Em todas as épocas quando está para ocorrer o fim de um ciclo, os sinais tornam-se mais evidentes, claros e perceptíveis. O pensamento linear, reducionista, fragmentador e absoluto do modelo de conhecimento que formatou a sociedade pensante até aos dias atuais pressupõe que o todo deve ser fragmentado para ser entendido em suas partes fundamentais. Além de descartar antagonismos, massifica e apregoa que não há outras formas de explicação da realidade e nem de construção de conhecimento.
O indivíduo foi dividido num grande número de compartimentos isolados de acordo com as atividades que exerce. Com isso o talento, as capacidades para o exercício de outras atividades que seriam mais prazerosas foram sendo abandonadas o que certamente engendra frustrações e confusão metafísica. A percepção do mundo exterior ocorre como se tudo fosse constituído de uma imensa quantidade de objetos e fatos isolados. Essa ausência de visão sistêmica gera depressão, violência, individualismo e aos poucos desintegra a vida em sociedade.
Quando toda a sociedade se encontra refém de situações de violência nunca dantes pensada, principalmente no que concerne à criança e ao adolescente, autor e vítima de dados alarmantes que assombrariam até aos mais otimistas pensadores sociais, significa que algo não vai bem.
E o problema não pode ser tratado de forma simplista e diletante. Um olhar complexo acerca dessa tão pungente degradação de valores e desrespeito pelo outro deve ser lançado no sentido de trazer de volta a inocência perdida.
As pessoas não são `coisas`. Manipula-se até certo ponto, depois perde-se totalmente o controle. O momento atual é de total falta de controle dos pais e do modelo de Educação adotado pelo Estado. Edgar Morin fala de `ressurreição da missão de educar`. Para ele essa ressurreição inclui o ressurgimento da fé na cultura e no espírito humano.
"Para ser um educador é preciso ter amor. Amor para com a matéria que se ensina, para com as pessoas a quem se ensina", continua ele. Os pais não poderiam terceirizar a tarefa da educação dos filhos para a escola. Há muitos casos de crianças e jovens que estão gritando por socorro, pela atenção dos pais, e esses não têm tempo para os filhos.
O resultado não poderia ser outro: ameaças, tapas, arremessos de cadeiras em colegas, funcionários, coordenadores e professores. Olha só o que diz Marcel Proust: `Uma verdadeira viagem de descoberta não é a de pesquisar novas terras, mas de ter um novo olhar`. E Jacques Laberyrie sugeria que: `Quando não se acha solução numa disciplina, a solução vem de fora da disciplina`. Dessa forma, a `empreitada` para uma sociedade mais pacífica e humana deve começar a partir de articulações internas entre os saberes, entre cada disciplina ensinada nas escolas e entre a instituição familiar.
Dia desses foi sugerido pelo ilustre Ministro da Educação que os mocinhos da escola secundária começassem a ler o `Manifesto Comunista`. Discordo, com todo o respeito, à posição ideológica desse governo. O que a escola em todos os níveis carece é de copiar a reforma efetuada por Humboldt em 1809, em Berlim, ou seja, a escola precisa ser laica frente ao poder e à religião. Ser livre para problematizar o mundo e o Homem. Eis a mensagem inscrita na frente da Universidade de Heidelberg: `Ao espírito vivo`.
Nadir Ap. Cabral Bernardino
Advogada formada pela FDF, pós-graduada em Política e Estratégia e Direito Ambiental
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