Desonestidade? Tá assim, ó...


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Cruzando a rua da casa onde moravam havia um terreno imenso e baldio, onde o mato crescia esfuziantemente. Com medo de cobras e lagartos e mamíferos/bípedes invasores, cuidavam do espaço. O marido ligou para o dono do terreno pedindo autorização para derrubar o mato, plantar grama e algumas árvores, quem sabe? Ouviu sim e por muito tempo, sem qualquer vínculo de propriedade, toda vez que saiam à porta da frente, a visão de um delicado e simples jardim, invadia os olhos. Aos poucos foram plantando outras variedades. Hortênsias, agaves, tinhorões, bromélias, trepadeiras. Circundaram o espaço com `amarelinhas`, assim ele as chamava, para dar acabamento. Pedras foram trazidas das estradas de terra por onde passavam. No meio delas, cactos. Os vizinhos passavam, olhavam curiosos e se espantavam: não é de vocês, por que cuidar? Vinha a explicação: mas está sob nossos olhos e é prazeroso olhar, quando está florido, etc. Muitos transeuntes, quando não eles não estavam olhando, surrupiavam as mudas. Numa dessas vezes, alguém da família estava perto quando o carro parou, estacionou sem desligar o motor, desceram duas mulheres com tesoura, saco plástico e entraram pelo terreno para roubar (tem outro nome isso?) algumas plantas. Quando viu as invasoras perguntou-lhes: vocês pediram à dona? Não, elas responderam, `tá na rua, é de quem passar.` Ele - dono de uma índole boa - pacientemente repôs esses e outros estragos. Ela continua ficando tiririca, querendo fritar os ladrões inescrupulosos. Na rua lateral à residência deles, na calçada, plantaram a muda de um arbusto que dá flores amarelas. Presente de uma tia dele, que também adora flores, fica linda quase o ano todo. Pede que o jardineiro corte as flores, com as quais ele faz pequenos buquês que dá para as netas, noras, parentes, amigas. Volta e meia a árvore amanhece mutilada, nunca se soube o motivo: pode ser alguém tentando uma muda; talvez a inabilidade dos motoristas - ela avança pela rua; pode ser mero vandalismo - tem gente que a-do-ra destruir. Manhã dessas, o caldo do atrevimento entornou. Ao sair de casa ela deu com dois homens sob a árvore, ao lado de dois carros estacionados. Parou, eles meio que se esconderam e tentaram camuflar cordões, tesoura e seringa que tinham nas mãos. Atrevida, perguntou se queriam alguma coisa: a gente está tentando tirar uma mudinha desta árvore que a gente acha bonita. E falaram com alguém? Falamos com o caseiro, disseram. Mas o caseiro não tem autonomia para decidir isso! E eles deram de ombro, rindo maciamente. Ela perguntou para o `caseiro`. Quando foram checar, os sem-flores tinham ido embora. No entanto mutilaram três importantes galhos da árvore: descascaram, colocaram uma bucha vegetal embebida em hormônio, cobriram com plástico preto, amarraram com o barbante. Ela espumou. Sentiu-se mutilada também, parecia-lhe ouvir a árvore chorando pelas experimentações que os dois nazistas lhe fizeram. Sentiu-se impotente por não ter a quem recorrer, a quem queixar. Sentiu-se invadida, agredida. Sentiu inveja dos vizinhos e da filha que mora na Inglaterra cujos jardins - abertos, expostos, sem grades de proteção, sem qualquer placa proibindo, exibem as plantas mais lindas, as rosas mais exuberantes, os miosótis mais delicados, as petúnias mais coloridas, os cravos mais cheirosos ... sem temer o desprazer de roubos. Dizem - e só posso acreditar - a pior herança deixada por nossos colonizadores foi justamente a desonestidade. Daí derivam corrupção, devassidão, depravação e perversão do caráter do brasileiro em geral. Talvez meus pais estivessem errados mas ensinaram que roubo é a apropriação de (qualquer) algo que não nos pertence. Falaram que entrar no espaço alheio, sem pedir licença, é falta de educação. Que, sem o dono estar por perto não é legal (relativo à lei) tomar qualquer iniciativa com os bens alheios. E que `bens alheios` é tudo que não é nosso, mesmo que a gente possa carregar e levar (escondido) para casa. Nossa cidade reflete o que vai pelo nosso País: tá assim, ó, de ladrão por aí. <b>MITOLOGIA </b> As Moiras, segundo os gregos, eram três irmãs que decidiam o destino dos homens. Fabricavam, teciam e cortavam aquilo que seria o fio da vida de todos os indivíduos. Para isso utilizavam-se de um tear, em cujas voltas se posicionava o fio correspondente a cada pessoa. O fio, no topo, era igual à boa sorte do sujeito; embaixo, significava sofrimento. Cloto (`fiar`, em grego), tomava conta do fuso e tecia o fio da vida; Láquesis (`sortear`) puxava e enrolava o fio, sorteando as atribuições ganhas em vida; Átropos (`afastar`) cortava o fio e determinava o fim daquela vida. Daí ter a `vida por um fio` ou `cortar o fio da vida`. <b>ASPAS</b> `O bom vinho é um camarada bondoso e de confiança, quando tomado com sabedoria` (Shakespeare). <b>FILME</b> Lily Owens (Dakota Fanning), garota de 14 anos, vive atormentada pelas lembranças da mãe. Com Rosaleen (Jennifer Hudson), sua tutora negra, foge da solidão e de seu problemático pai - com quem tem um difícil relacionamento, para morar numa cidadezinha no interior do estado. Lá conhece August (Queen Latifah), a mais velha das irmãs Boatwright, mulher sensível e inteligente, responsável pela criação de abelhas e que lhe revelará segredos do passado da mãe. Adaptação do romance The Secret Life of Bees`, de Sue Monk Kidd. Uma raridade, o filme tem título fielmente traduzido: A vida Secreta das abelhas. Inesquecível. <b>REGISTRO SONORO </b> Excelente e criativa cantora, Adriana Calcanhoto lança Partimpim Dois, misto de canções autorais, versões de Villa-Lobos, Roberto e Erasmo Carlos, João Gilberto e até Bob Dylan. <b>Lúcia Helena Maniglia Brigagão</b> <i>Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras</i> luciahelena@comerciodafranca.com.br

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