Somos o resultado de nossos aprendizados. Se julgamos que estamos preparados para algo, tendemos a permitir alguma desatenção, e é exatamente aí que a coisa pega.
Dizem as estatísticas que a maioria dos acidentes de trânsito que bons motoristas sofrem acontecem nas imediações de suas próprias casas ou dos locais que mais frequentam. Os especialistas dizem que é exatamente nestes lugares que desarmamos nossos mecanismos de atenção e defesa, "porque julgamos que conhecemos bem cada centímetro do espaço que percorremos".
A pressa também é inimiga da perfeição pois transforma rotinas em desajustes. Testemunhei, há algum tempo, o descarregamento de um lote de sacos de farinha em panificadora por apressados entregadores que se locomoviam em caminhão. Tudo terminado, um deles foi à porta traseira do transporte e "fechou" a porta, que tinha um ferrolho. O motorista saiu em boa velocidade e meio quarteirão à frente, entrou à esquerda. Quando o fez, a aceleração centrípeta (aquela que joga "para fora" quem faz uma curva) fez com que a porta abrisse e "brindasse" uma perua que estava estacionada à direita, amassando-a consideravelmente. O auxiliar do motorista "poderia jurar" que fechou adequadamente o ferrolho, "como havia feito milhares de vezes". Mas...
Há outra. Cansei-me de ver amigos "caronas" de carro se abaixarem repentinamente quando avisados sobre a aproximação com uma daquelas árvores que, muito copadas, "derramam" galhos finos e muitas folhas na direção do asfalto. Para quem olha de repente para "aquilo" que avança em direção ao vidro do carro, a tendência é se proteger. E rápido, antes que...
Estas lembranças as recuperei ontem, durante um debate sobre desatenção no trânsito. Os próprios integrantes da conversa fizeram vários "mea culpa", contando experiências pessoais: carro parado à espera que o trânsito do centro se mexesse, teve a atenção despertada por pequena plaquinha em uma porta. Ao firmar os olhos para ver o que estava escrito esqueceu-se do freio – "a gente tira pressão do pedal" – e a pancadinha no carro da frente foi inevitável. Às vezes, quem está na frente, compreende; vez em sempre, não. É assim que o trânsito que mata funciona: depende da atenção e do bom humor. E claro, depende em muito da educação que a gente que dirige leva para o volante do carro, o guidão da moto ou da bicicleta.
A atenção humana é impressionante. Os jornalistas – pelos menos os sérios, totalmente profissionalizados – têm uma preocupação doentia com a possibilidade de erros. Aqui no Comércio, somos assim. Trabalhamos em um jornal com 94 anos que não chegou até o presente por acaso. Cada linha do que publicamos é o resultado de cansativas checagens do fato gerador e das palavras necessárias para descrevê-lo. Submetemos cada texto a várias revisões, inclusive de pessoas diferentes, para cercar a oportunidade do erro, mas, sabe as questões da atenção e da rotina? Juro que não cometemos erros "por querer". Quem aponta presta-nos grande serviço pois nos possibilita agir e agregar mais valor ao nosso cotidiano. Só não entendemos bem quem vai ao orgasmo quando encontra erros de digitação, de acentuação, ou de pontuação. Acho - e nisso, o ombusdman da Folha de São Paulo, Carlos Eduardo Lins da Silva, concorda comigo - que "leitor não deve ser inimigo do jornal" que lê.
Ainda assim procuramos entender quem especializa sua vida em encontrar erros neste Comércio, em boas revistas de circulação nacional, em outros jornais. Patologias à parte, vale.
Há uma pesquisa feita com base científica que concluiu que o que está no interior das palavras não conta para o mecanismo da atenção de um leitor. Então, se vcoê everscer um ttxeo odne só a pmrireia e a útaima lrtea de cdaa pvarlaa foerm cteras, vcoê eendnte o que etsá ectrsio. É por isso que qualquer texto pode passar por vários processos de revisão e ainda carregar erros. Como dizia meu avô, "errar humano é principalmente quando nossa atenção está cansada".
Não fiz aqui uma apologia ao erro. Cá neste Comércio, além de sofrermos muito com a mera possibilidade de cometê-los, temos sobre nós os olhos de milhares que respeitamos. O IBOPE diz que contamos – linguagem deles – com 94% de share, ou – linguagem nossa –, 94 pessoas em cada 100 sabem o que o jornal publica, todos os dias. Se nada mais nos fizesse cócegas, optaríamos pela dor...
GOSTOU?
Então, exercite sua leitura: "De aorcdo com peqsiusa de uma uinrvesriddae ignlsea, não ipomtra em qaul odrem as Lteras de uma plravaa etãso, a úncia csioa iprotmatne é que a piremria e útmlia Lteras etejasm no lgaur crteo. O rseto pdoe ser uma bçguana ttaol, que vcoê anida pdoe ler sem pobrlmea. Itso é poqrue nós não lmeos cdaa Ltera isladoa, mas a plravaa como um tdoo".
ENTALADO
Um caminhão "entalou" ontem no bico da cobertura do terminal de ônibus do centro da cidade. Não viu - ou não obedeceu - placa de trânsito que proibia o acesso de veículos com mais de 4,5 metros de altura na região e... pimba. O trânsito se tornou um caos em plena manhã. Foi preciso murchar os pneus do veículo e elevar um pouquinho a cobertura do terminal, para que desentalasse. Atenção, cansaço, rotina, sabe-se lá o que...
TÊM QUE NOS PERDOAR
Peguei a revista Cláudia de minha mulher e encontrei lá: "homens são seres que utilizam mais a parte direita do cérebro e, por isso são racionais, incapazes de ver detalhes e sim, o todo. Uau! Então é por isso que elas, pós-graduadas pela parte esquerda do cérebro, emoção pura tornadas deusas, gostam tanto dos detalhes. Estamos, os homens, perdoados pela ciência que tudo sabe, pelas pequenas desatenções com novos cortes de cabelo, brincos e pulseiras, peças de vestuário, datas esquecidas e todas as outras coisas que, não raro, elas transformam na terceira guerra mundial, emburram e nos deixam a ver navios. Claro! Deixei a revista aberta bem ali...
Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br
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