Há exatos 30 dias, uma reportagem do Comércio mostrou os detalhes de uma fuga de cinco crianças e adolescentes recolhidos e sob proteção do Recanto Samaritano Complexo do Aconchego, uma instituição destinada à guarda de menores em situação de risco. As saídas foram tratadas com naturalidade pelo secretário municipal de Ação Social, Roberto Nunes Rocha, para quem as escapadas seriam resultado direto e natural da curiosidade típica da idade.
Na noite de anteontem, logo após as 23 horas, uma menina seguiu o mesmo caminho que seus colegas tomaram no mês passado. Mas no caso dela, certos aspectos chamam ainda mais a atenção para a permissibilidade com que autoridades tratam instituições como o Recanto Samaritano, embasados na teoria de que os menores lá estão não para serem punidos, mas acolhidos, diferença conceitual que, entre outros pontos, propõe dar liberdade ao menor, o que, traduzindo, significa dizer que lá ele só fica se quiser.
A menina que fugiu é uma quase adolescente surda e muda, que aos 12 anos já é mãe. Mora há anos no Recanto, sem que fosse possível saber com exatidão esse período, e engravidou numa das saídas que fez do local em que está, ou deveria estar, sob proteção. Seu filho é cuidado por uma família de apoio.
Ela saiu do Recanto na quinta-feira à noite. Foi localizada por policiais militares horas depois andando pelo Jardim Guanabara. Acionado, o Conselho Tutelar levou a garota de volta ao lugar de onde tinha saído. Pois ontem, no final da tarde, ela saiu de novo. Podia estar na casa da mãe, no City Petrópolis, como suspeitavam os técnicos da casa, mas podia estar em qualquer outro lugar, prostituindo-se por uns trocados, prática que é de conhecimento dos conselheiros tutelares e dos dirigentes da casa que a abriga.
O exemplo da garota é apenas um entre tantos. As saídas, e não fugas, como disse Ana Paula Ribeiro, coordenadora do Recanto do Aconchego, são naturais para uma instituição que não existe para punir o menor, mas para acolhê-lo. “Dizer que ela fugiu não é certo, porque nem ela nem os outros estão detidos aqui, como se estivessem na Fundação Casa. Lá, eles estão cumprindo medidas sócio-educativas com restrição de liberdade. Aqui, não há restrição alguma, tanto que saem, fazem seus cursos, vão à escola, passeiam. Há muita confusão entre instituições de acolhimento, como a nossa, e aquelas que privam a liberdade”, disse Ana Paula.
Segundo a conselheira Glauce Limonti, uma reunião entre o Conselho Tutelar e a direção do Recanto está marcada para a semana que vem para discutir e tentar diminuir a incidência com que os menores saem da instituição sem que seus funcionários sequer tomem conhecimento.
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