Alô? Do outro lado da linha quem me ligou nem respondeu à saudação. Voz crispada, tensa, mandou: "botaram abaixo o ipê roxo da quadra da Escola Industrial!!!". Tentei acalmá-lo: "se a árvore já foi ao chão, tome um fôlego e me conte em detalhes".
“Desculpe-me, Luiz. É que a não dá para ficar calmo. Vi aquela árvore dar sombra para várias gerações e, apesar de saber que suas raízes prejudicaram um pouco a quadra de esportes da escola e suas folhas e flores terem incomodado o pessoal da limpeza, entendo que alguém não pensou bem antes de derrubá-la”.
Preocupante. Liguei imediatamente ao Ismar Tavares, Secretário de Obras e Serviços da Prefeitura. Disponível, ele explicou: "havia a necessidade da supressão já que a quadra de esportes da escola se prepara para ser coberta. O Código de Meio Ambiente municipal diz que em casos assim, a derrubada pode ocorrer desde que existam ações de compensação ambiental". Ismar afirmou também que houve uma análise sobre a saúde da árvore e que o resultado revelou comprometimento capaz de torná-la perigosa a curto prazo. "Fechamos um termo de `comprometimento ambiental` com a Industrial, que remeterá seus estudantes a intensificarem ações de meio ambiente, cuidando, a exemplo, das várias árvores que plantamos no contorno da escola". Então, é isso.
A frustração pela derrubada veio de um professor aposentado. Lembrei-me dele. Esteve sempre na dianteira de ações pela preservação do meio ambiente mesmo quando o assunto ainda não tinha o apelo de hoje.
Coloquei-me a pensar em professores de outros tempos, sobre cidadania e civismo que pregavam, sempre baseados no respeito que lhes dedicávamos. Ato reflexo, lembrei-me dos resultados eficientes e eficazes do trabalho que empreendiam ao formar personalidades. Era um tempo em que o governo permitia que o mestre usasse sua própria metodologia. Bons professores a gente conhecia de longe pois suas famas os precediam. Havia casos em que o aluno, ainda muito jovem, não via a chegar a hora de ter aulas com aquele ou aquela, mesmo sabendo que além de muito bons, eram muito bravos, sérios. Era a época em que os alunos se levantavam para saudar a chegada deles à sala de aula.
Bem remunerados, tinham vidas dignas. Dedicavam-se a cargas horárias honestas que lhes possibilitavam preparar aulas interessantes, estimulantes, inesquecíveis. Também os alunos eram diferenciados. De casa, os estudantes levavam o aprendizado de respeito ao outro e educação, ensinadas tanto em berços simples quanto nos esplêndidos.
Qual a um filme, as lembranças continuaram fluindo. Rostos, jeitos de ensinar, situações de sala de aula tomaram força e deixaram patente a imensa diferença entre os cenários de ontem e de hoje. Professores de agora, salários aviltados e engessados por sistemas pedagógicos impostos pelos governos e pela sanha de dirigentes que se julgam acima de todas as coisas, deuses da moderna educação – na verdade, apenas humanos egocêntricos desprovidos de experiências "de campo", títeres políticos capazes de tudo em defesa de seus nichos de poder e daqueles que os agasalham, incluindo ai, calar pela força, denunciar quem contesta, "vingarem-se" com fúria quando se imaginam em risco – tornaram-se meros cidadãos que tentam sobreviver, apesar de suas vocações.
Temas para outras ocasiões. Hoje, prefiro falar de professores que marcaram seus nomes na história do ensino adequado, comprometido. Recordo alguns, mesmo sabendo o risco de citações nominais, já que a memória sempre prega peças. Sei que incontáveis leitores deste Comércio gostam deste tipo de exercício porque estimula a experimentos iguais e proporciona a chance de tirar do limbo nomes que fizeram por merecer. Vamos lá, então: Noêmia Martha Bordignon, Maria José Marques, Elza Figueiredo de Conti, João Madureira, Maria Esmeralda Barbosa, Maria Geralda Presotto, Antonieta Barini, Mário Latorraca, Hilário Giovanella, Alberto Blücher, Luiz Antônio Hungria Cecci, Ângelo Felício Neto, Rubens Antônio Calixto, Roberto de Carvalho Engler Pinto (o professor, não o político), Alfredo Palermo, Assuero Quadri Prestes, Lúcia Gissi Ceraso, Chafi Felipe, Roberto Latorraca, Pedro Morilla Fuentes, Roberto Lopes, Cícero de Castro, Olga de Faria, Sidnei Oliveira, Roberto Ambrósio, Branca e Pedro Nunes Rocha. Se você, que lê, repetir o exercício, comporemos um memorial extraordinário.
Penso que a educação daqueles tempos, um milhão de vezes contestada pelos modernos, é que valia. Afinal, hoje, a modernidade reúne, em sala de aula, alunos que violentam mestres ou são violentados por eles. Literalmente...
<b>FAÇAM A SOMA</b>
Conversei, dia destes, com o conhecido professor Wagner Campos, aquele que se tornou referência por tirar seus alunos de sala de aula e levá-los a interagir com a natureza, com bibliotecas, com empresas. Aposentou-se há 3 anos e meio após 36 anos de docência no município e 31,5 no Estado. Antes, havia atuado por 10 anos alfabetizando adultos. É o equivalente a 77,5 anos ensinando, mais que os 75 anos de idade que tem hoje. Impressionante, não é?
<b>E NÃO PAROU</b>
Continua, sim, em atividade. Integra grupo de amigos da escola no "Cel. Francisco Martins". E mais: dedica-se a apresentar palestras contando experiências de ensino que deram certo, para pais. Quer conscientizá-los sobre a necessidade imperiosa de que o filho que vai à escola precisa receber educação "em casa" e não na sala de aula. Bela briga!
<b>COMO?</b>
A palestra, gratuita, pode ser solicitada através de ligação à escola "Cel. Francisco Martins" (aos cuidados do diretor Antônio Reginaldo Raiz).
<b>Luiz Neto</b>
<i>Jornalista, editor de Opinião do Comércio</i> luizneto@comerciodafranca.com.br
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