Autor festejado pela APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte), vencedor do láurea cubana Casa de las Americas, Luiz Ruffato acaba de lançar o livro Estive em Lisboa e lembrei de você, que compõe o projeto Amores Expressos, uma parceria da produtora RT Features com a editora Cia das Letras. A proposta é escrever uma história de amor ambientada em uma cidade ao redor do planeta, como Paris, Cairo, Tóquio e Havana. Os escritores convidados permanecem por um mês num determinado local, pesquisando e desenvolvendo a idéia do seu romance. Participaram da aventura nomes como Sérgio Sant’Anna (que foi a Praga); Bernardo Carvalho (São Petersburgo); Lourenço Mutarelli (Nova Iorque); Joca Reiners Terron (Cairo); Cecília Gianetti (Berlim), entre outros.
Ruffato, o título diz, esteve em Portugal. Seu livro conta a estória de um imigrante ilegal brasileiro na capital lusa, desempregado, com problemas no casamento e que sai em busca de redenção financeira e afetiva. Nele Ruffato continua a tocar nas temáticas da imigração e da desterritorialização, numa narrativa formalmente perpassada pelo lirismo e pelo picaresco. “O fenômeno da imigração, do pertencimento, do desenraizamento, da desterritorialização, t ípico da sociedade pós-industrial, ou globalizada, está sempre presente no meu horizonte de interesse ficcional. Em Eles eram muitos cavalos, é a cidade de São Paulo, com sua inapreensível dinâmica, que se torna personagem principal do livro. Ali estão não só os dramas dos personagens, em sua quase impossibilidade de se constituir como sujeito de sua própria história, como também, formalmente, o livro é a prova viva da incapacidade de narrar esse fenômeno.
Na série Inferno Provisório, a mesma complexidade temático-formal é enfrentada, mas, como se trata de um longo período, cerca de 50 anos da história brasileira, essa polifonia, embora existente, é aparentemente diluída. Agora, no meu entender, tanto o Eles eram muitos cavalos, quanto o Estive em Lisboa e lembrei de você, quanto o De mim já nem se lembra, fazem parte de uma única história: a dos brasileiros que buscam um estatuto de cidadania, muitas vezes tendo de se anular para conseguir sobreviver”, diz o autor, que concedeu ao jornal Comércio da Franca a seguinte entrevista:
Comércio - Como foi participar da proposta Amores Expressos, da Cia das Letras? Como se dá, aliás, o processo criativo ‘sob encomenda’?
Luiz Ruffato - Quando fui convidado a participar do projeto, escolhi Lisboa como cidade-laboratório. Primeiro, porque já conhecia bastante bem a cidade e poderia então me dedicar a escolher com calma os ambientes onde se passaria a história. Segundo, porque eu já tinha tido contato anterior com os imigrantes brasileiros em Portugal, e o paralelo entre a imigração para o exterior e a imigração interna brasileira me interessava como ponto de partida para a ficção. Para mim, como escritor profissional, é extremamente interessante escrever “sob encomenda”, já que, além da questão financeira, é um desafio intelectual. Sei que a idéia de escritor profissional, ou seja, aquele que ganha o seu pão por meio da escrita, choca os que ainda veem o artista como um ser diferente, que de alguma maneira mantém contato com um mundo inacessível ao comum dos mortais. Eu acho isso uma grande bobagem. O artista é apenas mais um trabalhador.
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Comércio - A linguagem desse livro foi trabalhada no sentido de amalgamar a prosa interiorana do protagonista e as influências lusas...
Ruffato - Como a idéia é a de um depoimento na primeira pessoa de um imigrante brasileiro em Portugal, deixei que o Serginho se comportasse a seu modo. Assim, a primeira parte do livro é uma reconstrução da fala da minha região. O livro, nesse sentido, não foi escrito em português padrão do Brasil, mas em ‘mineirês’, mais que isso, talvez, em ‘cataguasês’. A segunda parte, em que ele narra a história ocorrida em Lisboa, incorpora à fala uma série de lusismos, africanismos e outros ismos, pois como imigrante ávido de vencer em Portugal, arrumando um bom emprego e voltando rapidamente para Cataguases, rico, ele tem que tentar se fazer aceitar pela nova realidade... Nesse sentido, o Serginho é oswaldiano, ele incorpora, antropofagicamente, todas as influências...
Comércio - Como avalia o panorama literário atual? Que literatura é essa, a contemporânea?
Ruffato - A literatura é um retrato de sua época. Como o homem contemporâneo é um ser cindido, a prosa é fragmentária. Além disso, a física quântica trouxe o conceito da indeterminação para o centro das discussões: a noção de espaço e tempo hoje não é mais a mesma do Século XIX. A verdade é uma hipótese, em meio a outras, portanto, o personagem é uma construção em crise. Ou seja, para escrever um livro hoje tem de se levar em conta esses dados objetivos. Agora, em termos de Brasil, não tenho dúvida de que estamos vivendo um dos melhores momentos da história da nossa literatura, com uma enorme produção descentrada do eixo Rio-S ão Paulo, com autores das mais diferentes idades, concep ções estéticas, temáticas e filosóficas, com a aposta das grandes editoras em nomes desconhecidos, com uma circulação imensa de informação. O que vai ficar de tudo isso? Não tenho a menor idéia. Mas com certeza ficar á muita coisa. Esse é um momento de construção e de maravilhamento.
Comércio - O que diz das novas mídias na literatura, como por exemplo, o Twitter?
Ruffato -Eu não tenho carro, celular, relógio ou blog, nem acompanho o que acontece nos facebook, orkut ou twitter. Não por preconceito, mas porque vivo do que escrevo. Eu tenho, no dia 30 de cada mês, que pagar as contas da minha casa. Perde-se muito tempo com o mundo virtual - e eu não posso perder tempo... A literatura produzida na web é tanta e tão diversificada e, no fim, a melhor acaba migrando para o livro. Então, prefiro que o próprio filtro se estabeleça para eu poder a conhecer no formato que mais me agrada. Mas deve ter muita coisa legal no espaço virtual.
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