Ameaças, palavrões, tapas e até arremessos de cadeiras... A lista dos tipos de violência ocorridos nas escolas de Franca é longa. Os casos deixaram de acontecer do lado de fora dos portões das unidades, ultrapassaram os muros e chegaram às salas de aula. Em todas as regiões da cidade existem escolas que registraram algum tipo de agressão. Mas diretores, vice-diretores, professores e inspetores só falam sobre o assunto na condição de anonimato.
O Comércio visitou onze escolas estaduais, de bairros diferentes, e entrevistou 24 pessoas - um inspetor, seis diretores, seis vice-diretores, três pais de alunos e oito estudantes. Com exceção a diretores de três escolas, os demais confirmam algum tipo de violência - física ou verbal - no ambiente escolar, seja de alunos contra professores ou entre os próprios alunos.
A situação se transformou em uma coisa tão comum, que alguns diretores ve em com naturalidade o fato de alunos discutirem com professores. “Todos os dias eu recebo uns 15 alunos aqui na minha sala depois de reclamação dos professores. Ligamos para os pais sempre que é preciso. Para a polícia, só se for muito grave”, disse a diretora de uma escola da região norte.
Na região leste da cidade, outra diretora dá depoimento semelhante. “Temos em média sete ocorrências por mês de agressões físicas ou verbais. Apesar de ter se tornado uma coisa comum, não considero normal. Aquele que diz que não existe, mente. A violência dentro da escola é uma coisa que a gente não espera que aconteça”.
Identificar o problema é fácil. O difícil parece ser encontrar uma solução. As autoridades ligadas ao setor não têm estatísticas que retratem a realidade ou políticas públicas para coibir a violência. Polícia Militar, Polícia Civil, Secretaria de Estado da Educação, Diretoria Regional de Ensino ou Conselho Tutelar não têm controle sobre os casos de violência. Procuradas, nenhuma das instituições disponibilizou o número de ocorrências ou qualquer outro dado oficial.
A Polícia Militar, que mantém ronda nas escolas, faz atendimento quase que diário, mas não disponibiliza os números de ocorrências. O capitão Severo - que até duas semanas atuava em Franca - disse que a maioria dos casos é de furtos, mas o desacato ao professor também é motivo para a direção acionar a polícia. “70% dos acionamentos é, sim, por furto, especialmente de celulares. O restante é desacato a diretor, inspetor e professor, além de lesão corporal, após brigas entre alunos dentro e fora da escola”, disse sem revelar o que esses percentuais representam.
Somente nos dez primeiros dias de outubro, o Comércio publicou cinco matérias sobre casos que foram parar na DDM (Delegacia de Defesa da Mulher). Três deles foram por conta de agressão de estudante contra professor da rede estadual de ensino. Ainda assim, a Polícia Civil não disponibiliza dados. As ocorrências do tipo ficam em meio às demais atendidas pela DDM. “Nossa equipe teria que verificar, desde janeiro, boletim por boletim. São mais de 4,5 mil registrados neste ano - de todas as naturezas. Isso dificulta fornecer as informações”, disse a delegada.
O Conselho Tutelar também atende situações do tipo, mas não tem um registro específico dos casos. Entre janeiro e agosto de 2009, o órgão recebeu 469 denúncias das escolas. A conselheira Gláucia Limonti, explicou que ali constam relatos de violência, mas estão juntos aos registros da evasão escolar que, segundo ela, seria a maioria. A reportagem solicitou os documentos e se prontificou a separar os números de evasão e violência. O pedido foi negado.
“O relatório é sigiloso. Só sai mediante pedido do juiz”, disse Gláucia. Ainda que sem precisar os números, ela confirma: “Existe, sem dúvida (a violência nas escolas). Precisa ser combatida, não é normal, não podemos aceitar”, disse ela, acrescentando que há uma ‘grande rede’ formada para atender esses alunos. “Para cada caso há um encaminhamento específico entre Psicólogo, Creas, Ministério Público e Poder Judiciário”.
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<i>Colaborou Fernanda Bufoni</i>
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