não conhecemos, sendo, portanto um elo entre gerações separadas por séculos ou entre homens e mulheres separados por grandes distâncias geográficas e culturais. A literatura também nos revela nossa condição trágica... e nos enriquece como nenhuma outra arte pode fazê-lo, graças à densidade e à incrível diversidade dos saberes que nos transmite”, explica ela.
Um tradutor, além de ponte para uma transposição idiomática, também traduz peculiaridades culturais, semânticas, sintáticas, lingüísticas. Nesse sentido, não será o tradutor também autor? “Eu acho que é, sim, sobretudo em se tratando de tradução de textos literários. A natureza autoral do trabalho do tradutor não está obviamente acima do trabalho de autoria do original, mas para traduzir um texto literário, de certo modo é preciso reescrevê-lo. Por trás da reescrita existe um autor, um autor segundo, sem dúvida, porém ainda assim autor.Vejo a tradução como uma tarefa necessária, uma atividade também rica de ensinamentos para os que se dedicam a ela; um ofício penoso, é verdade, porque exige ascese (traduzir significa passar horas, dias e dias diante do computador, em companhia de dicionários e outros livros). Um ofício, no entanto, muito prazenteiro; afinal, traduzir dá ensejo a compartilhar com outros de uma experiência de leitura na qual o tradutor tem um papel central: ele é um mediador”, reflete a tradutora, que concedeu ao jornal Comércio a seguinte entrevista:
<b>Comércio</b> - Fale sobre as traduções importantes que tem no currículo, como as de obras do marfinense Ahmadou Kourouma e do egípcio Albert Cossery.
<b>Flávia Nascimento</b> - A tradução do livro de Kourouma foi muito prazenteira, gostei muito de fazer. Esse romance narra as desventuras de um child-soldier numa África entregue aos conflitos étnicos. A narração das andanças do jovem herói Birahima é acompanhada por uma reflexão sobre a linguagem e sobre a língua: Kourouma, um marfinense, escreve seu romance em francês, ou seja: na língua do ex-colonizador, a língua do Outro, portanto. O romance também é muito original pelo fato de se constituir como uma espécie de aventura picaresca, porém às avessas: a aventura das andanças do herói transforma-se, aqui, em desventura da criança-soldado. Albert Cossery é um copta (egípcio cristão), autor pouco conhecido, mestre contista, também gostei muito de traduzi-lo.
<b>Comércio</b> - Na extremidade oposta, você verteu para o francês as Cartas (Lettres) de Ignácio Loyola Brandão. Como foi a experiência? Quais outras obras você citaria como tradutora?
<b>Flávia</b>- Já a experiência de traduzir para o francês as Cartas de Loyola Brandão foi diferente: mais difícil, é claro, pois o francês não é minha língua materna. Por outro lado, o prazer estava justamente na dificuldade, que me deu ocasião de ser mais criativa na busca de soluções para traduzir expressões coloquiais, palavrões, etc. Traduzi diversos outros livros, também no campo das Humanidades (história, filosofia). Um trabalho de natureza algo diversa, muito interessante, que sempre ensina muito.
<b>Comércio</b> - Para Paulo Rónai, ‘a tradução é o mundo das minúcias’ e sugere uma ‘prática de decifração progressiva dessas minúcias’. Décio Pignatari se refere a ‘metalinguagem e transliteração’ e, ainda, a ‘uma aproximação gradativa a uma mensagem desconhecida, a partir dos dados de um código conhecido’. Para Jean Allouch: ‘traduzir é escrever regulando o escrito pelo sentido”. E para você, o que é a tradução? Como contornar ou subverter a noção daquilo que será sempre “estrangeiro”, quaisquer que sejam as pontes?
<b>Flávia</b> -Todos os que você citou têm razão, e não sou eu quem haverá de contradizê-los. O caso da citação de Décio Pignatari é um pouco particular, pois ele trata mais exatamente da tradução de poesia, que traz problemas de natureza muito peculiar e aguda. Mas que seja um mundo de minúcias, sim, sem dúvida, em todos os casos sempre é. Um tradutor precisa de muita paciência para procurar o que não conhece e para encontrar a informação buscada. Em certos casos, sobretudo na tradução de poesia, o tradutor pode saber do que se trata sem que consiga dizer “a coisa” na língua de chegada (aquela para a qual traduz). Nesse caso, a perseverança também é necessária para chegar, muitas vezes pela insistência, pelo ensaio, à criação de uma solução que convença (e que convença o próprio tradutor, antes de mais nada). Contornar completamente aquilo que é estrangeiro a uma língua, a uma cultura, pode ser, em alguns casos, impossível. Nesse sentido, o tradutor também precisa saber conviver, em muitos momentos, com certa dose de frustração. Mas a frustração é amplamente compensada pelos achados prazenteiros que realiza nos exercícios de tradução.
<b>Comércio</b> - Fale de sua produção autoral, que aparece em revistas eletrônicas como Escritoras Suicidas, Germina Literatura etc. Você publicou em livro sua própria literatura?
<b>Flávia</b> -Publiquei alguns poemas e prosas curtas nas revistas que você mencionou, e também na Cronópios (eletrônica, igualmente), além de alguns poemas na revista Inimigo Rumor (em suporte papel), da Editora 7 Letras, do Rio. Tenho um livro de poemas “quase” pronto e aceito por uma editora, mas decidi esperar um pouco para publicá-lo, pois tenho a intenção de incluir nesse volume alguns poemas que ainda devo terminar. Esse é um dos projetos que desejo levar a cabo assim que possível. Mas o trabalho de escrita literária demanda tempo... não se pode ter pressa.
<b>Para saber mais sobre o prêmio, acesse: <a target="_blank" href="http://www.cbl.org.br/jabuti/">http://www.cbl.org.br/jabuti</a></b>
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