Gosto terapêutico


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Balas de goma e de coco, quebra-queixo, pirulitos, leite condensado na lata, mingau de aveia ou de "maizena", papinhas de pão com leite, maria-mole. Quando você lê, além da boca que se enche de água, algo clica e faz retornar à lembrança imagens, gostos ou situações que julgava completamente esquecidas? Onde anda a criança que você foi? Perdeu-se em determinado momento da construção do adulto que você se tornou? Em qual momento isso se deu? Onde foi, exatamente, que você deixou a inocência do gostar de delícias, do não enxergar maldade em nada, do exercitar sua curiosidade mesmo quando alguém lhe lembrava que "não podia"? Estávamos em pleno brainstorming ("tempestade de idéias`) de trabalho, deixando fluir sem pré-julgamentos toda e qualquer sugestão sobre o problema que tratávamos quando alguém ligou a ação à idéia de estarmos nos divertindo, de novo, como crianças. Crianças não ajuízam, fazem. Enquanto ainda não submetidas a regras, normas e condutas próprias do mundo adulto, tateiam, experimentam, correm riscos, desmontam, testam, se escondem, aparecem, fazem de novo e de novo. E aprendem, compreendem, mensuram limites. São felizes porque nada lhes quebra o desejo de interação, quase uma necessidade fisiológica cumprida. O brainstorming, ferramenta gerencial de busca de idéias inovadoras e verdadeiramente criativas, devolve ao adulto a capacidade desajuizada das crianças. Pelo menos nos momentos de uso da técnica, quem participa se despreende das amarras do "sim" e do "não", da vergonha, da timidez e do temor e se torna, de novo, livre, leve e solto. Em treinamentos de comunicação verbal e gestual que ministro para executivos de empresas, profissionais liberais, estudantes, professores, sempre adultos, de quando em quando uso uma "caixa mágica" que apresento, antes de abrir, como capaz de ajudar a que os temores de falar em público, desapareçam. E abro. Dela retiro bolinhas de gude, pião e corda, pega-varinha, giz (para desenhar cenários de "pular amarelinha"), jogos de palitinho, corda de pular, bilboquê, baralhos tipo "mico", lápis de cor, tabuleiros de jogo de dama e desafio meus grupos: "vamos jogar"? A princípio receosos, meus treinandos vão se soltando. Vi prefeitos se divertindo – de novo – pulando corda, felizes da vida. Adultos sérios, tensos e compromissados com postura correta, palavras escolhidas a dedo e caras amarradas, voltarem a sorrir e a "disputar" piões para demonstrarem suas habilidades "perdidas sabe-se lá onde", mas disponíveis, quando é o caso. Em pouco tempo, homens e mulheres redescobrem-se crianças capazes de propor brincadeiras de seus tempos: pique de esconder, completar histórias, jogar "queimada". De um lado, "crianças" jogam bolinha de gude, no chão, sentados, agachados, como eram quando jogavam "naqueles tempos". De outro, concentradas, senhoras, professoras ou executivas, jovens ou nem tão, tentam encontrar, detidamente, a forma de desentranhar a varinha que lhes permita seguir no jogo. De resto, gelo quebrado, máscaras sociais despidas, a redescoberta da criança perdida e a capacidade – "Puxa! É possível sim" – de permitir coexistência dela com o adulto que o mundo moldou, tornou ou quer tornar vencedor. Um adulto melhor, em síntese. Quando você tiver vontades que não consegue explicar ao ver um saquinho de balas de goma na visita ao supermercado, mande tudo para o alto e permita-se. Nossas melhores memórias são disparadas por imagens, sons, cheiros e gostos. Trata-se da mais inocente e eficaz terapia. Pode acreditar. <b>AGRADECER É PRECISO </b> Grato ao Paulo Rubens Gimenes, ex-conselheiro deste Comércio; à sempre lembrada e querida professora Lurdinha Liporoni, ao leitor Jurandir Honda e a inúmeras pessoas que se manifestaram por e-mail ou pessoalmente, sobre a coluna "Ipê da Industrial" que assinei sábado passado, último dia da Semana do Professor. É saboroso o gosto do carinho e das lembranças. <b>O IPÊ PERMANECE</b> O leitor José Tadeu de Carvalho escreveu de Porto Seguro (BA) para também participar do resgate da história do "Ipê". Descobriu que sementes da árvore derrubada deram origem a centenas - quem sabe, milhares - de plantios em propriedades rurais de nossa região. A árvore abatida continua viva, então. Leia mais nas "Cartas" deste Comércio, página 2, amanhã. <b>ZÉ RASTEIRO</b> O comunicador sertanejo José Rasteiro Filho voltou à ativa nos microfones da Rádio Imperador – onde está desde o início da década de 70 – depois de enfrentar tremendo susto e uma cirurgia. Também reassumiu sua conhecida sanfona nos "bailões" do Centro Comunitário do Bairro Ângela Rosa, aos domingos, tocando arrasta-pés para a terceira idade. Para quem gosta e tem respeito pelo Zé – sem contestação um dos mais tradicionais nomes da radiofonia brasileira –, está de novo tudo como devia estar. <b>Luiz Neto</b> <i>Jornalista, editor de Opinião do Comércio</i> luizneto@comerciodafranca.com.br

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