A pendenga entre noivos descontentes e o mosteiro cisterciense de Claraval pega fogo. As caixas de e-mails deste Comércio incharam desde que padre Marcos, vigário daquela paróquia cravou novas normas para casamentos realizados lá.
Como digo sempre, o conjunto das mensagens que nossos leitores e ouvintes nos mandam é um autêntico termômetro a indicar a temperatura de ebulição ou de congelamento sobre temas publicados pelo Comércio, ou levados ao ar pela Difusora. No caso específico, entre opiniões prós e contras, vencem aquelas pró-igreja e não apenas em aprovação às "novas" normas de padre Marcos mas sim reafirmando a necessidade de que toda a igreja Católica Apostólica Romana mantenha rijos seus compromissos com a humildade, simplicidade e respeito para com as causas divinas.
O vigário foi procurado para falar sobre a modificação de regras que impôs aos contratos já assinados com a igreja e não foi encontrado. Foi preciso ir até Claraval. Lá, ele resolveu atender a reportagem. Resumiu suas razões: "A diferença é que terão limitações para evitar exageros e não desvirtuar a essência do sacramento, que é quando o casal recebe a benção de Deus na igreja. A beleza também se dá na simplicidade".
Segundo contou à repórter Nelise Luques, “tivemos casais que enfeitaram a igreja com galhos de árvores entre os bancos; outros trouxeram 40 padrinhos. Assim o casamento vira um ato social”. Tem razão o padre. Tornou-se quase praxe montar a casa contando com um (bom) presente de cada padrinho. No meu tempo, padrinho era só um “outro pai” com que se podia contar em tempos de dividir alegrias e tristezas.
A decisão chamou a atenção regional. O problema principal, segundo gritavam os noivos, residia na quebra de contrato. Advogados deram seus palpites: não é possível que normas combinadas sejam modificadas após a assinatura de um acordo. O padre, que vinha sinalizando mudanças apenas para o início de 2010, parece que se arrependeu e voltou atrás: “muda já”. Está, porém, “à disposição para conversar com os contratantes’.
As mensagens que continuam chegando à seção Cartas do Comércio, identificam tendência de compreensão à decisão do vigário: "deveriam cumprir com quem já tinha marcado a celebração (Adriana), "só se pensa no status para impressionar as pessoas" (Marcelo); "passam horas testando maquiagem, roupas e cabelos e, ao sair da igreja, reclamam que o sermão foi demorado" (Celso); "perdeu-se a essência religiosa" (José), "chegam a dizer que quem paga está no direito de fazer o que bem entender" (Sílvio); "se há imposição não deveriam cobrar para realizar o casamento" (Rosemiro), "até que enfim a igreja acordou pois os casamentos estavam parecendo mais carnaval que sacramento" (Anderson).
Legalmente falando, casamento é um ato público registrado em cartório, mas, por tradição, noivo ou noiva que tenha alguma crença religiosa não abre mão da celebração na igreja. É cultural: o “crescei e multiplicai-vos” bíblico tem que ter benção divina - quase uma autorização - , mesmo e apesar da permissividade deste tempo gerar partos (quase) à porta de templos.
Para as igrejas e seus agentes – pastores, padres etc –, embora a ordem natural das coisas esteja subvertida e a guerra a ser empreendida esteja quase perdida, tem-se que continuar lutando pela preservação das tradições, do respeito e da espiritualização das pessoas. O que não pode - e nisso têm sido incisivos - é que se vulgarize o divino.
Acho que compreendo o padre que clama em deserto onde os surdos são maioria cada vez mais representativa.
<b>EU E ELA</b>
Surpreendi-me ontem. Pelo menos três pessoas diferentes comentaram comigo pequena caminhada que fiz com Lourdinha – minha mulher há 27 anos – , entre um supermercado e a casa onde residimos. Observaram que andávamos de mãos dadas, coisa "que quase não se vê mais, principalmente depois de tanto tempo de casamento". Agradeci. Lembrei-me de meus pais, Domingos (que já se foi) e Juraci, que me ensinaram o valor do calor humano e da satisfação que gente que se gosta deve passar um ao outro. Edmo, companheiro de Comércio, um dos que se manifestaram, completou: "é bonito ver, principalmente porque este nosso mundo caminha para a mais completa das solidões".
<b>EU E ELE</b>
Por falar em meu pai Domingos, lembrei-me que preciso agradecer também àqueles que sempre se manifestam sobre ele e eu nos jogos da Francana, um cuidando do outro até 1996, quando ele se foi. Até hoje, o "retrato" que compunhamos no "Lanchão" não foi esquecido. Então, grato ao Canchinha (dono de uma banca de jornais na Avenida Eliza Verzola Gosuen), Chico, Toninho Marconi, Joaquim Pedro Sobrinho e outros de quem não me lembro o nome mas sei exatamente quem são. Quando fui ver a Francana pela primeira vez tinha 7 anos e foi meu pai quem me levou. Gostei. Acompanhei-o em partidas até seus 91 anos. Ele adorava.
<b>TERMINANDO</b>
Perdoem-me pelas notas pessoais. Há ocasiões em que a gente precisa destacar coisas pequenas capazes de reafirmar que este mundo ainda tem jeito.
<b>Luiz Neto</b>
<i>Jornalista, editor de Opinião do Comércio</i>
luizneto@comerciodafranca.com.br
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