De um amigo, correspondente no estrangeiro, recebi a notícia e um pedido de comentário sobre a ida programada de um grupo de 40 empresários brasileiros, em outubro para ex-república do império soviético, o Cazaquistão. A delegação deve ser chefiada pelo chefe do gabinete do Ministério de Indústria e Comércio, Ivan Ramalho.
O interessante na notícia é – aliás, se há algum interesse sobre um passeio turístico "para –, como dizem americanos – lugar nenhum" –, que na apresentação de produtos brasileiros `básicos` serão incluídos também os calçados. Na capital, Astana, estão programados encontros com compradores e será oferecido um seminário.
Quem tiver interesse sobre o Cazaquistão – e pode se informar no Google –, poderia saber que, por analogia, haveria alguma chance na Sibéria para nossas exportações que andam em franca queda. Há tempos comentei outra excursão turística para vender calçados na Noruega, cuja população corresponde ao dobro da Grande Belo Horizonte. Sem falar ainda na diferença de clima. Em matéria de calçados pouco teríamos a oferecer.
A salvação da indústria de calçados do Brasil não está mais na exportação. Este capítulo foi fechado definitivamente. Vamos nos conformar com o fato de que os mercados externos, quantitativos, foram perdidos para sempre. Reparem que eu disse "quantitativamente". Podemos exportar, isso sim, a qualidade da nossa mão-de-obra e nossa criatividade, desde que nos concentremos no desenho, ou melhor, no material humano capaz de suprir a função de criação e desenho.
O fato é que, se a Internet sair do ar de repente, nossos modelistas vão descobrir que lhes falta inspiração e ideias. Conheço pessoas que passam as noites navegando pela web em busca de novidades para adaptar com maior ou menor sucesso aos materiais que têm a mão. E como a ordem é economizar, desenham os modelos inspirados sobre formas inadequadas ("Você está doido? Mais uma forma nova? Você me quebra!"), modelam dois tamanhos em um só para economizar matrizes da alta frequência e fazem todos os tipos de gambiarras. Será que é assim que vamos competir com países de mão-de-obra barata, mas de tecnologia de última geração?
Não falo da competição externa. Refiro-me ao mercado interno, mercado brasileiro onde vamos travar a luta no campo de casa contra visitantes. Há muita coisa que pode e deve ser melhorada na indústria brasileira de calçados. A pergunta que se faz é "será que temos tempo suficiente para fazer tudo o que é necessário?".
A Índia começou em outubro do ano passado um programa governamental de apoio à indústria de couros e calçados, ameaçada pela concorrência chinesa de tomar os espaços globais com a sua exportação agressiva. Este programa destinou US$ 300 milhões de dólares, o que representa uma fortuna nas condições indianas, para treinamento de 300 mil operários especializados para couros e calçados, 20 mil chefes ou líderes como hoje é politicamente correto chamar os encarregados de produção e 3 mil empresários, dentre aqueles que já atuam ou estão preparando entrada no comércio global.
O que nos temos a oferecer contra isso? Ano passado o governo anunciou com grande estardalhaço a criação de 212 novas escolas técnicas de segundo grau, mas nenhuma para couros e calçados. Fica por conta dos cursos do SENAI criar a elite para a nossa indústria, com cursos dados por instrutores que só vão perpetuar a obsolescência de atuais tecnologias usadas nas fábricas.
Mostrei na semana passada, numa fábrica de calçado masculino de altíssima categoria, que não há necessidade de bater um prego e abrir um buraco no calcanhar do calçado, para posicionar o calçado na forma, afetando deste modo o visual e qualidade. Que no mundo se faz diferentemente. E provei o que sugeri. Resposta? Um dos envolvidos disse calmamente: "Aqui isso não dá certo". Ficou por isso mesmo.
Quem sabe os kazacos não se incomodarão com o pequeno detalhe de um buraco no calcanhar e possibilitarão a que abramos um mercado de tamanho respeitável para os nossos calçados. Esqueci de avisar que no Kazaquistão os invernos são rigorosos, duram longos meses e o calçado deve ser preparado para esta circunstância.
<b>LONGA E VAGAROSA</b>
A Associação Italiana de Fabricantes de Calçados (ANCI) está advertindo seus associados que a recuperação do setor calçadista após o declínio econômico será longa e vagarosa. O presidente da Associação, Vito Artioli, disse na abertura da Micam, semana passada que `Estamos cientes que a crise não foi causada por falta de competitividade de nossas indústrias e que as habilidades e qualidades dos nossos produtos não tiveram culpa no que aconteceu. Nossa competitividade permanece intacta. Esta crise é a crise do sistema, nascida no mundo financeiro. As razões não são da nossa responsabilidade`.
<b>E CONCLUIU</b>
`Os produtores italianos estão prontos para tirar todas as vantagens de qualquer sinal de recuperação e o desejo das empresas associadas de investir em mercados velhos ou novos permanece inalterado".
<b>ENTENDIMENTO</b>
Rivais no calçado esportivo, a Adidas e a Puma – criadas pelos irmãos Adolf (Adi) e Rudolf (Rudi) Dassler em Herzogenaurach, Alemanha – promoveram um encontro no sentido de melhorar as relações entre as duas firmas. Os irmãos comandaram juntos uma empresa de sucesso, a Gebrüder Dassler Sportschuh-fabrik, mas se desentenderam durante um bombardeio aéreo durante a Segunda Guerra Mundial, seguindo caminhos separados.
<b>Zdenek Pracuch</b>
<i>Sapateiro, shoemaker</i>
pracuch@comerciodafranca.com.br
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