Caro leitor, peço que compreendam a extensão deste artigo dominical, mas é assunto polêmico e não há como resumi-lo em poucas linhas. Aproveito para dizer que a aviação militar é fascinante e não há palavras para descrever o que é voar em um avião militar de combate.
Por questões pessoais e profissionais, desde a adolescência, sempre estive ligado à vida militar. Dessa forma acompanho desde o ano de 1998 quando a FAB (Força Aérea Brasileira) deu a largada para o projeto FX e cinco consórcios internacionais apresentaram propostas para venda de caças.
Para entendermos o tema temos que obrigatoriamente efetuar uma análise cronológica:
- No ano de 2003, o processo de compra, ainda sem conclusão, foi suspenso pelo presidente Lula, sob alegação de que a prioridade era o programa Fome Zero. - O projeto, renomeado FX-2, foi lançado em 2006, prevendo a compra de trinta e seis caças.
Quatro consórcios apresentaram propostas: a Rússia (Sukkoi), França (Rafale), EUA (F-18) e Suécia (Gripen). Os técnicos da FAB desclassificaram a proposta russa.
A sequência natural do processo seria os técnicos da FAB enviarem relatório ao ministro da Defesa, Nelson Jobim, que remeteria o processo ao presidente Lula, que por sua vez, antes de anunciar a escolha do vencedor deveria submeter o processo ao Conselho de Defesa Nacional. Mas, houve um `atropelo` e após o desfile de 7 de setembro, Lula se reuniu com o presidente da França, Nicolas Sarkozy e anunciou as negociações para a compra dos aviões de combate Rafale.
Não vamos aqui adentrar nos aspectos legais, se a licitação acabou ou não, tampouco se está correto entrar em negociação com um dos três participantes do certame licitatório esquecendo-se os demais. O que nos preocupa são outros aspectos.
Durante o processo FX-2, a maioria dos pilotos defendia que se a decisão fosse técnica e não política, o Brasil compraria os aviões Sukkoi da Rússia, pois o nosso país possui dimensões continentais, em razão disso precisamos de um avião que opere sem a necessidade de reabastecimento, ou voar com tanques suplementares, ocupando espaços reservados aos armamentos.
A tão falada questão de transferência de tecnologia é fato que deveria ocorrer em qualquer acordo, porém sabemos que na hora da venda as promessas são muitas e posteriormente pode-se pagar e não levar. Pois será que a França ou EUA estão dispostos a transferir todas suas pesquisas tecnológicas criando um futuro concorrente?
Se os EUA impõem restrições a Israel, seu eterno parceiro, que não pode vender nada que contenha componentes americanos, imagine o que fará conosco.
Na realidade o que os nossos políticos não querem dizer - tampouco aceitar - é que foi um erro enorme a privatização de nossas indústrias bélicas, dentre elas a aeronáutica, que sempre supriu nossas necessidades. Basta ver os projetos de aviões desenvolvidos nas últimas décadas - todos no período do governo militar - e que agora a Embraer privatizada comercializa, auferindo os lucros advindos das pesquisas e estudos desenvolvidos e financiados com dinheiro do governo. Assim, na hora em que deveríamos estar colhendo os frutos plantados, os passamos quase que graciosamente para que a iniciativa privada o faça.
Estávamos a um passo de conseguir produzir nossos próprios jatos, submarinos, helicópteros etc, gerando emprego e riqueza para o nosso País. Mas, os iluminados `revolucionários` que pensavam saber de tudo e, sem humildade, não vislumbraram a importância e o alcance daqueles projetos de longo prazo, agora se debruçam a analisar em qual país irá gerar empregos, pagos com o suor dos cidadãos brasileiros.
Caro leitor, é chegado o momento de vermos quem realmente defende os interesses de nosso país, pois sabemos perfeitamente que por detrás de todas as negociações militares, que envolvem cifras astronômicas, há outros interesses, particulares ou não, sendo atendidos. Por que não reestatizar 51% da Embraer, entrar em acordo com a sueca Saab e fabricarmos o avião Gripen? Mesmo que de tecnologia inferior, o importante seria substituir o máximo possível de componentes americanos por nacionais. Esta seria a única forma de retomarmos as pesquisas, através do ITA - Instituto Tecnológico de Aeronáutica, em São José dos Campos/SP e no futuro podermos negociar a venda de aeronaves de combate sem nenhuma ingerência.
Nosso governo tem que pensar em projetos a longo prazo para novamente reestruturar nosso complexo industrial militar, destruído nas últimas décadas. É preferível termos um avião construído no Brasil, mesmo que menos poderoso mas em número maior, do que concentrarmos toda a nossa estrutura de defesa nas mãos de um único país (França) que, a propósito, durante a guerra das Malvinas (1982) vendeu os misses Exocet para a Argentina e passou os códigos para que a Inglaterra pudesse neutralizar os ataques argentinos.
O Brasil hoje, em poderio militar, é inferior à Venezuela e ao Chile. Situação que poderia ser resumida da seguinte forma: estamos iguais a um sujeito em uma arena cheia de leões prontos a atacá-lo e sem nenhum armamento, pois acreditava que a paz seria eterna. Assim alguém lhe oferece armas que lhe serão entregues daqui a dez anos, e ele inocentemente acredita que os leões esperarão os 10 anos para atacá-lo.
<b>PRÉ-SAL</b>
Quem dizia que a Petrobrás era o último `dinossauro` do regime militar a ser derrubado, calou-se e agora defende com todas suas armas a criação de mais uma, podemos dizer, Petrobrás. Nada como um dia após o outro.
<b>Toninho Menezes</b>
<i>Advogado, administrador de empresas, professor universitário</i>
toninho menezes@comerciodafranca.com.br
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