Pintassilva canta voando


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Vez por outra surge uma notícia policial sobre a apreensão de pássaros nativos vivendo em cativeiro. O fato em si gera controvérsia. De um lado está a simplicidade – quase sempre acompanhada da idade – do proprietário das aves canoras. Do outro a truculência da policia, que costuma ser descomunal quando não vê perigo de reação pela frente. A lei 9.605/98 tipifica como crime ambiental a captura, a comercialização ou a posse de pássaros silvestres. O infrator responde a processo criminal podendo pegar de 6 meses até 1 ano de cadeia. Engraçado, não? Ainda mais numa época em que ladrão ou assassino confesso, muitas vezes, continua solto pelas ruas, pronto para novos ataques. Apesar de ser uma atitude desumana, a posse ou a criação de pássaros nativos em cativeiro não justifica a prisão de uma pessoa. A própria legislação sobre o assunto abre brecha para este passatempo de gosto duvidoso. Basta ao cidadão se cadastrar junto ao órgão controlador para que possa criar, comercializar ou possuir aves canoras em gaiolas ou viveiros. O problema então não é o pássaro na gaiola. Muito menos a conversa de preservação ambiental, já que apenas um simples registro junto ao Ibama confere o direito de se criar em cativeiro canário-da-terra, trinca-ferro, bicudo, curió, coleirinha, sabiá, bigodinho, azulão, pássaro-preto e algumas outras espécies de aves silvestres destinadas ao canto. A sorte dos bichinhos está no fato de muita gente hoje em dia não ter mais como passatempo o hábito de prender passarinhos em gaiolas. Isso tem feito com que muitas espécies canoras estejam vivendo e procriando bem próximo da cidade. Ultimamente, pode-se encontrar canário-da-terra cantando livremente em áreas rurais limítrofes à urbana. Quem não acreditar nesse acontecimento, que experimente caminhar pelos arredores da cidade. Basta sair um pouco do burburinho da população para ouvir o canto de pássaros-pretos, coleirinhas, sabiás, canarinhos, trinca-ferros e algumas outras aves melodiosas. A cada dia aumenta mais o número de passarinhos soltos pelas redondezas. Isso vem ocorrendo porque somente os mais velhos ainda prendem pássaros nativos. A molecada agora está em outra, fazendo coisas que podem ser mais prejudiciais, principalmente do ponto de vista físico ou psicológico. Por causa disso, pelo menos as aves canoras reconquistaram o espaço natural, já que deixaram de ser alvo de pedras, arapucas ou alçapões. Não faz muito tempo assim, as matas abertas ou os cerrados de baixadas das cercanias de Franca contavam até com patativas e pintassilgos (o povo gosta mesmo é de falar pintassilva, que, por sinal, não é errado). Com a proliferação atual de aves canoras, quem sabe, chegará um tempo em que se poderá ouvir novamente o bonito trinado de um pintassilva em pleno ar. Esse é um dos poucos pássaros que canta empoleirado e, melhor ainda, voando. Antônio Araújo Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br

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