A Santa Casa de Igarapava está insolvente e à beira de fechar suas portas. Pelo menos é isso o que afirma seu atual diretor, Carlos Thirone. Em uma entrevista concedida no início de outubro, no consultório de seu antecessor, Aloísio Antônio Maciel Filho, Thirone disse que a instituição não consegue arcar nem com a metade das despesas que tem por mês. A dívida acumulada passaria de R$ 2 milhões. Sem recursos, o hospital já registra a falta medicamentos.
A crise financeira teria sido provocada pela prefeitura do município e pela Fundação Sinhá Junqueira, estabelecida na cidade, que não estariam repassando recursos suficientes para o funcionamento do hospital.
Aloísio Antônio deixou a Santa Casa no início de outubro. Pressionado pela situação que classifica de caótica, pediu demissão. Carlos Thirone o substituiu. Segundo ambos, no dia 3 de fevereiro desse ano, a dívida do hospital com fornecedores (alimentos e medicação), atrasos no pagamento de funcionários, no recolhimento de FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço), INSS, Imposto de Renda, além de contas de luz e água não pagas, era de R$ 1,42 milhão. De lá para cá, teria subido mais R$ 800 mil. O gasto mensal da entidade bate na casa dos R$ 450 mil, sendo que a receita não passa de R$ 190 mil.
Numa tentativa de contornar a situação, 48 funcionários foram demitidos, a maioria formada por técnicos de enfermagem. A medida, segundo os médicos, além de não aliviar o problema financeiro, criou outro, já que com a falta de técnicos, o atendimento teria ficado deficitário.
Com uma média diária de mais de 300 atendimentos, o pronto-socorro da Santa Casa é um fator central na disputa por mais recursos municipais. A entidade é responsável pelo setor, mas para Aloísio Maciel Filho, quem deveria cuidar dele é a prefeitura local. “Entendo que se o município não tem um PS próprio, é a administração que deve assumi-lo”, ponderou ele, dizendo que a falta de médicos no centro de saúde para atendimento ambulatorial está empurrando a população para a Santa Casa, o que só faz aumentar o seu déficit. “Você atende urgência, emergência, consultas eletivas, tudo. Depois a conta é nossa”.
Os problemas ainda se estendem à folha de pagamento do corpo clínico. Os salários dos médicos estariam atrasados há mais de quatro meses e o contrato do único anestesista, que não estaria sendo pago, terminaria no último dia 30. A reportagem do Comércio tentou, durante todo o dia de ontem, confirmar se o pagamento dos médicos foi feito. Várias ligações foram feitas para a Santa Casa e até mesmo para o Sindicato dos Médicos de Franca, que responde por Igarapava, mas ninguém confirmou se os salários foram liberados.
Ao criticar a Fundação Sinhá Junqueira, o ex-diretor disse que sempre esperou maior contribuição da instituição, já que grande parte dos trabalhadores da Usina Junqueira é atendida na Santa Casa. “Os R$ 18 mil que eles repassam são insignificantes. A sede da fundação é aqui e o estatuto deles é claro quando diz que parte de seus fundos deve ser investida na Santa Casa de Igarapava”.
Sobre a prefeitura, Maciel Filho disse que o prefeito Francisco Molina, que também é médico, deveria rever as prioridades de sua administração. “É decepcionante ver a postura do prefeito. De um médico, quando assume a prefeitura, é esperado que vá investir na saúde. Era preciso rever o que é prioritário. Se for preciso deixar de asfaltar, deixar de construir, para atender a saúde e a educação”.
A Prefeitura de Igarapava repassa mensalmente perto de R$ 53 mil à Santa Casa. Uma suplementação mensal de verbas autorizada pela câmara, no valor de R$ 44 mil, que deveria ter sido paga nos últimos quatro meses, ainda não foi repassada. “Estamos em uma situação muito difícil. Na realidade, a Santa Casa de Igarapava já deveria ter sido fechada”, disse Aloísio Maciel Filho.
O novo diretor, Carlos Thirone, disse que não tem muito o que fazer. Com a falta de medicamentos, até mesmo um paciente diabético teria dificuldades em ser atendido. “Hoje estão faltando coisas básicas para o atendimento. Em um plantão que fiz recentemente não havia soro. Não conseguimos comprar porque os fornecedores não querem vender”, disse o médico. “Não podemos manter um serviço que coloca em risco a saúde do paciente. Enquanto estava em uma situação puramente financeira, era uma coisa; agora é questão de saúde”.
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