Nas duas apresentações que fez no Teatro Municipal de Franca, na quarta e quinta-feira passadas, o grupo Terça Insana apenas repetiu o que, há oito anos, já é sacramentado em São Paulo: espetáculos com casa cheia, interação com o público e um humor simples, beirando o pastelão, mas, sobretudo, inteligente, perspicaz e crítico. Pegar no ar as mensagens nada implícitas que os personagens de Grace Gianoukas, Agnes Zuliani, Roberto Camargo e Guilherme Uzeda jogam para a plateia implica em estar antenado com fatos do cotidiano, por vezes simples, por outras mais complicados. Permeiam as piadas nas apresentações individuais, comentários contra dogmas religiosos, preconceitos sexuais, política, o descompromisso de parte da sociedade em se tornar mais culta, mais polida. Apesar da linha que os autores adotam, não é pecado nenhum assistir e apenas rir; mais nada. Grace Gianoukas é a diretora e fundadora desse grupo, uma figura inquieta, falante, que vai desafiando o interlocutor a todo momento a acompanhá-la em seu raciocínio rápido e fala idem. O elenco fixo do Terça Insana é formado pelos quatro atores que vieram a Franca, cada qual com sua própria trajetória em cinema, publicidade, televisão e palcos teatrais. Roberto Camargo, que encarna Betina Botox, garotinho homossexual cheio de atitude, deixou de trazer o cantor boliviano Mario, que com Juana (Mario & Juana), forma uma dupla que gravou um CD independente com canções próprias, mas que por falta de dinheiro suficiente fez apenas uma cópia do trabalho. Além de ator e autor, Camargo é consultor de figurinos. Formado em Artes Cênicas pela Federal do Rio Grande do Sul, cursou teatro na França e trabalha com o grupo desde sua primeira apresentação. Guilherme Uzeda, psicólogo de formação, especializado em psicodrama, é ator de teatro por excelência, embora tenha seu rosto mais associado a participações em quadros com a atriz Denise Fraga e nos mais de peças publicitárias que fez. Uzeda começa o show com o “homem imã de chato”, uma pessoa comum que tem extrema facilidade para atrair gente chata em torno dela. Vai descrevendo todos os tipos possíveis e imagináveis desse ser tão peculiar, a ponto de ser difícil você não se lembrar de algum chato que cerca sua vida. Depois vem Vicente, rapaz de Catanduva, caipira até a alma, que tira gargalhadas do público relembrando os tempos de moleque e da pensão onde passou a morar com outros dois amigos. Agnes Zuliani está impagável na pele da mulher que tem os piores dias da vida quando a TPM chega. A situação é tão incontrolável que ela pensa em se matar, não sem antes anotar os nomes das pessoas que vai levar junto com ela. Ao interpretar Margarida, uma gari de São Paulo que recicla parte do material que encontra pelas ruas e caçambas da cidade, ela parte para um momento hilário do show. É quando cita uma passagem com o prefeito Sidnei Franco da Rocha, que, em novembro de 2006, chutou cones de trânsito e desacatou um policial militar. Agnes é nascida na região e tem parentes que moram em Franca. Por fim, Grace Gianoukas, que também deixou muitos dos seus personagens mais conhecidos, mas trouxe outros tão bons quanto. Atriz de teatro com inúmeras passagens pela televisão, foi rosto conhecido no inesquecível Castelo Rá-tim-bum, da TV Cultura, dirigido por Fernando Meirelles. Diga-se de passagem, a fada entediada por não encontrar o duende que dizem ser seu par na espécie, foi um dos melhores momentos do show. De saco cheio de ter que cuidar de crianças boazinhas e preocupada com fato de estar ficando para tia, sem ter seu macho por perto, a fadinha começa a beber até cair, desiludida com a vida. SUCESSO RECONHECIDO O Terça Insana surgiu em 2001 em um espaço tão pequeno quanto improvável em São Paulo. Era um bar com um palco de oito metros quadrados. Nas primeiras apresentações, quando o grupo formalmente ainda nem existia, os primeiros públicos começaram a perceber as diferenças estéticas e conceituais que eram vistas ali e nas grandes produções, com grandes elencos e grandes orçamentos. A cada terça-feira os amigos foram se reunindo, atores como Roberto Camargo foram chegando para se apresentar. O boca-a-boca funcionou e a descoberta não demorou a acontecer. O bar foi ficando pequeno e de repente lotação esgotada para os dois meses seguintes. Quando o Youtube caiu nas graças dos internautas brasileiros, lá por 2005, a coisa “fugiu ao controle”, disse Grace. Numa troca involuntária de favores, os vídeos do Terça Insana foram durante muito tempo os mais vistos do site, que, por sua vez, ajudou o grupo a se tornar conhecido no Brasil e fora dele. “Não conseguíamos acreditar na procura que estávamos tendo e nos comentários que ouvíamos. A única coisa que eu tinha certeza é que tinha muita gente, além de nós, interessada em ver humor inteligente, não formatado, diferente do que está por aí”, falou a diretora. Dezenas de atores já passaram pelo teatro na Rua Pedroso de Morais no Bairro de Pinheiros, em São Paulo. Muitos, depois de serem revelados, seguiram caminhos diversos. Para todos os que já passaram, para os que estão e aqueles que vão chegar, Grace diz que há exigências: as piadas e performances devem ser originais e renovadas a cada mês. Na há espaço para intolerâncias de qualquer tipo. Portanto, nenhuma manifestação de preconceito, nenhuma gracinha em relação a gays, anões, putas, nada. No hall do hotel em Franca onde descansava entre as duas apresentações na cidade, Grace, com simpatia ímpar, revelou as propostas inúmeras que teve para vender os direitos do Terça Insana para emissoras de TV. Durante uma hora falou dos projetos para o futuro, de como foi obrigada a tornar-se empresária para gerir a Terça Insana Produções Artísticas, que hoje emprega 25 pessoas. “É o projeto da minha vida e sempre estou pensando em como vamos continuar, pensando nos novos atores que vão chegar. A procura por nossas apresentações só faz aumentar, mesmo após oito anos de existência, tempo em que a maioria das montagens sequer sonha alcançar”, ponderou ela. “Apesar de todas as chances que tive de vender os direitos dos shows, nunca quis porque faço o Terça não por dinheiro, mas por uma realização profissional e pessoal, e pela liberdade que temos todos de falar sobre qualquer assunto”.
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