<i>‘Eu quero a fotografia
os olhos cheios d’água sob as lentes,
caminhando de terno e gravata,
o braço dado com a filha.
Eu quero a cada vez olhar e dizer:
estava chorando. E chorar.
Eu quero a dor do homem na festa de casamento,
seu passo guardado, quando pensou:
a vida é amarga e doce?
Eu quero o que ele viu e aceitou corajoso,
os olhos cheios d’água sob as lentes.’
O retrato</i>
<b>Adélia Prado</b>
Ao usar a poesia como epígrafe, indago quem seria este homem que aparece no retrato levando a filha ao altar. Seria um personagem de filme com o qual nos identificamos a ponto de mergulharmos em emoção? Ou quem sabe poderia dizer respeito aos olhos de um psicanalista, emocionando-se por traz das lentes de seus óculos, ao escutar sobre as dores e alegrias de seu analisando? Seria cada um de nós, que se depara com a amargura e a doçura da qual a vida se constitui? Adélia quer o contato íntimo com o sentimento, assim como o desejamos nós.
Podemos então imaginar ser o cinema uma foto em movimento, ambos constituídos e geradores de afetos. Quando assistimos a um filme, é possível que haja um mergulho pessoal, na emoção de cada indivíduo apresentado. Vivemos as dores; as conquistas; elaboramos lutos; choramos; damos gargalhadas; morremos de medo; ficamos apaixonados ou nos retorcemos de apreensão junto com cada personagem da grande tela, que naquele momento já se encontra dentro de nós.
Nós da comissão do “Cinema e Psicanálise” - núcleo de Franca, da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto, estamos em festa por nosso primeiro ano de existência. Gostaríamos de compartilhar esta alegria com todos que durante estas apresentações compuseram conosco cada momento sonhante que permeou a arte do cinema e da psicanálise.
Há normalmente uma grande satisfação diante do apagar de velinhas e do canto de Parabéns a Você, por ser um momento comemorativo. “Com-memorar” me parece ter sentido de uma lembrança conjunta, ou o compartilhar de uma memória feliz. E o que há para se comemorar diante de cada aniversário? Provavelmente comemoram-se feitos, alegrias, tristezas, sonhos, frustrações, perdas e ganhos de uma vida-viva.
Durante este período, filmes foram exibidos em sessões abertas ao público e, em um segundo momento, um psicanalista ou candidato de nossa Sociedade de Psicanálise vem comentá-lo. A platéia mostrou-se sempre muito presente e ativa, debatendo, discutindo e elaborando elementos que dizem respeito a nosso mundo mental.
Nosso intuito é não deixar a psicanálise resguardada às paredes de um consultório e sim levar à comunidade um pouco desta nossa arte, para que possamos contar sobre emoções e sonhos ainda não sonhados. Gosto de pensar assim a psicanálise, com sonoridades pertencentes a uma área de encontro entre um contexto quase poético e ao mesmo tempo real, no encontro entre mentes e singularidades.
Ao longo de nossa trajetória, foi possível assistir aos filmes e ouvir os comentários de respectivamente:
O carteiro e o poeta - Ana Márcia V. P. Rodrigues (novembro de 2008).
Frida - Ana Regina M. Caldeira (março de 2009).
O piano - Débora Mellem. (abril de 2009).
Buenos Aires 100 Km - Josiane B. Oliveira. (maio de 2009).
A vida secreta das palavras -Maria Luiza M. Salomão. (junho de 2009).
Perfume de mulher - Cora Sophia S. Chiapello. (agosto de 2009).
Don Juan De Marco - Sônia Maria de Godoy. (setembro de 2009).
Agora em outubro, estamos ansiosas por compartilhar da presença do querido amigo Dr. José Cesário Francisco Júnior, que virá compor as atividades comemorativas da semana do médico, realizada pelo Centro Médico de Franca, com a apresentação do filme The doctor ou Um golpe do destino. Será amanhã, sábado, às 14 horas. Finalizaremos o ano com o filme Valentin, comentado por Fátima Maria C. R. Santos, em novembro próximo.
Nestas apresentações, fizemos uso da poesia, da música, das artes plásticas e falamos sobre traumas, resgates, construções de identidade, reconstruções e possibilidades de transformação a partir da inovação oriunda do afeto inter e intra pessoal.
Não posso deixar de agradecer a presença sempre viva de Dra. Lenise Lisboa Azoubel, nossa atual presidente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto, e contar a ela que sua idéia de criar um “Cinema e Psicanálise” em 1999 (dez anos!!) em Ribeirão, vem crescendo e frutificando como uma linda árvore de fortes troncos.
Agradeço a todos os nossos colaboradores, que acreditam em nossa proposta e nos possibilitam recursos para viabilização.
O canto de parabéns vai diretamente ao nosso público fiel, que sonha e se emociona conosco em cada apresentação, aos profissionais de áreas afins à psicanálise ou aos leigos que se abriram aos conhecimentos que nossa ciência oferece. Com todos, construímos e ampliamos um grupo de amigos. Vínculos são a essência de nossas vidas e sem eles não temos registros, memória, nem mesmo identidade.
Sabemos que a vida traz um aspecto estético na medida em que é possível nos alegrarmos diante do belo. Assim, que grande alegria podermos constatar que somos constituídos por parcerias verdadeiras que vão sendo construídas ao longo de nossa existência e que se tornam nossa real matéria embasante, que preenche e estrutura. A todos nós, ‘parabéns nessa data querida, muitas felicidades e muitos anos de vida’!
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