Uma das margens da Rodovia Nestor Ferreira, que liga Franca a Restinga, abriga um casarão branco com detalhes azuis. As duas cruzes na parte alta do imóvel, avistadas da estrada, revelam que ali é um espaço religioso: o Carmelo Santa Teresa e Beata Myriam de Jesus Crucificado. No local, vivem 17 freiras da Ordem das Carmelitas Descalças. Elas têm entre 22 e 85 anos. Na manhã da última quinta-feira, 15, a Irmã Maria Vitória da Cruz, uma jovem de 29 anos, que vive no Carmelo desde 2006, fez os primeiros votos para uma vida de clausura. A partir desta data, continuará vivendo fechada no mosteiro por mais um ano, quando poderá renovar a promessa até que um dia faça votos perpétuos como carmelita.
A celebração, presidida pelo frei Alzimir Debastiani, de São Paulo, foi marcada pela emoção. Familiares vieram de Uberlândia (MG) e participaram da cerimônia. Como sempre acontece, os contatos entre a Irmã Maria Vitória e os familiares foram poucos. A freira assistiu à missa num espaço separado por grades dentro da capela. Ela usava um véu branco com uma coroa de flores na cabeça. No final, pela primeira vez desde que está no Carmelo, as grades foram abertas e a jovem pôde abraçar os parentes e amigos e entregar-lhes a lembrança dos primeiros votos. Muitos choraram. Depois foi oferecido um coquetel para os presentes, mas a freira não participou. “Hoje é um dia muito especial. Para meu coração serei carmelita para sempre”, disse ela.
A Irmã Maria Vitória se chamava Franciane Albernaz Resende. As religiosas mudam o nome quando se tornam carmelitas para se desprenderem ainda mais do passado. Antes de entrar no Carmelo, a jovem concluiu o ensino médio e trabalhou como balconista e caixa. Pensava em se casar, ter filhos e construir uma família. Chegou a namorar dos 16 aos 19 anos. Mas sua vida seguiu outro caminho. Antes de viver enclausurada, havia ingressado na Toca de Assis, uma comunidade religiosa que cuida de moradores de rua. Mas desejou uma vida ainda mais reservada. Decidiu ser carmelita e viver fechada. “Na Toca eu tinha uma vida mais ativa, com os pobres, na rua. Aqui me dôo mais a Jesus. Sempre tive desejo de uma vida de mais recolhimento, de estar mais em união com o Senhor, no silêncio, na solidão”.
Sétima filha de oito irmãos, deixou os pais, outros familiares e os amigos para viver reclusa, no Carmelo de Franca. “Fiquei na Toca de Assis três anos. Já tinha deixado o emprego para ir para lá. Quando vim para o Carmelo, tive de renunciar à minha família, que é meu maior tesouro. Para mim é muito difícil, mas é um dom de Deus, uma vocação. Serei gratificada quando estiver no céu ao lado deles”.
A Irmã Maria Vitória se sentiu tocada por Deus aos 19 anos, enquanto lia um livro de Santa Teresinha. “Ela falava desse estar a sós com Deus, de encontrar Nele a alegria, o tudo. Quando mais jovem, tive sim desejo de ter uma família, mas o Senhor veio trocando os meus sonhos pelos Dele e pude responder a esse chamado com meu sim”.
A Irmã Maria Vitória e as outras carmelitas vivem uma vida dedicada à oração. Só deixam o mosteiro para consultas médicas e nos dias de eleições. A Ordem das Carmelitas Descalças foi criada por Santa Teresa em Ávila, na Espanha, em 1562. A palavra “descalças” é apenas uma alusão ao voto de pobreza que as religiosas fazem. Elas usam sapatos (leia mais no apoio).
Em Franca, o Carmelo foi trazido pelo bispo emérito da Diocese de Franca, dom Diógenes Silva Matthes, há 22 anos. No Brasil, existem, segundo frei Alzimir, 57 mosteiros das carmelitas e cerca de 770 em todo mundo.
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