A palavra mentira sempre foi usada chegando mesmo a ser instituído seu dia, oportunidade em que se contam muitas a guisa de brincadeira. Hoje, no entanto, não se carece de dia especial – 1º de abril – para botá-las em ação e com seriedade. Homens importantes vivem a dizê-las diuturnamente sem pejo algum ao negar que roubaram ou que usaram dinheiro do povo para empregar parente. São tantas as mentiras delituosas correndo impunes em Brasília e mundo afora. O povo sabe e aceita.
Tenho sido insistentemente crítico aqui neste espaço, o que me leva hoje a pedir ao leitor para contar mentiras, não daquelas que prejudicam pessoas ou fazem chorar por perdas de dinheiro, por desobediência no trânsito ou depoimentos falsos que incriminem terceiros. Quero rir com os leitores de mentiras inocentes, como aquelas de pescadores consumindo horas de uma platéia atenta, gargalhando ao lado do garrafão de cachaça enquanto a lua de prata inspira os poetas apaixonados.
No arraial da Pedra Branca vivia Calimério, expedito e sorridente carteiro batendo as portas de toda gente entregando e recolhendo mensagens, chegando e partindo por todos os cantos do mundo. Era por todos e todas conhecida sua voz ao se aproximar cumprindo seu trabalho junto de novas mentiras:
– Bom dia dona Joana, chegou pra senhora uma carta das oropa.
– Bonitas verduras senhor Misael, deixei o jornal no alpendre, tem boa noticia: o Lula renunciou.
Assim corriam os dias em Pedra Branca. O padre rezava missa e cuidava das novenas, as beatas arrumavam a igreja, botavam flores no altar aos pés da Virgem Santa. O delegado Nicésio, sem ocorrência na delegacia, cochilava na cadeira com o soldado Puruca montando guarda na cela que nunca viu um preso. Não havendo as mentiras de Calimério a movimentar a vila, tão monótono seria a não valer a pena viver ali.
Conta-se que certo dia um grupo de jovens em leréia por uma rua viu Calimério em passos largos na calçada oposta como que ocupado em missão urgente. Um deles, mais arrojado, foi logo gritando ao passante:
– Oi, Calimério, passe de cá e venha contar mentiras para a turma aqui.
Foi rápida e sem pestanejar a precisa resposta:
– Não meus meninos: agora não posso. Estou indo ao funeral do delegado Nicésio lá no velório do cemitério.
A rapaziada mergulhou em profundo silêncio com a seriedade da informação no repentino apressado do Calimério. Não demorou quarenta minutos a população do arraial estava presente no velório do cemitério para velar o corpo do delegado Nicésio que dormia e sonhava em sua cadeira na delegacia sob a guarda do diligente soldado Puruca.
Exímio atirador com sua cartucheira 36 era bom caçador de aves o nosso Calimério que certa vez, em um só tiro, – afirmou –, abateu 99 rolinhas. Ao inquirir-se por um dos ouvintes:
– Porque não arredondar para 100 rolinhas Calimério?
– Você acha estar certo macular meu nome mentindo por causa de uma rolinha? Não faço isso!
<b>Garcia Netto</b>
<i>Jornalista</i>
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