A inversão populacional, do rural para o urbano, é um enorme desafio para o mundo atual e futuro e, em particular, para o Brasil, devido ao nosso extenso território e à importância da agricultura na formação da nossa riqueza.
No mundo, 2009 fica registrado como sendo o primeiro ano da nossa história em que a população urbana supera numericamente a população rural. Conforme números divulgados, próximo de 60 milhões de pessoas - igual a população da França - migram anualmente da zona rural para a zona urbana e, dois aspectos se destacam nesse fenômeno: (1) de cada 03 cidadãos urbanos um é miserável e (2) a maioria absoluta desses migrantes é jovem e, com a ida para as cidades busca um novo estilo de vida que possibilite, mais do que um bom salário, acesso a cultura, lazer e inclusão digital. Para esses jovens a globalização levou-os a ver a produção rural em pequena escala como sinônimo de atraso e a produção em grande escala como sinônimo de desenvolvimento. Por isso deixam o campo.
No Brasil a situação é ainda mais delicada. Segundo a ONU, em 2005 o Brasil tinha uma taxa de urbanização de 84,2% e, de acordo com projeções essa taxa deve ir para 93,6% até 2050. Portanto, a conseqüência dessa inversão é a de um conjunto de demandas e de implicações sociais.
Além dos dados estatísticos alguns outros fatos recentes ilustram bem essa mudança. Recentemente, li matéria sobre o MST (Movimento dos Trabalhadores sem Terra) na qual se relatava a enorme preocupação de seus líderes com a desaceleração da grandeza do movimento, decorrente da falta de entusiasmo dos jovens na questão da posse e cultivo da terra. Os jovens, filhos dos assentados, não querem permanecer nos acampamentos e os jovens, filhos de trabalhadores mais pobres das cidades não querem ir para o campo. Assim, o movimento perde força e estímulo.
Mas, ainda, os indicadores que especulam com o futuro das cidades brasileiras são os mais preocupantes. As mudanças produtivas que ocorrem na sociedade, demandando mais informação, tecnologia e formação profissional; a resistência patronal quanto à necessária redução da jornada de trabalho para a conseqüente geração de mais vagas de empregos e uma maior dinamização dos setores de entretenimento, cultura e esportes; o modelo de escola pública (e privada) ainda reticente e carente de investimentos para ter a sua transformação em escola de período integral (possibilitando maior formação e proteção dos jovens); a deformação crônica da política nacional que desestimula a participação dos jovens nas discussões pertinentes ao seu próprio futuro e, como decorrência de tudo isso, a violência que atinge os jovens em todos os centros urbanos leva-nos a indicadores pessimistas quanto ao nosso futuro social urbano.
Obviamente que uma resposta rápida da sociedade e do Estado poderá mudar, significativamente, esse quadro de perspectivas sombrias. A esperança é que todo esse clima otimista em relação ao crescimento e ao bom momento que o Brasil está vivendo, reverta em investimentos de médio e longo prazos que garantam um País, mesmo essencialmente urbano, sustentável socialmente.
Cassiano Pimentel
Agente de exportação e professor universitário
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