Organizando em `caixinhas`


| Tempo de leitura: 5 min
No banco do jardim, nos corredores dos shoppings, nas salas de profissionais da saúde, cabeleireiros - onde quer que eu esteja com mais uma pessoa, lá vai meu pensamento voar.
No banco do jardim, nos corredores dos shoppings, nas salas de profissionais da saúde, cabeleireiros - onde quer que eu esteja com mais uma pessoa, lá vai meu pensamento voar.
Dizem que exercícios como palavras cruzadas, memorização de letras de música e poesias - atividades que exijam utilização dos neurônios - retardam doenças degenerativas. Apreensiva, toda semana compro um monte daquelas revistas. E resolvo todas! Aumenta o vocabulário e o conhecimento. Por exemplo, quando se pede o `Rival gaúcho do Grêmio`, sei que é o Internacional, mesmo que nunca tenha visto um jogo nem de um, nem de outro. Os `amados`, mato facilmente: a de Dêsdemona é o Otelo; a do Romeu é a Julieta; a de Abelardo é a Heloísa... Tem umas mais difíceis: `composição poética sobre tema galante`: madrigal. Outras de mau presságio: `Diz-se dos membros da ABL`. Obviamente a sigla significa Academia Brasileira de Letras e a palavra tem oito letras. Penso, penso, cruzo, cruzo, sem entender o motivo do desconforto e descubro: imortais. Encaixou. Imediatamente o Sarney vem à minha memória. Já pensou se ele leva a sério e resolve ficar por aqui para sempre? Meu santo! Bem, além de fazer palavras cruzadas, decorar poesias e saber de cor letras de milhares de canções para me livrar, como disse, de doenças degenerativas – , não apenas porque prometi guardar muitos segredos de amigos dos quais fui confidente em algumas ocasiões – mas porque na velhice não pretendo divertir quem não tiver o que fazer com minhas próprias confissões, adoro ficar olhando as pessoas e imaginar sobre elas. No banco do jardim, nos corredores dos shoppings, nas salas de profissionais da saúde, cabeleireiros - onde quer que eu esteja com mais uma pessoa, lá vai meu pensamento voar. Funciona construindo fantasias, ideando, concebendo situações, supondo, presumindo, conjeturando, idealizando sobre meu próximo. Ou minha próxima. Claro, faço isso quietinha, calada, mesmo porque nesses momentos, projeto no outro minhas próprias características - boas e más; desejáveis e reprováveis; explícitas e tantas outras (talvez a maioria) secretas... Vai daqui, vai dali, encaixo essas pessoas nos meus estereótipos. Sou rainha dessas construções. Atualmente, por exemplo, separo-as e as classifico nas minhas `caixinhas` com as seguintes etiquetas: Rico, Pobre, Eterno Rico, Eterno Pobre. Amanhã invento outras `caixinhas`: no meu pensamento mando eu. Esse negócio de riqueza não diz respeito a bens materiais. Tem o significado de grande quantidade, abundância, fartura, fertilidade, opulência, fausto, sim. Mas, vejamos: meu Rico também ri à toa... mas porque além de ser sua própria fonte de bens morais ou materiais, sabe se nutrir diretamente dela. É resolvido, sabe o que quer. E vai em busca de satisfazer suas necessidades. Não dá muita conversa, não. Meu Eterno Rico é raríssimo. Conheci poucos deles. Vicissitudes surgem e desaparecem em sua vida mas o Eterno Rico está sempre feliz. Muito dificilmente se queixa, sabe contornar com maestria esses reveses, sem uma lamúria, uma imprecação, um protesto. Adora música. O Pobre, figura mais que frequente, é facilmente reconhecível. Geralmente tem problema de memória pois volta e meia pergunta aos outros, no desempenho de funções que considera inferiores: `Você sabe com quem está falando?`. Compra tudo que vê - objetos de sua necessidade real e, com mais gosto, o que não precisa. Adora platéia. Produz mais barulho que ações. Obra de arte, para ele, é o que combina com seu sofá, ou tapete. Deve ter um alto-falante no gogó porque odeia passar despercebido. Ah! E, se tem um, cobriu seu carro com insufilme: ninguém o vê, mas todo mundo sabe que está ali. O Eterno Pobre é figurinha fácil, também. Faz-se de coitadinho. Sofre mais que a maioria. Seus problemas são insolúveis e suas dores, superlativas: a de dentes, cavalar; a das costas, monumental; a das pernas, insuportável. Revela-se, principalmente, pelo uso de duas expressões. A primeira: `E eu?...` que completa quando escuta o relato de uma situação. A segunda `Eu também...`, no momento em que interrompe o interlocutor para falar sobre si mesmo, seu assunto predileto. Quando me sinto diferente, observo os outros. E passo a fazer parte dessa estranha e maravilhosa fauna humana... <b>MITOLOGIA </b> Na origem, apenas existia o abismo nebuloso, chamado Caos. Uma força misteriosa juntou material, fez um disco que pendurou no vazio e, sobre ele, pôs a abóbada celeste, enchendo-a de ar e luz. Depois deixou planícies verdejantes se estenderem na superfície da terra, montanhas se erguerem acima dos vales. A água dos mares rodeou as florestas e penetrou nas bacias formando lagos. Torrentes desceram pelos declives das montanhas, formando rios. Em seguida, foram criados alguns habitantes deste mundo. Deuses e astros ocuparam o céu; no fundo do mar apareceram peixes; pássaros ganharam os ares como moradia e a terra foi destinada a todos os outros animais, ainda selvagens. Por fim, criou-se o casal divino - Gaia (a Terra) e Urano (o Céu) a quem foi dada a incumbência de povoar esse mundo. <b>ASPAS</b> `Quando alguém lhe disser que não é uma questão de dinheiro, mas de princípio, trata-se de uma questão de dinheiro.` (K. Hubbard) <b>REGISTRO SONORO</b> O título inicial Cauby canta Roberto, compreensivelmente foi mudado para Cauby Peixoto interpreta Roberto Carlos. Pela quarta vez, na carreira de cinqüenta anos, o Rei permite que um artista grave álbum só com músicas suas. Privilégio puro que o cantor atribui à admiração de Sua Majestade por ele... As quatro primeiras músicas foram gravadas no espaço recorde de menos de sessenta minutos e três delas finalizadas no primeiro take. Pode? <b>PONTO FINAL</b> Cruzamento da Rua Franklin Martins com a Avenida Alonso y Alonso. Numa esquina, a Clínica de Olhos; na outra, as novas instalações do Sebrae, à frente - atravessando a perigosa avenida - uma ponte de retorno. Aquilo ainda vai dar acidente feio pois os componentes alta velocidade + estacionamento irregular + impaciência dos motoristas formam uma mistura altamente explosiva. <b>Lúcia Helena Maniglia Brigagão</b> <i>Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras</i> luciahelena@comerciodafranca.com.br

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários