As seis crianças que ninguém quer


| Tempo de leitura: 4 min
<b>MOMENTO DE DESCONTRAÇÃO</b> - Imagem de arquivo mostra o recreador Marco Aurélio Barbosa brincando com crianças abrigadas no Recanto Samaritano: seis crianças e adolescentes que vivem na entidade nã
<b>MOMENTO DE DESCONTRAÇÃO</b> - Imagem de arquivo mostra o recreador Marco Aurélio Barbosa brincando com crianças abrigadas no Recanto Samaritano: seis crianças e adolescentes que vivem na entidade nã
Renata (nome fictício) tinha apenas 8 anos quando foi retirada pela Justiça da casa onde morava com a mãe e o padrasto. O casal usava drogas e álcool. Eles não quiseram se tratar contra o vício. Outros parentes não foram encontrados para ficar com a menina. Renata foi levada para um abrigo que cuida de menores, o Recanto Samaritano. Há um ano, ela está morando lá. Agora, livre para ser adotada, é renegada de novo. Ninguém quer levar a garota para casa. Nem em Franca, nem no Brasil, nem em outros países. Os pais estrangeiros querem adotar crianças com, no máximo, 8 anos. Renata está com 9 anos e meio. A história dessa menina poderia ter um desfecho mais feliz, mais próspero também. Em Franca, 60 pessoas estão na fila de adoção. Mas elas desejam bebês. Não querem filhos mais velhos como Renata. A maior idade que os inscritos aceitam é 6 anos, ainda assim apenas um casal adotaria um filho nesta idade e só se fosse menina e branca. Outro pretendente ficaria com um menino mais velho, mas ele não pode ter mais de 4 anos e tem de ser branco. Não é só Renata que vive a dificuldade de ser aceita por uma nova família. No Recanto Samaritano, outros cinco adolescentes, de 12, 13 e 14 anos, também são renegados. Eles estão morando lá faz pelo menos um ano. Três deles são irmãos: um casal de gêmeos com 14 anos (ambos fugiram da casa no começo de setembro e retornaram dois dias depois) e um menino de 12. Eles foram levados para o abrigo em 2007. Foram retirados de sua casa porque a mãe tem problemas mentais. O Recanto não tem informações sobre o pai. Na idade deles, é ainda mais difícil encontrar pessoas que queiram adotá-los. A assistente social Abigail de Paiva Franco trabalha há 18 anos no Fórum de Franca e, neste período, só viu um caso de adoção de adolescente. O menino tinha 13 anos quando ganhou uma nova família. Outra situação delicidada é a dificuldade de manter os irmãos juntos, caso haja interesse na adoção. Dos 60 inscritos em Franca, apenas oito (13%) levariam irmãos para casa. Segundo Abigail, a cidade segue a tendência estadual e nacional. Os pais querem adotar meninas, recém-nascidas e brancas. “Não existe uma explicação plausível para essa preferência. Acho que é uma questão cultural. Isso nos remete a uma cultura sobre a adoção de que a criança que não é recém-nascida trará dificuldades na relação”, disse a assistente social. Neste ano, o Fórum encaminhou 12 crianças para adoção, mesma média dos anos anteriores. As assistentes sociais e psicólogas continuarão tentando encontrar famílias para adotar os seis adolescentes do Recanto. “A cada dois anos, os inscritos passam por nova avaliação para sabermos se mudaram o perfil desejado”, disse Abigail. <b>ÚLTIMA OPÇÃO</b> Quando as crianças e adolescentes são retirados dos pais, a adoção deve ser a última alternativa para o futuro deles. Antes da Justiça decidir por ela, assistentes sociais e psicólogos tentam levar os filhos de volta para as famílias ou encaminhá-los para parentes mais próximos, como avós, tios e irmãos. Mas nem sempre essas tentativas dão certo. Carlos (nome fictício), um dos seis adolescentes do Recanto que esperam pela adoção, sabe bem como é esse drama. Ele está com 14 anos. Seus pais morreram. Os avós e tios não quiseram ficar com ele. Faz um ano que ele está morando no abrigo e não sabe se conseguirá sair de lá para viver com uma nova família. E existe um prazo para isso acontecer. Os adolescentes podem ficar no Recanto até completarem 18 anos. Depois a lei considera que eles se tornam capazes de responder por seus atos e devem seguir suas vidas, deixando o abrigo. Até anteontem, a adolescente mais velha atendida na casa tinha 16 anos. A instituição oferece atividades, como cursos de informática e inglês, e estuda outros projetos para ajudar esses adolescentes a serem independentes. Existe a possibilidade de serem montadas em Franca casas para eles morarem. “Todo trabalho é pensado para o momento da saída do abrigo. A lei prevê a criação de repúblicas na cidade para abrigar os jovens que vão deixar a instituição e não conseguiram uma nova família, como já existe em Campinas. Estamos estudando essa opção para Franca”, disse Ana Paula Ribeiro, assistente social coordenadora do Recanto Samaritano. A expectativa é que os seis adolescentes que aguardam pela adoção não precisem viver nessas repúblicas e consigam encontrar novos pais. Mas se isso não acontecer, as casas deverão estar prontas para recebê-los.

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários