A bula é do povo


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A bula - como a Coca-Cola - foi uma invenção dos americanos para fugirem dos possíveis processos de clientes e usuários. Assim eles colocam na bula qualquer coisa que pode acontecer, pois quando você procurar a via judici
A bula - como a Coca-Cola - foi uma invenção dos americanos para fugirem dos possíveis processos de clientes e usuários. Assim eles colocam na bula qualquer coisa que pode acontecer, pois quando você procurar a via judici
Alguns leitores podem se perguntar qual seria a razão para alguém gostar de ler bulas de remédio. E, com certeza, podem existir várias razões. Eu, por exemplo, leio com atenção, por achar admirável o estilo empregado: bulas de remédio são bem escritas. Leio também por achar interessante o nome do princípio ativo de cada medicamento, que quase sempre, como não poderia deixar de ser, é bem diferente das palavras comuns do cotidiano da maioria dos viventes. Pois bem. Essa semana soube que a Anvisa já está modificando as bulas dos medicamentos em venda no País. Entre as alterações, o tamanho da letra, quase ilegível de tão pequena, que deverá aumentar. Outra exigência - favorável aos deficientes visuais - é proporcionar a leitura do impresso via telefone e a sua entrega em casa, em braile, quando solicitado. A bula, além das modificações que citei, começa a ser escrita em linguagem popular. Essa medida me desagradou. Vou perder anos de consulta ao dicionário e uma incipiente cultura farmacêutica a ponto de me considerar um dos melhores buláticos do Estado. Com isso, as bulas para mim perdem todo seu encanto e passam a fazer parte do cotidiano de qualquer um que compre remédios, sem exigir dele anos de pesquisas em termos científicos e afins. E esses geniais escritores de bulas? Certamente perderão o emprego depois de anos incentivando a cultura e a venda de dicionários. Fiquei envaidecido quando soube que o escritor Carlos Heitor Cony, imortal da Academia Brasileira de Letras também lê bula de remédio como eu. Em uma de suas crônicas escreveu: `Quando sofro um assomo de sabedoria e me considero razoavelmente informado, costumo ler bulas de remédio para sentir a humilhação de não entender nada do que estou lendo`. A bula - como a Coca-Cola - foi uma invenção dos americanos para fugirem dos possíveis processos de clientes e usuários. Assim eles colocam na bula qualquer coisa que pode acontecer, pois quando você procurar a via judicial eles têm a defesa de dizer que já estava tudo explicitado. Por isso, distinto leitor, é que se você olhar detidamente uma bula de um simples Melhoral desiste de tomar o remédio e segura a dor de cabeça. Lá estão discriminados casos de hemorragia, de AVC e outros hipotéticos males que o mísero Melhoral possa ter causado um dia. Ler bula sem a devida incredulidade não é tarefa fácil, creia. A bula tem história curiosa. As primeiras eram marcas feitas com anel para autenticar documentos oficiais e tinham a aparência de bolas ou bolhas, ambas com origem no latim bulla. Foi o rei francês Luís II, o Gago, que entre 877 e 879 denominou bula o selo real. Afinal, era semelhante a uma esfera ou bola. Antigamente, a embalagem mais comum dos remédios era uma garrafinha. Pendurada num cordão vinha a bula, que tinha o fim de atestar que não era uma garrafada, era remédio oficial. A garrafinha passou a ser denominada frasco. A substância, que era líquida, passou a ser oferecida em comprimidos. A rigor não deveriam existir bulas. O médico não precisa, pois se supõe que ele conheça a substância que prescreveu e os seus possíveis efeitos colaterais. O usuário fica perdido no meio de milhares de termos técnicos que mesmo essa facilitação prometida pela Anvisa não deve minorar. Com essa popularização da bula fico desprestigiado, qualquer doente vai ter o topete de discutir comigo a formulação de um medicamento sem nenhum respeito pelos meus vários anos de consulta a bulas de letras miúdas, usando lupas e óculos para adquirir essa sabedoria vedada aos leigos. Tudo virou lugar comum e todos vão ter acesso a segredos antes guardados em sete chaves e somente revelados a alguns iniciados que tinham, como eu, a paciência e petulância de ler uma bula do princípio ao fim. <b>MODERNIDADE</b> Projetos de edifícios de apartamentos, digamos assim, modernos, não têm mais a tradicional dependência da empregada doméstica, com quarto de dormir e banheiro. Os arquitetos concluíram que a modernidade mudou o cotidiano da família brasileira, que prefere agora a diarista, ou seja, a empregada que, literalmente, não dorme mais no local do serviço. Por isso, subtraíram dos seus projetos o quarto e o banheiro da empregada. Hoje, um apartamento de 72 metros quadrados, por exemplo, tem apenas um cubículo onde a doméstica passa a hora do almoço. <b>CIRCULA NA INTERNET</b> Antes de publicar um livro, se pergunte se ele faz falta ao mundo. Se não fizer, poupe as árvores. <b>NEGATIVO</b> A Vigilância Sanitária deveria ficar mais atenta aos supermercados. Frutas e verduras sujas e queijos fora da data de validade são algumas das queixas que os usuários têm feito à coluna. Tem mais e isso eu constatei. Encontrar sabonete em líquido ou álcool gel nos sanitários do shopping e de supermercados de Franca, nem pensar. E a gripe suína continua matando. <b>POSITIVO</b> Em várias cidades do Brasil é lei. Os shoppings são obrigados a contar com um posto de primeiros socorros. Aliás, isso deveria ser uma iniciativa própria desses estabelecimentos dado o grande número de pessoas que circulam nos seus ambientes. Repasso a idéia aos nobres vereadores francanos. <b>SEGUNDOS PRECIOSOS</b> O diretor explica a cena do dublê: `Quando o jogarmos na água, você tem que imediatamente gritar: olha o tuba!`. O dublê questiona: `Escute, diretor, não ficaria mais realista se eu gritasse: olha o tubarão?`. `Tudo bem` - disse o diretor – `Se der tempo você grita`. <b>Edward de Souza</b> <i>Jornalista e radialista</i> edward@comerciodafranca.com.br

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